Lisa Sharon Harper: Entre a bíblia e a sociedade racista.

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Falar de Lisa Sharon Harper hoje é falar de uma das teólogas negras mais inseridas em pautas sociais na experiência norte-americana. Mulher negra, nascida em Ferguson, Lisa Harper é teóloga, mestre em Direitos Humanos, escritora, palestrante, pregadora e treinadora de  lideranças evangélicas para os assuntos ligados a bíblia e direitos da população negra norte-americana. Possui artigos publicados pela CNN, Fox News e foi  considerada uma das 50 líderes religiosas mulheres mais poderosas dos Estados Unidos da América pelo The Huffington Post.

Lisa tem diversos livros publicados, todos escritos em inglês: Evangelical Does Not Equal Republican…or Democrat (The New Press, 2008), Left Right and Christ: Evangelical Faith in Politics (Elevate, 2011), Forgive Us: Confessions of a Compromised Faith (Zondervan, 2014), e o aclamado pela crítica, The Very Good Gospel: How Everything Wrong can be Made Right (Waterbrook, a division of Penguin Random House, 2016).Por ainda não possuírem traduções formais para o português achei que seria interessante fazer uma tradução livre de alguns trechos e debater como é a construção de sua teologia e como ela faz a aplicação da Bíblia.

1.Paz e cidade

“Mas e se Deus está tentando chamar nossa atenção? E se Deus está buscando a paz daqueles que Jesus chamou de “o menor destes” em Mateus 25? E se Deus está colocando os videomakers em posição para registrar os pontos de inflamação da injustiça, para que todos nós possamos ser empurrados para fora de nossas realidades virtuais para ver – finalmente – que algo realmente está gravemente errado? Corpos negros ainda suportam o peso da opressão estrutural e sistêmica.

Então, como desligamos a televisão e buscamos a paz da cidade? (…)

“Busca a paz da cidade onde te enviei”, disse Deus através do profeta Jeremias.

Então, um pouco mais tarde, no texto, Deus oferece essa promessa ao povo: “Pois certamente conheço os planos que tenho para você, diz o Senhor, planos para a sua paz e não para prejudicar, para lhe dar um futuro com esperança.”

Este texto, referido na bibliografia como “Por que devemos ouvir a linguagem do motim antes de podermos buscar a paz” fala acerca da violência nas cidades, usando trechos do Evangelho de Mateus e do profeta  Jeremias para trazer uma contraposição entre quem são as pessoas que Deus vem libertar e aquelas que o povo norte-americano vê como tendo direito a proteção. A paz, então, vem diretamente com o ouvir o clamor do povo e o atender, não de fingir que a paz é somente algo individual.

2. Dominação e direitos da população negra.

“Como seguidores de Jesus, somos chamados a buscar o florescimento de toda a humanidade.

Gênesis 1: 26-27 declara que toda a humanidade é criada à imagem de Deus e chamada a exercer domínio – ação, mordomia, liderança. A declaração descreve o que parece para os seres humanos florescerem.

Mas, o arco da história americana revela que as pessoas de cor têm lutado para florescer neste solo. E no coração do arco está uma mentira teológica: os negros e outras pessoas de cor são simplesmente menos humanos do que os brancos e, como resultado, menos capazes de serem lideranças. Do outro lado da mesma moeda teológica, está a outra mentira de que os brancos são mais parecidos com Deus do que outros – equipados de maneira única e chamados a exercer domínio em solo americano.”

Quando Lisa Sharon Harper esteve no Brasil em 2018, ela deu uma de suas palestras acerca da igualdade de toda humanidade a partir de Gênesis, onde vemos que mulheres e homens, brancos e negros, livres e  escravos receberam o direito de ser a imagem de Deus e de exercer ações de cuidado sobre a terra – a qual ela faz uma análise sobre a ideia de domínio. Assim, ela reitera biblicamente o conceito desenvolvido por Lutero  de sacerdócio universal de todos os santos e o aplica dentro da sociedade norte americana – sociedade esta que tradicionalmente se utiliza da ideia de superioridade racial dos brancos com relação aos negros.

