Chiara Lubich: uma história de amor nada convencional

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Venho falar de uma história de amor, de luta, de revolução, de força e alegria. Estranhamente, aqui a guerra caminha lado a lado com o contentamento e o amor.  Difícil dizer onde esta história começou, mas a minha escolha narrativa se faz em 1920, em uma cidade chamada Trento, na Itália, onde nascia Chiara Lubich, em uma família com fé fervorosa em Cristo e uma sensibilidade para as lutas sociais e políticas.

Na década de 1940, tornou-se professora primária, e, posteriormente, fez filosofia pela Universidade de Veneza. Ainda nesse período, Chiara e sua família se deparam com a realidade cruel apresentada pela Segunda Guerra Mundial, e é nesse contexto que ela inicia um questionamento que irá marcar toda a sua trajetória:

Haverá algo que, diferente de tudo o que vejo, não desmorona?

Pergunta difícil de ser respondida em tempos em que nada parecia ser seguro e tão forte ao ponto de resistir à destruição.

Em um dia aparentemente como qualquer outro, enquanto lecionava, um padre, ao perceber a sua devoção, a questiona sobre a possibilidade de ela dedicar uma hora do seu tempo para lecionar em sua comunidade. Tomada pelo seu desejo em ser útil, se prontifica em dedicar não só uma hora, mas um dia inteiro para lecionar naquela comunidade; mal saberia ela que essa atitude a levaria a sentir e iniciar uma caminhada única. Foi então que o padre, tomado pela alegria, lhe disse:

“Deus a ama imensamente!”

Sim, uma frase aparentemente tão recorrente nos espaços cristãos, marcou sua alma como fogo, expressão utilizada por ela.  Aquela fala abriu os seus olhos para uma realidade aparentemente adormecida ou apagada pela seriedade dos dias, ou pela racionalidade da existência. A partir daquele momento ela reconhece a presença de Deus em toda parte, poderíamos dizer que a história de amor aqui iniciada não era à primeira vista, mas sim, um processo de construção no qual, a partir da ação do Espírito Santo, o coração de Chiara se uniu ao coração do seu amado, ao amado da sua alma. As reverberações dessa frase e desse amor eram tamanhas que não poderiam ficar somente no seu interior. Então ela começa a partilhar dessa chama do amor com outras companheiras, as quais tocadas,  se unem para fazer a diferença em tempos tão sombrios.

Ela diz:

“Apesar da guerra, o sorriso despontava em nossos lábios. Novidade de uma nova vida”

Era tamanha a felicidade por haver encontrado esse amor que para ela:

“Nada passa despercebido ao seu amor, envolve a igreja, o mundo e o universo”.

Não seria essa a maior efervescência de um amor que não é platônico e nem utópico, mas que diz de uma relação estabelecida não só com o Pai, mas também com os outros, com a vida, com tudo que permeia a sua existência? Foi nesse processo de reconhecer o imenso amor de Deus que ela se converteu ao seu amor, aos 23 anos, em 1943, ela decide se entregar, completamente, a vida com o seu amado, se entregando ao voto de castidade.  

Em 1944, após um bombardeio em Trento, a família de Chiara decide fugir da cidade, mas ela sente em seu coração que não deveria deixar a cidade, ainda que tomada pela preocupação e angústia de deixar a sua tão amada família partir. Naquele momento veio a sua mente:

“O amor vence tudo”

Acolhida por esse pensamento e guiada pelo Espírito Santo, permanece em Trento . Talvez você se pergunte: como ter tamanha convicção de um amor que não é sentido em um olhar ou em um abraço? Como se relacionar com alguém com tanta certeza? Como pode alguém se entregar assim? Para Chiara Lubich, o seu amado Jesus Cristo não era alguém distante ou sem um olhar ou abraço aconchegante, para ela o seu amado poderia ser encontrado atrás de cada irmão, principalmente dos que estão em sofrimento: “estes representam Cristo de um modo especial”.

“Onde dois ou mais estiverem reunidos no meu nome ali estou no meio deles, se estivermos unidos em amor ele está aqui, Jesus pode estar presente em qualquer lugar, podemos amá-lo em cada irmão”

Para ela, se entregar a Cristo era se entregar aos seus irmãos, a partir disto surge o que veio a ser chamado Movimento dos Focolares. Este movimento surgiu como um modo de responder à pergunta que apresentei inicialmente: “Haverá algo que, diferente de tudo o que vejo, não desmorona?”, e então a resposta é: sim, Deus, que se manifesta pelo amor.

“Façamos de Deus o ideal das nossas vidas”

Iniciado em Trento, este movimento  se propõe a seguir o exemplo dos primeiros cristãos, nos quais o vínculo estava no amor em Cristo, permeado por uma total comunhão dos bens espirituais e materiais, por isso, para ela a vida humana deveria ser integralmente entregue a relação com Deus.

“Por que as pessoas se contentam com orações feitas sem almas, com as doações dadas sem amor, com a falta de gosto nos ambientes e nos modos de se vestir?; Deus, além de ser verdade e bondade, não é também beleza e harmonia?”

“Por que a fé de tanto cristão se reduz a ir à missa aos domingos? Por que as pessoas rezam com tanta distração ou por interesse? Deus não é o Deus de todos os dias e de todos os momentos da nossa vida?”

