Rainha Jezabel: uma mulher, muito poder e ódio de sobra

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Se você foi criada em qualquer igreja evangélica brasileira talvez tenha ouvido comentários e afirmações sobre a natureza perversa e libidinosa da Rainha Jezabel. Em plataformas como o Youtube há inúmeros vídeos de lideranças e pastores advertindo em “como se desfazer do espírito de Jezabel”, mas que espírito seria este? Conforme a passagem em 1 Reis 16.29-33 Jezabel era uma princesa, filha de Etbaal, rei de Sidom, e adoradora do Baal, Astarte, e Aserá, que mediante acordo político foi dada em casamento ao Rei de Acabe, de Israel. Alguns estudos antropológicos também afirmam que Jezabel era uma importante sacerdotisa da sua religião na região que conhecemos como Fenícia. Entretanto, a Rainha Jezabel é comumente conhecida por estigmatizações de seus feitos que a aprisionam numa imagem feminina abominável: uma mulher infiel a Deus, prostituta e insubmissa – para muitas pessoas. Isso a torna uma personagem desafiadora e complexa.

 

O texto bíblico em destaque: 1 Reis 21.20-26

20.Quando Acabe viu Elias, perguntou:

— Você já me achou, meu inimigo?

Elias respondeu:

— Achei, sim, porque você se entregou completamente a fazer o que o Senhor Deus considera errado. 21.Por isso, ele lhe diz: “Eu vou fazer com que a desgraça caia sobre você. Vou acabar com você e vou me livrar de todos os homens da sua família, tanto os jovens como os velhos. 22.Vou fazer com a sua família o mesmo que fiz com a família do rei Jeroboão, filho de Nebate, e com a família de Baasa, filho de Aías. Pois você levou o povo de Israel a pecar, e isso me provocou e me fez ficar irado.”

23.Elias continuou, dizendo:

— E, quanto a Jezabel, o Senhor Deus diz que os cachorros comerão o seu corpo na cidade de Jezreel. 24.Os parentes dela que morrerem na cidade serão comidos pelos cachorros, e os que morrerem no campo serão comidos pelos urubus. 25.(Não houve ninguém que tivesse se entregado tão completamente a fazer coisas erradas, que não agradam ao Senhor, como fez Acabe. E tudo ele fez por sugestão da sua esposa Jezabel. 26.Acabe cometeu os pecados mais vergonhosos, adorando ídolos, como haviam feito os amorreus, o povo que o Senhor havia expulsado do país conforme o povo de Israel tinha ido avançando.)

 

O texto bíblico em destaque é o prenúncio do fim trágico e violento da vida da Rainha Jezabel. Uma notícia muito severa que, segundo o texto, viria da parte do próprio Deus. Mas, antes de seguirmos, precisamos estar atentas sobre alguns aspectos das narrativas registradas nos livros de Reis que contam fragmentos da vida de personagens como a Rainha Jezabel. Por isso, duas considerações são importantíssimas, uma vez que afetam diretamente a maneira como lemos e interpretamos o que nos é contado:

Primeiro: Conhecer e compreender a época e o contexto cultural em que se passam os relatos dos livros de I e II Reis. Tais textos têm sua autoria atribuída ao profeta Jeremias,  que os teria escrito durante o período do exílio babilônico, sendo parte de um esforço da construção de uma identidade nacional hebreia em torno da formação do povo de Javé – o único e verdadeiro Deus.

Segundo: a hermenêutica da suspeita – postura assumida por mim nesse estudo – exige de nós um movimento questionador sobre o que está escrito no texto e aquilo que não está escrito – o que podemos inferir a partir de dados socioantropológicos daquele período, por exemplo, e o que nos permite perceber o enviesamento androcêntrico de muitas interpretações bíblicas que conhecemos e ouvimos até hoje, como no caso da história de Jezabel.

 

Para conhecermos mais sobre essa mulher poderosa, podemos visitar os relatos bíblicos dos textos de 1Reis 19.1-15; 1Reis 21.1-11; 2Reis 9.30-37. Segundo as mais comuns narrativas da nossa cultura sobre Jezabel, ela sempre se contrapõe à imagem da mulher dócil, submissa e irrepreensível – como geralmente pretende-se projetar a imagem da Rainha Ester, por exemplo.

Infelizmente, é muito raro no discurso da maioria das igrejas (ou de líderes) evangélicas o reconhecimento sobre as contradições próprias daquele contexto e a forma com que a Rainha Jezabel foi depreciada e assassinada durante seu reinado.

Se nos colocarmos no lugar de Jezabel, revisitando suas posturas e decisões, conhecedora da história do povo hebreu e de como este se estabeleceu na região de Canãa e como exterminou diferentes povos que ali habitavam por séculos (relatos dos textos em Josué, Juízes, I e II Samuel), talvez encontremos algumas pistas para compreender essa figura tão emblemática.

