As mulheres do início do presbiterianismo brasileiro: o caso de Elizabeth Simonton

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Quando contamos a história da reforma protestante, nós comumente temos um caminho bastante simplório. Primeiramente, estudamos a reforma protestante como algo que somente ocorreu a partir de 31 de outubro de 1517, quando Lutero colocou na catedral de Wittenberg as 95 teses. A partir desse ponto, estudamos os teólogos (leia-se no masculino) europeus que encabeçaram este novo momento da cristandade. Apesar de ser um tema importantíssimo de pesquisa, acredito que esse material já possui bastante olhares.

O tema da Reforma Protestante é muito mais amplo do que isso. Houveram pré-reformadores antes dessa história se marcar nessa data e muitas águas rolaram até que hoje você, leitor, se considere protestante ou, sendo mais honesto, evangélico. E algumas dessas contribuições esquecidas da Reforma Protestante são vindas de mulheres.

Algumas de nós, maioria também mulheres, estamos na luta para buscar a história perdida destas grandes personagens históricas, como a própria Catarina Von Bora, mulher de Lutero. Rute Salviano Almeida tem feito um trabalho magnífico nessa direção ao produzir livros como “Uma voz feminina na Reforma”, sobre a Margarida de Navarra e o “vozes femininas no início do protestantismo brasileiro”, contando a história de mulheres batistas. No mundo da assembleia de Deus, Gideon e a Valéria Vilhena estão restaurando a história da Frida, uma mulher fantástica no início das Assembléias de Deus e eu, humildemente, quero trazer o nome de Elizabeth Simonton e algumas outras mulheres que contribuíram no início do presbiterianismo no Brasil. O faço sabendo de minhas limitações de não ser historiadora, porém de ter estagiado por algum tempo no Museu História Viva do Presbiterianismo.

Quando se pensa no início do presbiterianismo no Brasil, a primeira imagem que surge é de Ashbel Green Simonton (César, 1983 e IPRJ, 2012) e, talvez, de Alexander Blackford. Porém, a história do presbiterianismo também possui mulheres importantes que valem a lembrança.

Na família de Ashbel Green Simonton é possível se observar exemplos. Este nasceu em 20 de janeiro de 1833 na Pensilvânia, nos Estados Unidos da América, filho de William Simonton e Martha Davis Snodgrass Simonton. Martha (p.19, 2012) já era de uma família com muitos pastores, inclusive o pai dela. Ela também escolheu o nome do filho em homenagem ao pastor Ashbel Green, que foi presidente da Princeton College e foi pastor da Segunda Igreja Presbiteriana da Filadélfia. Então, a vinculação com a religião veio muito devida a história de sua mãe. O pai, William Simonton, era médico e foi eleito para o congresso americano. Apesar de ser presbiteriano, não tinha grandes interesses pelo protestantismo.

Por influência da mãe, o jovem Ashbel Green Simonton cursou o Princeton College e se licenciou para trabalhar como professor de meninos, com quinze anos. Trabalhou nessa área por quase dois anos até que decidiu fazer o curso tradicional e entrou nos estudos de direito. Aos vinte anos, todavia, Simonton se sentiu tocado pelo Senhor Jesus Cristo e fez sua pública profissão de fé, contribuindo para uma mudança no estilo de vida. No mesmo mês, desistiu de cursar direito e começou a estudar hebraico, até entrar no Seminário Presbiteriano de Princeton.

Sentiu de imediato o chamado missionário, considerando ir para Nova Zelândia, Bogotá, Colômbia ou o Brasil. Em meio a dúvidas e debates com o presbitério sobre o desejo de viajar, este conversava com a mãe. No dia 19 de outubro de 1857, Simonton registra em seu diário:

“Minha mãe me escreve: ‘É difícil separar-se daqueles que talvez não vejamos mais sobre a terra. Mas quando penso no valor das almas imortais que estão se perdendo pela falta do verdadeiro Evangelho – o conhecimento do bendito Salvador – considero um privilégio ter alguém que queira sacrificar tanto e devotar tudo ao serviço do mestre. Recomendo você com orações e lágrimas ao Senhor, que faz tudo bem. ” (p.21, 2012)

 

Sonhando em aprender português, Simonton vai para o Western Seminary para receber aulas dessa língua e, na classe, conhece Alexander Blackford, que também era recém-formado em teologia, pastor presbiteriano e que igualmente tinha um projeto para ir ao Brasil. Logo a amizade se estreitou e começou a frequentarem as casas mutualmente. Nessas visitas, Alexander Blackford conhece Elizabeth Simonton, irmã do amigo. Logo estes começam a namorar e casam.

