Dalila, a filisteia que agiu em favor de seu povo

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Texto base:

4 Depois dessas coisas, ele se apaixonou por uma mulher do vale de Soreque, chamada Dalila. 5 Os líderes dos filisteus foram dizer a ela: “Veja se você consegue induzi-lo a mostrar-lhe o segredo da sua grande força e como poderemos dominá-lo, para que o amarremos e o subjuguemos. Cada um de nós dará a você treze quilos[a] de prata”.

6 Disse, pois, Dalila a Sansão: “Conte-me, por favor, de onde vem a sua grande força e como você pode ser amarrado e subjugado”.

[…]

15 Então ela lhe disse: “Como você pode dizer que me ama, se não confia em mim? Esta é a terceira vez que você me fez de boba e não contou o segredo da sua grande força”. 16 Importunando-o o tempo todo, ela o cansava dia após dia, ficando ele a ponto de morrer.

17 Por isso ele lhe contou o segredo: “Jamais se passou navalha em minha cabeça”, disse ele, “pois sou nazireu, desde o ventre materno. Se fosse rapado o cabelo da minha cabeça, a minha força se afastaria de mim, e eu ficaria tão fraco quanto qualquer outro homem”.

18 Quando Dalila viu que Sansão lhe tinha contado todo o segredo, enviou esta mensagem aos líderes dos filisteus: “Subam mais esta vez, pois ele me contou todo o segredo”. Os líderes dos filisteus voltaram a ela levando a prata. 19 Fazendo-o dormir no seu colo, ela chamou um homem para cortar as sete tranças do cabelo dele, e assim começou a subjugá-lo[d]. E a sua força o deixou.

(Juízes 16:4-6; 15-18)

Quais são as nossas lembranças em relação à Dalila e Sansão?

Fizemos parte da geração de crianças que assistiu nas escolas dominicais a tradicional história de Sansão e Dalila, uma das histórias mais memoráveis da nossa infância. Estão guardadas em nossas lembranças as figuras coloridas fixadas nos flanelógrafos, em que Sansão (“herói da fé”) era representado como um guerreiro belo e imaculável, o símbolo de força e exemplo de masculinidade. Dalila, embora também fosse bela, era descrita como sedutora, vil e manipuladora, que trazia um olhar perverso e odioso. Ela estava entre as maiores vilãs bíblicas, uma típica bruxa malvada dos clássicos infantis.

Propomos uma reinterpretação teológica sobre Dalila, a fim de enquadrá-la noutro contexto, afinal, ela vivia em circunstâncias muito diferentes de Sansão. Nossa abordagem segue a perspectiva da alteridade, para discernirmos em Dalila qual foi a sua participação na história de Sansão, como também na história de seu povo.

Quem foi Dalila?

Recorrendo ao texto base, temos muito pouco sobre a sua história, tudo começa quando Sansão se apaixona por ela e passa a visitá-la. Dalila vivia numa região habitada por filisteus (inimigos do povo de Sansão), no vale de Soreque, perto da terra natal de Sansão. É provável que seu nome venha do idioma assírio, que significa servidora ou dedicada. A bíblia não menciona sobre sua beleza, nem que ela era prostituta, embora isso esteja em nosso imaginário. Ela era uma mulher influente, relacionava-se com autoridades políticas poderosas daquela nação.

Dalila foi interpelada pelos príncipes filisteus para induzir Sansão a desvendar o segredo de sua força. E quando ela é procurada pelos príncipes, não os refuta, havendo inclusive proposta de pagamento pelo feito. Desse ponto em diante, Dalila amontoa sua infâmia nas interpretações bíblicas. Por isso lançamos algumas questões:

Por que Dalila colaborou em participar da armadilha arquitetada contra Sansão? O que estaria em jogo se ela enfrentasse os príncipes filisteus, agindo em favor dele?

Para isso, retomaremos ao passado de Sansão, bem como à situação política que envolvia Dalila.