Por isso, após as leituras e, dentro de um esforço interpretativo crítico, podemos  pensar:

  1. Você já tinha ouvido falar de Jezabel antes? O que normalmente se ouve sobre ela?
  2. Como se sentiu depois de ler? Suas convicções a respeito dela se mantiveram?
  3. De tudo o que você já ouviu – no meio secular ou religioso – sobre Jezabel, considera que há uma maneira machista ou androcêntrica de se referir a ela?
  4. Como Jezabel, uma mulher estrangeira, conseguiu resistir às oposições e pressões políticas e religiosas contra si?
  5. Quais as diferenças entre o comportamento de Jezabel para com os demais reis da sua contemporaneidade?
  6. No texto, a responsabilização pelos atos de Acabe recai sobre as sugestões de Jezabel, denotando uma forte influência da rainha sobre decisões de governo. Atualmente, as mulheres ainda são responsabilidades pelo bem-estar de terceiros (na família, na igreja ou na política)?
  7. Você concorda com a afirmação: “Jezabel utilizou seu poder para se proteger, cultivar sua fé e propagar liberdade religiosa numa cultura ‘monoteísta’?
  8. Como nossa sociedade tem enxergado e se manifestado com relação a mulheres em espaços de poder?

 

Quem tem medo de mulheres com poder?

Reconhecemos que todas as pessoas nascem à imagem e semelhança de Deus. Por isso, dotadas e dotados de poder e dignidade. Muitas interpretações sobre a vida de Jezabel tendem a nos fazer esquecer de sua dignidade como pessoa. Ela foi humana. Não quero, com isso, afirmar sua plena bondade ou maldade, mas sublinhar que ela, como ser social, também era fruto de sua cultura, sendo ela rainha. Não há como amenizar suas ações mais drásticas.

Ela foi leal à sua fé, responsável por suas escolhas e decisões. Era obstinada. Ela fazia valer seu direito legítimo de governo. De fato, Jezabel é o arquétipo feminino que gera desconfortos em homens e mulheres que sustentam o machismo e o patriarcado como estilo de vida privilegiado. Mas, por que é importante compreender sua história? Por que assumir uma postura de misericórdia sobre sua pessoa?

Mulheres que são pastoras, líderes, clérigas, educadoras, intelectuais, professoras, vereadoras, deputadas entre tantas outras ocupações de poder que têm seus lugares questionados por defenderem suas posições e aos que representam. Vejamos: depreciada por ser estrangeira e guardar sua prática de fé e costumes. Depois, perseguida por líderes religiosos que desejam a retirada de seu poder pelas medidas políticas contrárias aos fundamentos da fé hegemônica daquele Estado. E, por fim, seu assassinato a sangue frio por um chefe de exército que, num golpe militar, invade sua moradia e joga-a “do alto do quinto andar” rumo à morte.

A maneira com que sua persona: dentro de uma campanha cultural machista que visa amedrontar mulheres que não temem o exercício  do poder, mesmo que ele apareça na figura de um grande e profeta de Deus – a relação entre a rainha e o profeta Elias é particularmente emblemática e merece uma reflexão à parte.

Com certeza, o Deus que conhecemos e reconhecemos não tem prazer na morte de quem quer se seja, pelo motivo que seja. Estaríamos, então, diante de mais um relato de ódio contra uma mulher pelo fato único de ser ela mesma.


REFERÊNCIAS

GEBARA, Ivone. O que é teologia feminista? Coleção: Primeiros Passos – Editora Brasiliense. São Paulo, 2007.

OLIVEIRA, Kathlen Luana de. Antropologia Feminina no Antigo Testamento: Mulher Estrangeira como Personificação do Mal em 2 Rs 9.30-37. Revista Eletrônica do Núcleo de Estudos e Pesquisa do Protestantismo (NEPP) da Escola Superior de Teologia. Volume 16, mai.-ago. de 2008 – ISSN 1678 6408. Disponível na Internet: http://www3.est.edu.br/nepp.

Mulheres Bíblicas – Jezabel: https://www.youtube.com/watch?v=uZmVUqqjQ8U < Acessado em 10 de fevereiro de 2019>.


Vanessa Barboza é Mulher Negra e Feminista, Pentecostal e Libertária, Co-fundadora do Coletivo Vozes Marias (Recife), Articuladora Local do Movimento Negro Evangélico (Recife), Ex-articuladora local da Rede Fale (Recife), Assistente Social, Mestranda em Educação, Culturas e Identidades (UFRPE/FUNDAJ) e membra da Igreja Batista em Coqueiral (Recife).


Revisão: Talita Rocha


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

 

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