DE PRETA PARA BRANCA: MINI MANUAL DE EXISTÊNCIA

Acredito que o mês de novembro, além de ser um mês de muita luta, ou de compartilhar das ações e denúncias que acontecem durante todo o ano, deve ser também um mês de muito aprendizado. As mulheres negras aprendem quando ouvem e participam das dezenas de eventos e textos compartilhados nas redes, mas gostaria de convidar as mulheres brancas para participar desse processo de aprendizado também.

Entendo que é importante marcar que o protagonismo do mês é da população negra, porém uma saída para acabar com o racismo é confrontar as pessoas brancas com suas atitudes racistas e convidá-las para o diálogo e a formação (injustiças e violências não pedem diálogo e sim, intervenção, reparação e até prisão), já que existem muitas mulheres brancas empáticas com a causa e dispostas a mudar. Assim, este pequeno manual apresenta soluções práticas e provocações, de pretas para brancas, que querem contribuir com o fim do racismo e preconceito, começando nas próprias relações.

 

  1. Entenda que, mesmo que você seja empática à causa, você é uma mulher que vive em um mundo racista, cercada por discursos racistas e que tem atitudes racistas. Muitas vezes as mulheres brancas ficam chocadas de terem seu racismo apontado. Se alguma mulher negra próxima a você aponta racismo em sua fala ou atitude, não tente justificar: peça desculpas (sem esperar ser desculpada), coloque-se à disposição para aprender e assuma que não vai fazer novamente.

 

  1. Ouça as mulheres negras, enxergue-as e tenha consciência que elas existem. Sabemos que muitas mulheres brancas usam o discurso que pessoas são pessoas independente da cor, mas isso não é verdade. Suas amigas ou mulheres negras que te cercam vivem em um mundo diferente do seu e que, ao mesmo tempo, é o seu próprio mundo. Mulheres negras têm uma socialização que, desde pequenas, as fazem confrontar sua cor de pele, o cabelo, o formato do corpo, o processo de escolarização, as emoções e a vida financeira. Se uma mulher negra compartilha algo da vida e faz o recorte racial, tente entender. Mulheres brancas não precisam desse recorte porque ser pessoa branca é o padrão. Ouça e aprenda, pergunte e não compare.

 

  1. Leia autores e autoras negras. O aprendizado por meio do compartilhamento de vivências é muito importante, mas estar disposta a ler autoras e autores negras e negros é essencial para sua formação. Muitas mulheres utilizam conceitos errados como o de vitimismo da população negra, “dia da consciência humana”, racismo reverso e outros, por desconhecimento das questões políticas ligadas à negritude e ao racismo. Solicite às mulheres negras que te cercam, livros e artigos que podem te ajudar a ter mais fundamentação para essas questões. E se disponha sempre a aprender.

 

  1. Incentive, financie, compre de mulheres negras, contrate-as. Fala-se demais sobre sororidade, mas ainda existe uma dificuldade em acrescentar questões práticas a esse conceito. Sororidade não é só dizer “você é minha irmã”, mas implica em visibilizar e financiar as irmãs, especialmente as negras. Muitas mulheres negras que conhecemos estão em uma situação financeira muito difícil, que influencia na formação e escolarização. Se você pode (e, se a mulher negra que você pretende ajudar, quiser) comprar um livro, pagar uma mensalidade, participar de uma vaquinha, comprar um ingresso de cinema, doar um curso, comprar um produto, isso vai ser mais sororidade do que apenas palavras.

 

  1. Entenda o que são as políticas afirmativas e cotas. Muitas mulheres brancas, quando vão prestar concursos e vestibulares se perguntam demais sobre as vagas específicas para a população negra. Algumas até mostram indignação. Entendendo sobre os motivos históricos e sociológicos dessas medidas, você entenderá o sentido da vaga para negras do concurso, da pós-graduação, aquela bolsa de estudos para jovens negras e dos editais específicos.