Em primeiro lugar, Sansão era inimigo do povo de Dalila. Israelitas e filisteus estavam em conflito direto por 40 anos e Sansão era o grande temor de seus adversários, ele já havia matado muitos filisteus, não em conflitos normais de guerra (um exército contra outro), mas em ataques pessoais de fúria, como demonstrado nos trechos a seguir:

Ele desceu a Ascalom, matou trinta homens, pegou as suas roupas e as deu aos que tinham explicado o enigma. Depois, enfurecido, foi para a casa do seu pai.  (Juízes; 14:19)

[…]

 8 Ele os atacou sem dó nem piedade e fez terrível matança. Depois desceu e ficou numa caverna da rocha de Etã. (Juízes; 14:8)

[…]

15 Encontrando a carcaça de um jumento, pegou a queixada e com ela matou mil homens. (Juízes; 15:15)

Como filisteia, Dalila sabia que seu povo estava diante de um grande adversário. Sansão matou 30 homens para tomar-lhes as vestes festivas porque precisava pagar a “dívida que havia contraído”, que foi o desafio de um enigma, proposto desnecessariamente por ele mesmo em sua festa de noivado. Aquelas pessoas morreram porque Sansão foi inconsequente, ele covardemente apostou algo que não tinha.

Sansão também causou enorme dano à subsistência do povo de Dalila quando destruiu suas plantações (cereais, vinhas e olivais), num rompante de vingança e brutalidade:

Então saiu, capturou trezentas raposas e as amarrou aos pares pela cauda. Depois prendeu uma tocha em cada par de caudas, 5 acendeu as tochas e soltou as raposas no meio das plantações dos filisteus. Assim ele queimou os feixes, o cereal que iam colher, e também as vinhas e os olivais. (Juízes, 15:04-05)

Há um segundo ponto importante: Sansão (que no hebraico é shimshom, significando “sol”) era narcisista e não respeitava mulheres, nem se importava com elas. Ele subestimou todas as mulheres de Israel, pois nenhuma delas foi tida como apropriada para ser sua noiva. Sansão parecia gostar apenas de si mesmo e sua reputação não era boa. Ele foi o responsável pela morte trágica de sua noiva, aquela jovem teve a vida ameaçada duas vezes por causa de Sansão, na primeira vez, ela foi coagida a descobrir o enigma proposto por ele, caso contrário, ela e sua família morreriam (foi por isso que ela insistiu com Sansão para descobrir o enigma):

[…]disseram à mulher de Sansão: “Convença o seu marido a explicar o enigma. Caso contrário, poremos fogo em você e na família de seu pai, e vocês morrerão. Você nos convidou para nos roubar?” (Juízes, 14:15)

Mas quando o enigma é desvendado e Sansão “quita” o desafio, ele a abandona, retornando à casa de seus pais. E quando Sansão descobre que perdeu o poder que tinha sobre a noiva, acaba gerando novas confusões, que por conta disso, pela segunda vez, os filisteus decidem matá-la para cessar sua vingança devastadora.

Antes de Dalila, Sansão também se relacionou com uma prostituta em Gaza. Ele usava mulheres para exibir suas proezas, estava em busca de prestígio e reconhecimento pela sua força, tanto é que ele exibe os portões da cidade arrancados pelas suas próprias mãos, com sua força descomunal:

1Certa vez Sansão foi a Gaza, viu ali uma prostituta, e passou a noite com ela. 2 Disseram ao povo de Gaza: “Sansão está aqui […]3 Sansão, porém, ficou deitado só até a meia-noite. Levantou-se, agarrou firme a porta da cidade, com os dois batentes, e os arrancou, com tranca e tudo. Pôs tudo nos ombros e o levou ao topo da colina que fica defronte de Hebrom. (Juízes, 16:1-3)

Em terceiro lugar, se Dalila não tivesse cedido à orientação que lhe foi dada, seu destino poderia ter sido o mesmo que o da noiva a Sansão. Ousar contra os príncipes era assinar uma sentença de morte, ela sabia que não ficaria ilesa se os enfrentasse. Dalila estava no meio de uma guerra arrolada por décadas (hebreus e filisteus). Como mulher, ela estaria se protegendo da morte. Acatar o acordo dos príncipes poderia ser a coisa mais prudente a ser feita. E, ainda, sob o ponto de vista filisteu, Dalila não estaria entregando o maior inimigo de seu povo?  