Diante de um contexto de Guerra e sobre a lógica Capitalista, pensar em um movimento com essa proposta parece loucura, porém o movimento foi crescendo e contagiando o mundo todo, ultrapassando a Europa, em 1959, e chegando inclusive no Brasil. Também foi além das portas da igreja Católica Apostólica Romana, alcançando diversas igrejas com variadas doutrinas (ortodoxa, anglicana, luterana, entre outras) se tornando, Chiara Lubich, a porta voz do que foi chamado de ecumenismo do povo.

O movimento dos Focolares se propõe a implantar uma cultura do diálogo e da paz, não só no âmbito espiritual, mas também econômico. Trazia nessa fé e nas ideias uma proposta de transformação diante dos padrões sociais impostos, mas claro, a partir dos preceitos apresentados pelas escrituras. Para ela, cabe a nós dizer ao mundo quem é o Pai, por isso a sua vida e a dos que com ela decidiram caminhar, partilhavam dos mesmos pensamentos, propondo o que ela chamou de uma “Revolução Cristã”.

“Isso pode provocar uma revolução no mundo, há uma diferença entre saber que Deus existe, e se sentir amado por Deus, tudo se transforma sentimos uma grande coragem, tudo é amor ao nosso redor ainda que pareça o contrário”

 

Em 1991, no Brasil, ao entrar em contato com a realidade das favelas, o seu coração se inquieta para que algo seja feito diante de tanta desigualdade social e econômica. E então, angustiada, comenta com os que com ela estavam:

“Nós não podemos fazer nada, mas ele sim!  Oremos juntos em seu nome”

E foi então que ela propôs a “Economia comunitária” em que Deus é o acionista especial, o qual envia a providência.  Este tipo de economia propõe que empresários cristãos se relacionassem de modo diferente com o lucro, o qual deveria ser colocado em comunhão. Esta proposta para ela foi uma luz revelada pelo próprio Espírito Santo.  Ela diz:

“Não é estranho que visitando um país cristão se visse pouca diferença em relação a um país não cristão? Essas incoerências me oprimiam e me faziam sofrer. Foi ali que o espírito santo manifestou a sua luz sutil e começou a revelar muitas verdades do cristianismo”

Para o Capitalista, poderia soar estranho tal transformação ou dificilmente essa proposta seria colocada em prática, porém, a medida que a economia comunitária era apresentada ao mundo, mais empresas aderiram a tal proposta. No âmbito prático, as empresas deveriam dividir os seus lucros em três partes: uma parte seria destinada para ajudar pessoas em dificuldades econômicas; outra para formação das pessoas dentro da cultura da partilha e, por último, para o desenvolvimento da empresa.

Hoje este tipo de economia conta com pesquisadores e especialistas destinados ao desenvolvimento deste tipo de empresa. Em 2009 (não foi possível encontrar dados mais atuais), chegaram a seguir este tipo de economia mais de 800 empresas ao redor do mundo, nas diversas áreas de atuação, as quais se destacavam pelo cuidado com as pessoas por meio do amor, pelos valores e pela sustentabilidade.

Em toda a sua caminhada, Chiara ganhou muito prêmios e destaques,  entre eles estão: o Prêmio “Educação para a Paz”, pela UNESCO e os  títulos de cidadã honorária em muitas cidades europeias e em outros continentes, além de ter discursado na sede da ONU,  entre tantos outros prêmios e destaques. Após uma caminhada marcada pelo amor e a transformação social, em março de 2008, Chiara Lubich partiu para se encontrar com o pai ao qual tanto amava.

Uma mulher que transformou a vida de muitos, uma mulher que Deus usou para que muitos pudessem não só conhecer o imenso amor do Pai a partir de uma pregação, mas principalmente por uma vida integralmente entregue ao outro na busca para que ele pudesse também receber um cuidado integral de suas necessidades, e que por meio disso o amor do Pai fosse revelado.

Ao olhar a vida desta grande mulher alguns questionamentos tomam os meus pensamentos: De onde veio tanta força? Como ela conseguiu olhar para além da realidade visível? Como descansou em Deus quando a destruição e os perigos a cercavam? O que será que eu posso fazer para promover transformação na realidade em que Deus tem me colocado?  

As forças de Chiara vinham do “Imenso amor de Deus”. E talvez, em tempos como os nossos, um dos maiores desafios esteja em manter o fogo ardente do amor de Cristo  em nossos corações, amor que está para além das portas da igreja, e que se manifesta na relação com o outro, na luta contra a opressão e as desigualdades sociais. Um amor que não se restringe a cartas de amor, ou a orações repetitivas, mas a ação, a prática, ao estender a mão, ao caminhar no meio de escombros de guerra para levar a palavra de Deus no cuidado integral do homem.  

Promover uma revolução cristã em nossos tempos, é esse o convite que a vida desta mulher nos faz. O modo de vida de Chiara contagiou o mundo inteiro, chegando a cristãos e não cristãos, o desejo dela, assim como o de Cristo, é “que todos sejamos um”, qual é o teu desejo?

Referências

Chiara Lubich – Mostra-nos o Pai – https://www.youtube.com/watch?v=ExuPb3WE8Js&t=3s

il mio 900 chiara lubich – https://www.youtube.com/watch?v=rfUV8HAflQM&t=458s

CHIARA LUBICH intervistata da Sandra Hoggett – https://www.youtube.com/watch?v=1Ix7xbOoaIQ&t=164s

Chiara Lubich. Carisma, História, Cultura – https://www.youtube.com/watch?v=sy7AzPtCPdk&t=472s


Autora: Neftali Centurion


Revisão: Livia Almeida


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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