Além dessa irmã, Ashbel Green Simonton tinha mais três (p.23, 2012). Uma se chamou Martha Jamison Simonton, que casou com pastor presbiteriano Thomas Davis Bell. Outra era Janes Simonton, igualmente em laço matrimonial com um reverendo presbiteriano, chamado John Hugh Rittenhouse. A última irmã, Anna Mary Simonton, nunca se casou e viveu para cuidar da família.

A primeira viagem para o Brasil, Simonton vem sozinho, desembarcando em 12 de agosto de 1859 no Rio de Janeiro. Sem conhecidos na cidade, procurou o cônsul dos Estados Unidos. Logo o cônsul e um casal de amigos deste se prontificaram. Assim, Simonton jantou em sua casa, em Botafogo. Sr e Sra. Scott e Sr. e Sra. Roberts foram pessoas essenciais para ele se situar na cidade (p.27, 2012).

Ashbel descobre que existem muitos outros protestantes no país e que a Bíblia evangélica já circulava pelo país desde 1822. Assim, ele tenta entrar em contato com pastores congregacionais, metodistas e colegas presbiterianos que já tinham se mudado para o país. Logo em 1860, o médico congregacional Dr. Robert Kalley e a esposa Sara P. Kalley, professora, recebem Simonton em casa por alguns dias, em Petrópolis. Com o contato dessa professora, Simonton decide iniciar a Escola Bíblica Dominical, além dos cultos. Em abril de 1860 já começaram as primeiras aulas.

No dia 6 de junho de 1860 chegam no Rio de Janeiro Elizabeth Simonton e Rev. Blackford (p.30,2012). Interessante observar que em quase todos os documentos que se referencial ao casal, o nome da esposa vem antes.  Logo que chegaram ao Rio de Janeiro, começaram a morar em Santa Teresa e auxiliavam Ashbel Green Simonton. No período de dezembro de 1860 a março de 1861, por exemplo, o casal ficou à frente da igreja presbiteriana do Rio de Janeiro enquanto Ashbel viajava para São Paulo a distribuir Bíblia. Os cultos na igreja do Rio de Janeiro começaram as quintas-feiras e as tardes de domingo e rapidamente se tornaram regulares, com a frequência de três a vinte pessoas.

Em janeiro de 1862, foi alugada uma sala na Rua do Ouvidor, sendo a primeira sede oficial da missão presbiteriana. Na consagração dessa sede esteve presentes Ashbel Green Simonton, F.J.C Schneider, James Snodgrass Simonton, irmão mais novo da família, Sr. Milford, Sr. Camilo Cardoso, um português e a Sra. Elizabeth Wiggins Blackford, sem o marido. Estes receberam membros em pública profissão de fé.

Porém, em março de 1862, Ashbel Green Simonton recebe uma carta de sua mãe, avisando que está em estado grave de saúde e que ele não deve demorar a visita-la. Então sua irmã Elizabeth, rev. Blackford e o rev. Schneider o convence para ir aos Estados Unidos encontrar a mãe enquanto estes tomavam conta da missão presbiteriana do Rio de Janeiro. Assim, no dia 31 de março de 1862, este embarcou de volta ao país natal (p.37, 2012).

Chegando em Baltimore, além de se encontrar com sua mãe, visitou diversas igrejas a fim de divulgar seu trabalho missionário, dentre elas a Primeira Igreja de Baltimore. Nessa igreja conheceu a família Murdoch, que o convidou para passar o Natal com eles. Ali conheceu Helen Murdoch, que logo se tornou sua noiva e casou com Ashbel Green Simonton em 19 de março de 1863. Logo em seguida, Helen embarca com o seu marido para o Brasil em 23 de maio de 1863 (p.39, 2012).

Ao chegarem ao Rio de Janeiro, foram recebidos pelo casal Blackford que ficou 470 dias cuidando da comunidade enquanto Ashbel Green Simonton viajava. Nesse período, todos moraram juntos na casa do casal Blackford em Santa Teresa e Elizabeth logo se aproximou muito de Helen. Porém, logo em seguida o casal foi para São Paulo, fortalecer a missão que lá se iniciava.

Rapidamente Helen Murdoch engravida e em 19 de junho de 1864, nasce a filha do casal, Helen Murdoch Simonton. Porém, nove dias depois, a esposa de Simonton morre, por complicações do parto, sendo enterrada no Cemitério dos ingleses, no Rio de Janeiro.

