Ele era uma mulher preta

A minha vontade era vomitar a história que estou prestes a contar. Mas entendi, nos processos que vivi por causa dela, que só existe possibilidade de entendimento dos seus problemas quando se sabe dos  pormenores. Dito isso, acho que podemos começar.

O arraial cristão Batista é o meu lar, meu lugar de segurança. Ali nasci e comecei a me relacionar com a divindade a que chamei de Deus. Todas as experiências que acumulei me fizeram perceber que a minha experiência com o Divino era coletiva. Eu sempre precisei do outro para entender e viver as questões do Reino. Sempre me foi estranhíssimo olhar pra cima e me relacionar com o universo. Eu só não sabia que olhar pro outro podia ser tão perigoso. Quando percebi, tinha me esquecido de descobrir quem era. Encontrei-me perdida de mim. O corpo que abriga meu ser era violado a cada desrespeito que cometia para agradar o outro com minha estética, minhas atitudes, minhas crenças, minha forma de exercitar a fé.

Foi aí que comecei a olhar pras minhas particularidades e a passar pelos famosos processos de desconstrução. Nesse caminho, mulheres que se pareciam comigo se aproximaram, e acabei por me descobrir negra. Exatamente. Só aos 22 anos descobri ser o que o espelho refletia desde sempre e foi como se alguma coisa tivesse mudado em mim.

O nosso corpo é que promove todas as expressões da nossa existência. Não descobrir o corpo é existir torto. Pra mim não bastava mais existir, era preciso adquirir consciência da minha existência. Foi aí que comecei a desejar existir com o corpo que eu tenho. E bastou uma experiência pra que eu entendesse uma das faces de como é habitar num corpo preto.

Era madrugada, eu estava na casa de uma amiga que aniversariava. Conversamos até o sono vir, me dirigi à cama e decidi olhar algumas redes sociais antes de dormir. Uma interação aqui e outra ali no meu grupo favorito do whatsapp, até que chega uma mensagem no privado. Normal. O remetente era um amigo que, embora vivesse distante, era muito querido. Um amigo de quem eu me orgulhava pelas suas produções poéticas, pelo seu engajamento por um evangelho que fosse pra todo mundo, pelo capital intelectual dos mais interessantes e diversos que conheci. Um amigo que caminhava de perto comigo, que me ajudou nesses processos de repensar as minhas práticas de fé sob a perspectiva de um Jesus que é da rua, do afeto, do amor, da terra, da vivência. Um amigo branco, hétero, formado em teologia, com um relacionamento sério que, naquela noite, esqueceu-se da caminhada que até ali perseguiu de forma ativa e decidiu olhar para mim como o corpo de uma mulher negra. Aliás, ele não se esqueceu de nada. Porque não foi por engano e nem pelo álcool que percorria seu sangue que ele revelou ter o mesmo caráter dos seus antepassados, o de quem queria me possuir do jeito que ele achava que eu gostava: “de quatro, bem forte”.

Bastou uma experiência pra que eu entendesse que me relacionar nesse mundo com o corpo que tenho é estar atenta pra quem quer colonizá-lo mesmo dentro de arraiais que anunciam o Cristo amoroso que eu acabara de resgatar. É lembrar que não há frente cristã que esteja protegida de ser liderada e representada por monstros. É saber pra quem correr. E eu corri. Corri o mais rápido que pude.

Juntei meus cacos e expus todos eles diante da minha ancestralidade, das mulheres de tamanhos, abraços e empatias imensuráveis que eu conheço. Foram elas que me salvaram do medo, da culpa que por ímpeto declarei como minha. A graça salvadora se manifestou a mim através delas, que me lembraram de quem eu sou, do meu trajeto, da minha caminhada.

Do inferno fui ao céu e vi a divindade se revelando agora como Deusa, ainda coletiva, só que agora preta.

 


Jaqueline é carioca, cristã e se descobriu negra aos 22 anos. Com 23 reside em Bauru (SP) durante a semana, onde estuda Arquitetura e Urbanismo, e em Avaré (SP), onde estão seus pais junto à comunidade de fé a que pertencem e dedicam amor e empenho.