Margarida de Navarra e a participação feminina na Reforma Protestante

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Como evangélicas sabemos que a Reforma Protestante foi um movimento muito importante para a nossa compreensão e vivência da fé cristã. Foi um momento histórico de redescoberta das doutrinas centrais do cristianismo, bem como de rompimento das relações com uma estrutura de igreja que estava profundamente doente e afastada do ideal de Atos dos Apóstolos.

Porém, quando paramos para pesquisar acerca dos grandes nomes desse período, que se inicia em 1517, encontramos muitas informações disponíveis sobre os grandes reformadores europeus, tais quais: Martinho Lutero, João Calvino, Ulrico Zuínglio e John Knox, e quase nenhuma referência às mulheres que participaram dessa história. Por que será que isso acontece? Não haviam teólogas naquela época? A igreja era composta apenas por homens?

A história do cristianismo nos mostra que, desde o início, as mulheres foram comprometidas com Cristo, preocupadas com sua vida espiritual e atuantes na comunidade da fé. Começando no Novo Testamento e por toda a Idade Média são muitos os relatos de mártires, monjas e tantas outras leigas que participaram das mais diversas maneiras.

Vivendo num mundo dominado por homens, as mulheres tiveram que se adaptar ao espaço de atuação permitido e possível a elas e desta forma, quando não podiam falar ou escrever, serviam através das orações, do ministério de ensino, da capelania e ação social.  

Vamos conhecer uma grande mulher da qual não se fala muito sobre,  mas que teve uma função importantíssima no contexto dos reformadores, seu nome é Margarida de Navarra.

 

Quem foi essa mulher?

 

Margarida nasceu em 1553 e foi uma princesa francesa da dinastia Valois. Ela tornou-se rainha de Navarra e depois também da França quando seu marido, Henrique IV, foi coroado, em 1589. Era a irmã do rei Francisco I da França e o ajudava muito com as questões do governo, atuando praticamente como uma diplomata, pois era especialista em relações internacionais e sabia como ninguém comunicar-se como os nobres da Europa.

Por pertencer a família real e ter o acesso facilitado aos estudos, Margarida se destacou por suas capacidades intelectuais e, dessa forma, teve contato com os escritos de Lutero. As novas idéias e doutrinas desencadearam uma grande mudança dentro dela. Ao ler as obras do reformador, seu coração se encheu de amor pelo Evangelho verdadeiro e pelas doutrinas da graça de Deus.

Porém,  assim como Lutero no início da Reforma, ela ficou em crise, pois percebia os erros da igreja, mas não tinha intenção de se separar nem promover um racha na estrutura Católica que era a única igreja cristã que existia oficialmente. Mesmo dividida, sabia em seu coração que queria o mesmo que os reformadores ensinavam: uma religião menos dogmática e sem regras inúteis (que eram acréscimos ao texto bíblico), mais acolhedora e amorosa, pois era isso que faltava naquele momento.

A percepção de Margarida acerca da necessidade de uma reforma espiritual e de costumes na igreja estava totalmente de acordo com as pregações da teologia reformada, e ao perceber isso, ela dedicou-se a colaborar com esta causa.

 

Margarida e sua importância

 

Por ser uma mulher muito inteligente, culta e que gostava de estudar os temas da teologia, Margarida lançou mão dos recursos da época para aproximar as pessoas do Evangelho escrevendo contos que terminavam com valores morais cristãos. Dessa forma, sua produção teológica foi completamente diferente da formalidade característica dos escritos teológicos da época.

À frente do seu tempo, ela fazia teologia dialogando com a cultura da sociedade, num estilo de leitura fácil e acessível a todos, mas que não deixava de falar de temas sérios como, por exemplo, as práticas imorais espalhadas pela corte e na vida do povo da sua época, incluindo, até mesmo, denúncias aos monges e padres que seduziam as mulheres usando da sua posição na igreja e do seu status religioso.

Outro aspecto importante da vida de Margarida foi ela ter colocado seus bens a serviço do Evangelho levando pregadores itinerantes por diversas cidades para que o povo pudesse ouvir a verdadeira pregação da Palavra de Deus. Além de ter providenciado abrigo aos colaboradores de Lutero que haviam sido presos, ela acolheu o próprio João Calvino quando ele precisou fugir da França como refugiado e foi para Genebra, devido às perseguições impostas pela liderança da Igreja Católica.

Posteriormente, Margarida usou sua influência política para conseguir o perdão da pena de Calvino junto ao governo da França. As Institutas da Religião Cristã, obra mais importante desse reformador, foi dedicada ao rei Francisco I, irmão de Margarida como forma de esclarecer o que o protestantismo pregava, apresentar as bases bíblicas das doutrinas e servir como um manual de instrução para os crentes. Calvino fez isso com o intuito de receber o apoio real, e teve Margarida como principal apoiadora. Se ela não tivesse intercedido por ele e nem providenciado as condições para ele viver em Genebra, dificilmente a história do protestantismo conheceria o calvinismo.

 

Margarida nos ensina ainda hoje.

 

São muitas as aplicações que podemos fazer a partir dos ensinamentos deixados por ela:

 

  1. Ela vivia numa corte imoral e sua vida fez a diferença naquele ambiente porque não se contaminou com as práticas do seu tempo. Como nós, sendo cristãs hoje, podemos fazer a diferença na nossa sociedade a partir do nosso comportamento e do nosso discurso?
  2. Margarida se interessava pelo estudo da teologia. Quantas de nós entendemos que representatividade no ambiente acadêmico importa? Seja estudando e construindo teologia a partir da perspectiva feminina ou atuando em outras áreas do conhecimento, você tem usado o potencial intelectual que Deus te deu?
  3. Ela sabia como falar e persuadir o rei e os demais governantes a fim de que eles fizessem o que era correto diante de Deus. Você tem sido sábia  em suas relações, influenciando pessoas a agirem positivamente no ambiente onde vivem?
  4. Margarida sonhava em viver o cristianismo a partir da perspectiva do amor que acolhe, que serve aos outros nas suas necessidades e que não esmaga as pessoas com regras criadas pelos homens. No fim de sua vida, mesmo sendo da família real, ela dedicou-se ao cuidado dos pobres e dos enfermos. Como você tem compreendido o Evangelho: são regras a serem cumpridas ou laços de afeto a serem expandidos? É uma fé que aprisiona ou que liberta? O que você tem vivido e pregado?

Autora: Priscilla dos Reis Ribeiro


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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