A pequena Helen então foi alimentada por uma ama de leite, chamada Maria, escrava da Madame Bishop. Porém, Ashbel Green Simonton achou melhor que sua filha fosse criada pela irmã, Elizabeth Blackford e, então, levou Helen com quatro anos, ao lado de Maria, para um navio em direção a São Paulo (p.42, 2012).

Na casa de Elizabeth e Alexander Blackford, Maria se converte e integra ao grupo de novos convertidos da igreja presbiteriana de São Paulo. Helen vive em São Paulo com a tia até seus quinze anos, quando Elizabeth decide que será melhor para a educação da sobrinha viver nos Estados Unidos. Lá entra em contato com a família Murdoch, da linhagem da mãe de Helen Murdoch e então Helen Simonton é criada por duas tias. Pouco tempo depois, Elizabeth Blackford volta ao Brasil a fim de continuar sua missão e somente voltou para os Estados Unidos perto de sua morte, aos 57 anos, onde preferiu ser enterrada no Brasil. No total, foram vinte anos dedicados ao trabalho missionário.

A primeira mulher a ser recebida na igreja presbiteriana no Brasil foi a sra. Eulália Cândida, em 1862, pelo casal Blackford enquanto Ashbel Green Simonton estava nos Estados Unidos. Nesse período foi realizado, também, o casamento desta senhora com o sr. José Maria Ferreira, conduzido pelo rev. Blackford. Em São Paulo, há registros das primeiras mulheres presbiterianas em 1865, além de Maria. Seus nomes eram Anna Luiza Barbosa Silva e Olympia Maria da Silva, provavelmente irmãs.

Em 1866, um mero membro apaixonado pelo trabalho missionário chamado George Chamberlin (P.54,2012) se apresenta como um possível missionário coadjuvante. Assim, este auxilia rev. Blackford em São Paulo. Em 1868, conhece e casa com Miss Mary Ann, que era professora da Escola Americana e aonde conseguiu também uma vaga de educador. Quando o casal Blackford precisava viajar, estes ficavam em seu lugar.

Ashbel Green Simonton, todavia, em 1867 começou a sentir mal-estar, dor de cabeça e febre, cada vez se agravando. Assim, viaja para São Paulo para ver sua irmã, sua filha e seu amigo, rev. Blackford. Nesta passagem, Elizabeth a seguinte conversa com seu irmão:

 

“Elizabeth – Tem algum recado para os amigos do Estados Unidos?

Ashbel – Nada de especial. Diga-lhes que os amei até o fim.

Elizabeth – Alguma mensagem para o board de Missões?

Ashbel – Diga-lhes que toquem para frente o trabalho.

Elizabeth – E a igreja do Rio? Que falta vai fazer!

Ashbel – Deus levantará outro para pôr em meu lugar. Ele fará sua própria obra com seus próprios instrumentos.E, ao perceber que fiquei tomada de grande emoção, disse-me:

Ashbel – Devemos, apenas, nos recostar nos Braços Eternos e estar sossegados. ” (P.56-57, 2012)

 

Assim, faleceu aos 35 anos e foi enterrado em São Paulo, aonde futuramente a irmã seria enterrada também. Além de Elizabeth, Alexander Blackford terá uma segunda esposa (P.64, 2012), chamada Nannie Thornwell, que não tinha o mesmo amor missionário que a primeira, mas que o deu três filhos: Joseph, Alexander e James.

Mais tarde, ainda nesse século, se estabeleceu a primeiro coletivo dentro da igreja, que foi a Sociedade Auxiliadora Feminina (p.143, 2012), a SAF (1898). A primeira presidente foi Susan Carolina Porter em posteriormente, com a instituição da eleição, a primeira eleita foi a sra. Joanna Tavares Sá. A finalidade primeira desse grupo era realizar estudos bíblicos e arrecadas fundos para os necessitados da igreja. Posteriormente, foram agregados trabalhos manuais, como a costura e que permanecem até hoje.

Perceba: a história do protestantismo que você exerce hoje não está permeada apenas do que os reformadores disseram, e muito menos somente do que homens viveram. Por isso, acolher a reforma feita por mulheres é enriquecer a Reforma Protestante.

 

Bibliografia:

CÉSAR, Erlie Lenz, Os setenta anos de uma igreja abençoada: Igreja Presbiteriana de Copacabana, 1913-1983. Rio de Janeiro: Associação Fluminense de Educação, 1983

IPRJ, História da Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: MCE Gráfica e Editora, 2012.

* Texto publicado originalmente em Teologicamente Instavel


Rebecca Maciel é carioca, psicologa, teóloga e escreve no blog Teologicamente Instável.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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