Um último ponto a ser analisado é que Sansão sucedeu em vários erros muito antes de conhecer Dalila. Ele foi escolhido para ser juiz, o libertador do seu povo das mãos dos filisteus e tudo o que ele fazia era flertar com o perigo, com a possibilidade de infringir regras.

Analisando traços importantes da personalidade de Sansão, ele era vaidoso e indisciplinado, por isso ele não levava a sério os seus votos de nazireu. O voto de jamais passar navalha em seu cabelo não estava nas mãos de Dalila, mas nas suas próprias mãos, assim como as demais abstenções que ele sozinho infringiu.

Como podemos tirar lições desse texto?

O livro de Juízes revela que o povo de Deus falhou e que os seus próprios excessos (e não os povos inimigos) foram o motivo de seus fiascos. Em cada um de seus descuidos, Sansão se sentia invulnerável e invencível. Cortar o cabelo foi tão somente a última gota d’água deste trágico infortúnio.

Não foi Dalila quem frustrou os planos dos hebreus, mas o próprio Sansão quando desonrou a fé e as expectativas de seu povo. Dalila cometeu erros ao participar da conspiração contra a vida de uma pessoa, no entanto, sob o ponto de vista filisteu, ela agiu em favor da sua nação, suas ações envolviam o destino de sua parentela e também o seu próprio destino. Todavia, Sansão foi alheio ao futuro do seu povo, ele foi um juiz que agiu em favor de si mesmo, movido pela sua vaidade e indisciplina.

Juízes mostra também, pelo exemplo da noiva de Sansão, como a mulher lamentavelmente era tratada, seu destino era definido pelos homens, tanto pela cultura hebraica, como pela filisteia. Nós mulheres podemos tirar lições da história de Dalila, que é refletir sobre quando cometemos o erro de jogar sempre a culpa umas nas outras. Precisamos reconhecer os erros cometidos pelos homens e parar de proteger os “Sansões” que andam escondidos atrás de nossas  “Dalilas”.

Pensando em nossos tempos, mulheres ainda são culpadas pela beleza e sedução. Provavelmente vocês já devem ter ouvido pregações (de pastores e pastoras) que alertam homens e mulheres contra as Dalilas, lançando luzes apenas para os erros delas, enquanto Sansão fica ileso nos púlpitos. Isso é uma triste maneira de jogar mulheres contra as outras e isentar os homens de suas fraquezas. Tal prática impede o agir de Deus, de mulheres serem ajudadas e curadas quando feridas, isso inibe inclusive a nossa oração por outras mulheres.

Enfim, nós mulheres precisamos acolher as outras, compreender suas histórias de vida e seus dramas, precisamos ter gestos de sororidade e compaixão com nossas irmãs, independente da fé que elas professem.

Referências:

Bíblia Sagrada: Nova Versão Internacional [traduzida pela comissão da Sociedade Bíblica Internacional]. São Paulo: Editora Vida, 2000.

MEER. Antônia Leonora Van der. O estudo bíblico indutivo. São Paulo: ABU Editora, 1987.


Flávia Valéria Cassimiro Braga Melo. Evangélica, feminista, casada, mãe de dois filhos, professora, cientista social, mestre em ciências da religião e doutoranda em  Antropologia Social (PPGAS-UFG). E-mail: flavia_valeria@yahoo.com.br.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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