3.Movimentos sociais e igrejas

“Os princípios desse movimento secular não são fundados pelos ensinamentos cristãos, mas as escrituras os defendem. Eles incluem:

1) Rejeição de “política de respeitabilidade”. Apoiar o #BlackLivesMatter significa apoiar a realidade que TODA a vida negra importa, incluindo aquelas que seriam vistas pelas estruturas de poder branco como os menos respeitáveis ​​na sociedade. O princípio está muito de acordo com o princípio bíblico do Shalom – a crença de que, até que todos nós tenhamos paz, nenhum de nós terá paz. Também está diretamente de acordo com o chamado de Jesus em Mateus 25 para fazer justiça pelo “menor destes”. Isso desafiará os evangélicos, especialmente aqueles que já lutam com a doutrina da graça. Se alguém acredita que o chamado do evangelho é para ser perfeito, então “o menos respeitável” irá perturbar a consolabilidade. Mas somos chamados a considerar outra interpretação do chamado de Mateus 5 para “ser perfeito como nosso Pai no céu é perfeito” – o chamado para AMAR perfeitamente.

2) Promoção de jovens líderes negros. Biblicamente, é um chamado para ouvir as palavras de Isaías 61: 1-4 e saber que os oprimidos, os que choram, os que têm interações injustas com o sistema prisional, serão os Carvalhos da Justiça. São eles que reconstruirão as devastações de muitas gerações. Para fazer isso, os evangélicos brancos precisarão confrontar em si o que Michelle Higgins chamou em seu discurso em Urbana15 – a necessidade de estar no controle. Eles precisarão renunciar a outra mentira de Satanás – que Deus ordenou pessoas brancas para liderar o mundo.

3) Foco fundamental na mudança estrutural / sistêmica. Isto se relaciona com a própria declaração de Jesus de sua declaração de missão em Lucas 4, que remonta ao Ano do Jubileu (um ano de liberdade legal e econômica e provisão). Será um desafio para nós evangélicos porque, de acordo com Emerson e o estudo de Smith, os evangélicos têm dificuldade em ver e apreender a realidade e o impacto dos sistemas e estruturas nas vidas e meios de subsistência de grupos inteiros de pessoas. Para isso, precisamos clamar por olhos para ver e ouvidos para ouvir. Ore por corações que façam como nossa irmã, Erna Hackett, que liderou a equipe de louvor Urbana, disse: “Quando nossos irmãos e irmãs negros nos contam sua história, precisamos acreditar neles”.

4) Resistência não violenta de sistemas injustos. Em todas as cidades onde o BLM atua, o movimento respondeu com formas criativas de resistir e confrontar a violência através de meios não violentos. Há treinamentos em resistência não violenta que ocorrem antes de cada ação do BLM. Milhares de treinamentos foram realizados em todo o país no ano passado. Alegações que a BLM defende ou tolera a violência são 100% falsas. Há muitos que participam de marchas, mas nunca receberam o treinamento. Há outros que falam sobre as questões tratadas pela BLM, mas nunca se comprometeram a respeitar os princípios. Ser negro não faz de alguém um membro do movimento. Nem marchar ou falar sobre faz de alguém um porta-voz do movimento.”

Nesse último trecho Lisa Sharon Harper traz para a comunidade cristã a possibilidade de se aliar a um movimento social específico, o Black Lives Matters (BLM) – em português, “Vidas Negras Importam”. A partir de sua análise bíblica e da sociedade, ela mostra que os mitos que movimentos sociais são violentos, anti-cristãos e que depravam a sociedade são falsos

Trouxe esses três trechos para pensarmos: como temos lido nossa sociedade brasileira? Será que temos embasamento bíblico para poder dialogar com nossos irmãos? Temos pensado na influência da escravização de pessoas na nossa forma de ver a teologia hoje? O quanto o racismo está dentro de nossas teologias? Será que temos acesso a boas fontes de notícias que nos ajudem a repensar nosso país? O trabalho de Lisa Sharon Harper tem apontado para uma direção de que é possível fazer esse diálogo, com amor, fé e justiça.

Bibliografia

HARPER, L.S. Como a religião se torna uma força destrutiva ou redentora para “Vidas Negras Importam” Link: https://www.washingtonpost.com/news/acts-of-faith/wp/2015/04/09/how-religion-became-a-destructive-and-redemptive-force-for-black-lives-matter/?utm_term=.34b96d83b248

HARPER, L. S. Quatro coisas evangélicos deveriam saber sobre “Vidas Negras Importam” Link: https://sojo.net/articles/faith-action/four-things-evangelicals-should-know-about-black-lives-matter

HARPER, L. S. Por que devemos ouvir a linguagem do motim antes de podermos buscar a paz. Link:https://www.washingtonpost.com/news/acts-of-faith/wp/2015/04/30/why-we-must-listen-to-the-language-of-the-riot-before-we-can-seek-peace/?noredirect=on&utm_term=.93bda540f46c


Rebecca Maciel é carioca, psicologa, teóloga e escreve no blog Teologicamente Instável.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.


Revisora: Marília Giammarco Polli

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