 

  1. Elogie a beleza de mulheres negras e tente fazer isso de forma mais profunda. Existem mulheres negras que são celebradas como belas por terem a pele negra mais clara ou por terem um cabelo mais cacheado e menos crespo ou por serem magras. Diversifique o espectro de características negras de mulheres que você conhece. Esforce-se para admitir que muitas vezes as mulheres brancas não acham negras bonitas porque elas não são parte da publicidade estética. Apesar das críticas, elogios que não hipersexualizem as mulheres negras são importantes, sim! Tente fugir do “essa pretinha lacra” e especifique mais as características marcantes da mulher que você está elogiando. Negras gostam de elogios, faça isso de forma verdadeira.

 

  1. Elogie e celebre os feitos intelectuais e conquistas de mulheres negras. O mito da negra metida acompanha muitas mulheres negras que conseguem algum tipo de ascensão profissional, educacional, que são chefes ou que estão em posição de poder. Comemore verdadeiramente as aprovações e caminhadas intelectuais de mulheres negras que te cercam. Ache-as inteligentes, sagazes, cite-as, divulgue-as como referências, admire-as e procure-as para mentoria.

 

  1. Consuma produtos culturais que tenham negras e negros. A cultura pop nunca esteve tão negra e representada. Veja filmes, séries, livros, assine canais de mulheres negras e compartilhe as produções. Nunca ache que tem negros demais nas produções artísticas, nunca ache que a briga por representatividade negra é exagero, tente sempre inserir uma mulher negra em suas referências culturais.

 

  1. Não toque o cabelo ou o corpo de uma mulher negra sem permissão.

 

  1. Pesquise e discuta sobre privilégios e sobre o privilégio da branquitude. Tente entender as razões históricas para o estabelecimento dos privilégios, reconheça os seus (mesmo sendo mulher) e esteja atenta para sempre conseguir identificar situações em que seus privilégios de mulher branca estão mais evidentes.

 

  1. Quando estiver no ambiente universitário compareça a eventos promovidos por pessoas negras. Podem ser congressos, seminários, simpósios, rodas de conversa. São oportunidades para aprender a partir de um viés mais acadêmico e de conhecer pesquisas acadêmicas que considerem a questão da negritude.

 

  1. Tenha cuidado com a linguagem. É por ela que as injúrias raciais e o racismo são propagados. Não se autodenomine de “neguinha” ou “pretinha” se for branca. Sempre pergunte se uma amiga ou negra com quem você tem intimidade gostaria de ouvir você, branca, a chamando de preta ou pretinha, ainda que carinhosamente. As palavras importam. Nos Estados Unidos, a palavra nigga tem significado histórico e social muito importante e é completamente proibida para pessoas brancas. Sempre pergunte antes se aquele seu “apelido carinhoso” não incomoda a sua amiga ou conhecida negra.

 

  1. Se você perceber, a maioria das mulheres nas áreas de serviços gerais são mulheres negras. Elas não são invisíveis: cumprimente-as, saiba seus nomes, agradeça pelo seu trabalho, seja gentil com elas.

 

  1. Fuja de discursos e denuncie atitudes preconceituosas em relação às religiões afro-brasileiras. Existem mulheres negras que te cercam que são filhas ou mães de santo, que são lideranças religiosas negras ou que frequentam religiões de matriz africana. Independente da sua fé, você pode conversar com elas e trocar conhecimentos sobre seus exercícios de espiritualidade sem preconceito ou racismo.

 

  1. Não classifique, sem consultar, uma mulher negra como “morena”. Mulheres morenas são mulheres de pele clara e cabelos escuros, algumas até tem olhos claros. O nosso país é muito grande e miscigenado, portanto, antes de classificar as mulheres negras que são próximas de você como morenas, pergunte como elas se autodenominam e respeite isso.

 

  1. Não se sinta especial por ser uma mulher que não é racista ou que se envolve em causas contra o racismo. Você não faz mais do que sua obrigação.

 


Paloma Nascimento dos Santos é professora de Química, mulher negra e feminista interseccional. Pernambu-cana-de-açúcar.

 

  • Sandra Tolfo

    Obrigada por essa postagem.