“Estamos balançando um pouco o coreto” | Ivone Gebara

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Quando essa frase foi proferida em 1993, numa entrevista concedida à revista Veja, talvez a sua autora não tivesse a dimensão do quão real ela já era e continuaria sendo pelos próximos anos.

Ivone Gebara é uma freira feminista que vem “balançando o coreto” de forma incansável. A aparência frágil contrasta com as atitudes firmes e com a coragem de questionar um poderoso sistema estando dentro dele. Ao ser entrevistada pela revista Veja no início da década de 1990, ela ousou falar a favor do aborto, criticou o conservadorismo da Igreja Católica e defendeu uma teologia feminista. Seus posicionamentos, especialmente em relação ao aborto, incomodaram o Vaticano e ela foi condenada a dois anos de silêncio obsequioso na Europa, durante o qual não poderia manifestar-se publicamente nem conceder entrevistas.

Mas a punição, que tinha como objetivo calar a freira dissidente, surtiu efeito contrário: ela ganhou ainda mais notoriedade com o fato e usou esses dois anos para obter o seu segundo doutorado, em Ciências da Religião, após o qual lançou o livro Rompendo o Silêncio: uma fenomenologia feminista do mal.

 

Mas quem é essa freira “ousada”?

Certamente muitas pessoas se fizeram esse questionamento à época da polêmica entrevista, mas o fato é que Ivone Gebara já era conhecida no meio acadêmico católico pelos seus posicionamentos críticos, vistos como polêmicos pela igreja. No final da década de 1980, o Instituto de Teologia de Recife, fundado por Dom Helder Câmara e no qual ela dava aulas, foi fechado pelo Vaticano por ser considerado “esquerdista” demais.

Ivone Gebara nasceu em São Paulo em 1944 e, aos vinte e dois anos, decidiu se tornar uma religiosa, juntando-se à Congregação das Irmãs de Nossa Senhora – Cônegas de Santo Agostinho. Doutora em Filosofia e Ciências da Religião, morou durante trinta anos em Camaragibe, na periferia de Recife, onde pôde conhecer de perto a realidade de pessoas e comunidades carentes.

Ela sempre foi adepta da Teologia da Libertação, que priorizava a salvação dos pobres por meio da junção da fé com a consciência política. Foi pioneira em aproximar a Teologia da Libertação do feminismo, apesar das resistências que encontrou no meio, e por isso é conhecida atualmente como uma das fundadoras da Teologia Feminista na América Latina.

A religiosa já escreveu mais de trinta livros, além de diversos artigos e ensaios, e hoje, aos 75 anos, continua escrevendo, dando palestras, cursos e conferências pelo Brasil e pelo mundo.

 

Seu legado

Resumir em poucas linhas as inúmeras contribuições dessa mulher admirável que é Ivone Gebara é uma tarefa ingrata. Por isso, listarei aqui apenas algumas que considero importantes.

Trazer o feminismo para o contexto cristão latino-americano e unir seus ideais aos da Teologia da Libertação, fazendo surgir daí a Teologia Feminista, foi, sem dúvida, o maior legado que ela nos proporcionou. Revelar uma perspectiva feminina da vivência do sagrado, pensar a fé em conformidade com os corpos femininos e estimular uma visão maternal de Deus foram verdadeiras revoluções que permitiram que as mulheres se vejam no Cristianismo, percebendo que elas também são contempladas pelo amor divino.

Pode parecer bobagem para alguns, mas para nós faz toda a diferença saber que Deus não nos considera inferiores, não exerce em nossas vidas o mesmo papel opressor que os homens à nossa volta desempenham e, sobretudo, que Ele respeita e não demoniza os nossos corpos, como faz a religião. É libertador saber que Deus conhece as nossas especificidades de mulher e lida bem com elas, nos entende, nos compreende e nos AMA! Isso vai de encontro ao discurso dominante das igrejas, que quer nos colocar sempre um patamar abaixo, sempre submissas, controladas, oprimidas e castradas em nossas capacidades pessoais e de fé.

Outra contribuição importantíssima de Ivone Gebara foi o incentivo ao uso da hermenêutica feminista no estudo da Bíblia. Em seu livro Vida Religiosa – da Teologia Patriarcal à Teologia Feminista (1992), ela explica como fazer isso:

“Procurar ler a escritura e particularmente o Novo Testamento com a pergunta: onde está a mulher? O que estaria fazendo?” (p. 37). Com essa “nova forma” de ler a Bíblia, Ivone nos mostra que sim, as mulheres estavam lá. Apesar das narrativas androcêntricas típicas da cultura patriarcal na qual a Bíblia foi escrita, as mulheres tiveram uma importância ímpar na vida de Jesus e na história do Cristianismo. O processo de apagamento foi real, mas graças à Teologia Feminista e aos esforços de muitas teólogas e pesquisadoras, nossa história está sendo resgatada, ressignificando o nosso lugar.

Se hoje podemos saber de tudo isso, temos muito que agradecer à Ivone Gebara pela coragem de enfrentar a estrutura dominante e pela persistência em falar o que não era permitido, mesmo sendo castigada e retaliada não uma nem duas vezes, mas continuamente. Sabemos que a Teologia Feminista ainda é para poucos, pois a estrutura “oficial” não permite que a divulguemos amplamente nas igrejas, nos púlpitos, nos cultos dominicais. Mas como a própria Ivone defende, a Teologia não é propriedade exclusiva dos teólogos. Nós, mulheres comuns, que conhecemos o Evangelho e vivemos o dia a dia das igrejas, também fazemos Teologia no nosso cotidiano, em cada trabalho comunitário, em cada momento de discipulado, em cada evangelismo… portanto, cabe a nós também esse papel de divulgadoras da “nova boa nova”, que nos coloca a possibilidade de um relacionamento íntimo e direto com Deus, sem necessidade de uma intermediação masculina. Sejamos, então, essas teólogas feministas do cotidiano, protagonistas da nossa fé. Vamos, junto com ela, “balançar o coreto” do sistema patriarcal.

 

Referências:

“Aborto não é pecado” (entrevista de Ivone Gebara à Revista Veja): http://estudosnacionais.com/wp-content/uploads/2017/04/Ivone-Gebara-Entrevista-VEJA.pdf

Igreja anuncia punição de freira que defendeu direito ao aborto: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/7/29/brasil/26.html

Uma rebelde no rebanho: https://revistacult.uol.com.br/home/uma-rebelde-no-rebanho/

Uma clara opção pelos diretos das mulheres: http://www.ihu.unisinos.br/172-noticias/noticias-2012/511796-uma-clara-opcao-pelos-direitos-das-mulheres-entrevista-com-ivone-gebara

“A Igreja irá perder as mulheres que pensam”: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/583314-a-igreja-ira-perder-as-mulheres-que-pensam-entrevista-com-ivone-gebara


Isabela Garrido, jornalista e autora do blog Tem Mulher na Igreja.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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