A pequena serva de Naamã

0 Flares 0 Flares ×

A história de como Naamã foi curado de sua lepra seguindo a orientação de Eliseu para banhar-se no rio Jordão e passou a reconhecer Yaweh como único Deus é bem conhecida. Se não conhece ou não recorda pode ler em 2 Reis 5,1-19. Nosso objetivo com este estudo indutivo é chamar atenção para personagens esquecidas e silenciadas pela teologia, falaremos então da jovem serva de Naamã. Gostaria de chamar atenção para o protagonismo e as violências que esta personagem sofre e quem sabe abrir nossos olhos para situações vivenciadas por jovens e meninas hoje. Para isso, ofereço abaixo nova tradução do trecho que menciona essa personagem.

 

2Rs 5.2-5 – E saíram as tropas da Síria e levaram da terra de Israel uma jovem serva para ficar à disposição da mulher de Naamã. E ela disse a sua senhora: Ó, se ao menos, o meu senhor estivesse diante do profeta em Samaria, ele tiraria dele a sua lepra. E veio Naamã e explicou ao seu senhor dizendo: assim e assim falou a serva que é da terra de Israel. Então o rei da Síria disse: Vai, anda, e enviarei uma carta ao rei de Israel. E foi, e tomou em sua mão dez talentos de prata, seis mil siclos de ouro e dez vestes de gala.

 

A palavra que traduzi aqui por “serva”, também pode ser traduzida por “moça em idade de casamento, ainda virgem”, e a palavra que traduzimos por “jovem” também pode ser traduzida por “pequena”, no sentido de pouco importante. Creio que diante dessas possíveis traduções, entendemos que uma moça jovem que não era tão importante socialmente foi levada cativa de uma guerra.

 

  1. A partir do texto, que podemos saber sobre essa jovem? Há pessoas em situações parecidas hoje?
  2. Que tipos de violência ela sofreu por parte dos sírios? Consegue perceber essas violências na atualidade? Nos noticiários internacionais? Localmente?
  3. Como a jovem teria conhecimento sobre a atuação de Eliseu? Que grupo social seria capaz de trazer a ela essas informações?
  4. Ao se direcionar a sua senhora, ela estava rompendo normas sociais, que tipo de autoimagem a jovem tem de si que a leve a essa atitude? Isso é conflitante com a imagem que o narrador da cena constrói inicialmente da moça?
  5. Que riscos ela corria? Que tipo de religiosidade apresenta uma pessoa que ainda assim faz o bem aos seus algozes? No que essa religiosidade difere da religiosidade hegemônica dentro do cristianismo de hoje?
  6. Ao ler o restante todo do texto (2Rs 5.1-19), identifique quais as consequências políticas do testemunho da jovem.
  7. Consegue tirar conclusões teológicas a respeito da vida das mulheres nessa cena?

 

Ao acessar a história dessa jovem que não teve seu nome registrado, que raramente é lembrada face a presença de homens que são poderosos e nomeados, percebemos que a convivência com a comunidade, a consciência da situação da nação e o desenvolvimento humano e religioso não são esferas separadas para as pessoas que registraram essa história. A jovem era uma presa política escravizada em terra estrangeira. Isso implica a convivência com uma cultura diversa em uma posição social inferior sob trabalho forçado. Apesar de carregar em seu corpo as marcas da violência estrutural e simbólica, ela se transformou em protagonista na promoção da paz e da vida. A palavra de esperança, como um dom criativo e criador de possibilidades, de uma menina que percebe as situações ao redor e as sente conscientemente transforma a história.


Carolina Bezerra de Souza é teóloga feminista, mestra e doutora em Ciências da Religião. Pós-doutoranda em Teologia Bíblica Feminista no Programa de Gênero e Religião nas Faculdades EST


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.


Revisora: Larissa Liz

 

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Google+ 0 LinkedIn 0 0 Flares ×