Breve comentário sobre maternidade e domesticidade historicamente compulsórias para as mulheres negras no Brasil

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“Nois é pobre, mas é limpinho é uma frase que apenas ouvi saindo de bocas de senhoras negras trabalhadoras domésticas. Em muito ela tem me feito refletir. Tenho, através deste texto, a intenção de compartilhar rapidamente o que estou conjeturando em relação aos aspectos da domesticidade e da maternidade de mulheres negras. Para isso, acho importante considerar pensamentos de Lélia Gonzales (1935-1994), intelectual negra da área das Humanas (História, Filosofia, Sociologia, Antropologia e Política), no texto “Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira”, de 1984.

Lélia diz que cabem apenas três papéis à vida da mulher negra: ser mulata, doméstica e/ou mãe preta. Nessas figuras da mulata e da doméstica, fica embutida uma amálgama que resulta na figura da mucama, comum no período escravocrata. A mucama é constantemente reativada pelo imaginário social, isto é: uma figura que costumamos ver e reproduzir, ainda que sem querer. Na atualidade, a mulata é exaltada nos momentos de carnaval e a doméstica, por ser figura do cotidiano, é o contrário da exaltação – é a figura do “burro de carga” na prestação de serviços.  Quanto à figura da mãe preta, a autora diz:

“A única colher de chá que dá pra gente é quando fala da “figura boa da ama negra” de Gilberto Freyre, da “mãe preta”, da “bá”, que “cerca o berço da criança brasileira de uma atmosfera de bondade e ternura” (p. 343). Nessa hora a gente é vista como figura boa e vira gente. Mas aí ele começa a discutir sobre a diferença entre escravo (coisa) e negro (gente) pra chegar, de novo, a uma conclusão pessimista sobre ambos.” (Gonzales, 1984, p. 235)

Se pensarmos na frase que inicia este texto, podemos relembrar a História racista que nos constitui enquanto nação. Esse desdobramento nos traz ao que chamarei aqui de quatro faces das mulheres negras em famílias e lares, apenas para fim de ilustração.  Na primeira face, estaria a negra que é responsável pela criação dos filhos de seus patrões. Na segunda, a que é encarregada de dar ordem e limpeza aos lares de seus patrões. Essas duas primeiras têm igual importância e são ativadas ao mesmo tempo na trabalhadora doméstica. Na terceira face, teríamos a negra que é mãe de filhos que ela pariu ou que adotou; filhos de dentro de sua casa. Na quarta, a face que recebe menos atenção, que é a responsável por dar conta da alimentação, da limpeza e da ordem de seu próprio lar, de onde quase sempre se ausenta.

Sabemos, através do feminismo, suas teóricas e práticas, que a domesticidade e a maternidade são compulsórias em nossa sociedade. São aspectos da vida de mulheres que recebem pesadas cobranças. Esses papeis de mãe e doméstica vêm com prescrições únicas e delimitadoras, o que acaba por constituir mulheres frustradas com seu desempenho, humilhadas perante suas famílias e comunidades.  Fazendo um recorte transversalizado, esses fardos são muito maiores que a própria mulher negra. São tão reais e presentes na sociedade brasileira que, mais de cem anos pós-abolição, ainda temos até a arquitetura pensada para que a mãe preta se perpetue.

Geralmente mãe solteira ou viúva, todas estas faces (ou cargos de trabalho) devem ser representadas unicamente pela mulher negra. Não há figura que possa substituí-la. Seguindo o mesmo texto de Lélia, vemos que a mãe preta é a definição pura e simples de mãe:

“Ela, simplesmente, é a mãe. É isso mesmo, é a mãe. Porque a branca, na verdade, é a outra. Se assim não é, a gente pergunta: quem é que amamenta, que dá banho, que limpa cocô, que põe pra dormir, que acorda de noite pra cuidar, que ensina a falar, que conta história e por aí afora? É a mãe, não é? Pois então. Ela é a mãe nesse barato doido da cultura brasileira. Enquanto mucama, é a mulher; então “bá”, é a mãe. A branca, a chamada legítima esposa, é justamente a outra que, por impossível que pareça, só serve pra parir os filhos do senhor. Não exerce a função materna. Esta é efetuada pela negra. Por isso a “mãe preta” é a mãe.” (Gonzales, 1984, p. 235)

Se tomarmos em consideração a demanda social que recai sobre a mulher negra, inclusive – e, em alguns contextos, principalmente – a função maternal de filhos que não são seus, chegaremos ao significado verdadeiro da frase em que se inscreve que ser pobre não necessariamente é ser sujo. De onde vem a associação da limpeza à riqueza e da sujeira à pobreza, consequentemente, a ideia de negrura suja e brancura limpa? Não são justamente essas mulheres pobres e negras que dão aos lares brancos seu tom de higiene? Por que a mulher negra cria bem os filhos dos patrões, mas é avaliada como má mãe na cabeça das pessoas? Por que essa função de empregada “quase da família” não recebe o título de mãe, se é justamente esse o caso?

A jornada de uma mulher negra doméstica e mãe faz com que sua vida seja considerada como secundária por ela mesma. A prioridade não é o seu lar, senão os dos outros que mandam nela: seus patrões, quase donos. A frase “nois é pobre, mas é limpinho” nada mais é que uma manifestação de orgulho obstinado pelo cumprimento dessas quatro faces impostas à mãe preta. A mãe preta consegue ser quatro mulheres diferentes com louvor. Até chega a manter seu lar limpo. Penso que fontes e dizeres populares podem ser grandes referenciais para a compreensão de quem somos. Em nossos dias, é bastante importante nos perguntar como as opressões de classe, gênero e de raça se configuram na vida de uma mulher negra.

Foi assim que cheguei a esta inquietação com a frase dita, inclusive por mim, várias vezes. E não sou mãe. Nem trabalhadora doméstica. Tenho apenas 23 anos, sou estudante. Mas vejo que desde a limpeza de minha casa até no cuidado de meus irmãos, quando éramos novos, houve e ainda há uma cobrança implícita que recai sobre mim, a filha negra. Como se me fossem intrínsecas a mãe preta e a mucama; como se esta fosse minha vocação. Eu, talvez como Lélia Gonzales, tentei me encarregar de outras coisas. Sobretudo do pensar, do refletir, do escrever. É por isso que incomodo e recebo insultos.  É um absurdo que eu não saiba cozinhar, não goste de fazer faxina, seja desorganizada, não queira ser mãe. Não são estes os papeis sociais reservados a mim?


Zainne Lima da Silva é estudante de Letras na FFLCH-USP, trabalha com Arte-Educação e escreve para a Coletiva Entre Irmãs de mulheres negras. Alimenta as plataformas Facebook, Medium e Blogspot com o Escrita de Preta.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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