Jesus e as mulheres

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Até uma determinada altura da minha vida (e não faz muito tempo), eu tive no meu imaginário uma imagem de Jesus como um homem que sempre esteve cercado de outros homens, salvo raras exceções. Recentemente, pude ter o meu conhecimento renovado para o fato de que Jesus, na verdade, teve a sua história e trajetória pela terra marcada pela presença de mulheres fortes, e não só isso. Jesus não mantinha as mulheres à sua volta como uma forma de suporte apenas ou como coadjuvantes nos seus planos e do Pai. Jesus delegava a elas papéis importantes do seu ministério e confiava nelas para ajudá-lo a cumprir a obra de Deus, tendo sempre uma disposição enorme para ensiná-las e introduzi-las em debates teológicos, posição que naquele tempo era apenas reservada a homens.

Maria, a mãe de Jesus, que muitas vezes é narrada e enaltecida apenas pela sua pureza e por ter dado a luz ao filho de Deus (e essa ênfase presente nos discursos a respeito de Maria é reflexo daquilo que a sociedade espera que seja exaltado no ideal de “mulher branca e imaculada”, um padrão estabelecido até hoje), foi muito mais do que uma virgem e muito mais do que apenas uma mãe. Ao longo da infância de Jesus, Maria esteve atenta às palavras ditas por e sobre ele, guardando-as em seu coração (Lucas 2:19, Lucas 2:51). Adiante na narrativa bíblica, percebemos que Maria com frequência era quem sabia ouvir e entender as palavras de Jesus. Ela soube exatamente o que fazer nas bodas de Caná, quando o vinho da festa havia acabado (João 2:5), tendo sido parte do primeiro milagre de Jesus. Ela sabia interpretar as palavras de Jesus e aplicá-las de forma a viabilizar as ações dele. Maria nos ensina que muitas vezes o que de mais poderoso podemos fazer é ouvir a Deus e confiar nEle. Muito provavelmente é uma das mulheres mais relevantes da Bíblia e Jesus demonstrou o seu cuidado com ela até mesmo no momento de sua morte, quando pediu que alguém de sua confiança cuidasse dela quando ele se fosse (João 19:26,27).

Além de sua mãe, outras mulheres fizeram parte do ministério de Jesus e desempenharam um papel de muita importância na trajetória dele. Maria Madalena, por exemplo, iniciou sua caminhada com Jesus sendo liberta de sete demônios (Lucas 8:2) e depois disso o seguiu, tanto quanto seus discípulos o seguiram, auxiliando-o e aprendendo com ele. Maria Madalena também foi peça fundamental na ressurreição de Jesus, tendo sido para ela que ele apareceu inicialmente e foi ela quem carregou a responsabilidade de informar aos outros sobre a sua ressurreição (João 20:11-18). Em conjunto com Maria Madalena, também podemos citar Joana e Suzana, que também estiveram prestando apoio a Jesus por meio de seus bens.

Uma mulher que me toca profundamente é aquela “sem nome”, que chamamos de samaritana (João 4:1-30). Uma mulher que reunia tantas desvantagens e incompatibilidades com um homem judeu como Jesus, mas que ainda assim despertou o interesse dele. Na conversa entre os dois no poço de Jacó, Jesus se revelou profeta por meio de ensinamentos e revelações transmitidos a ela, e isso por si só já foi um ato subversivo. Mesmo um breve diálogo com essa mulher contrariava a ordem estabelecida em tantos níveis que os discípulos, ao retornarem ao poço, questionaram internamente o porquê de Jesus ter se colocado naquela situação. Além de mulheres serem consideradas inferiores a ponto dos homens não dirigirem a palavra a elas em público, aquela era uma mulher pertencente a um povo mal quisto pelos judeus e ainda tinha um histórico considerado imoral. Esse foi um diálogo tão poderoso que fez com que a mulher, ao sair dali, pregasse sobre Jesus ao povo dela, o que atraiu outros homens ao Cristo. A atitude de Jesus, ao oferecer àquela mulher a sua palavra para ser propagada , demonstra o quanto o olhar que ele tinha em relação às mulheres que cruzavam o seu caminho era de muito respeito e confiança, fossem elas quem fossem.

Por fim, temos ainda o caso de Marta e Maria de Bethânia, a quem Jesus demonstra a sua disposição em confiar seus ensinamentos . Na ocasião em que se hospedou na casa de Marta (Lucas 10:38-42), Jesus ressaltou a atitude de Maria de ter se assentado aos seus pés para ouvir de seus ensinos, como uma atitude correta e um exemplo a ser seguido. Essa também era uma indicação que ia de encontro aos preceitos da época, quando as discussões e debates teológicos se concentravam apenas nas rodas de discussão masculinas. No entanto, Jesus confiou a mulheres alguns de seus ensinos valiosos.

Para mim, imaginar cada um desses cenários, construir mentalmente essas situações, visualizar no meu pensamento a ideia de um Jesus que estava entre mulheres, confiava nelas, delegava atividades a elas, atribuía valor a elas, despertava nelas o senso crítico e a vontade de ser relevante num período em que nenhuma dessas ideias era comum, diz muito a respeito do caráter de Deus e do que Ele quer de nós. Como mulheres, podemos receber do Senhor uma infinidade de dons e ministérios, podemos atender ao seu chamado, podemos assumir o protagonismo em ser instrumentos para a manutenção das coisas que Deus quer fazer na Terra até hoje. Ele confia em nós e isso é muito poderoso. É de suma importância que passemos a fazer o exercício de nos lembrarmos de todas essas demonstrações dele a nosso respeito, para lutarmos contra as forças que ainda hoje tentam nos impedir de sermos aquilo que Deus quer que sejamos.


Isadora Nascimento, contadora não apaixonada por números, cristã protestante, amante de livros, séries, comida e uma boa conversa.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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