Mulher, mãe, filha: negra somos

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Sou mãe a maior parte da minha vida. Filha também. Fui mãe na adolescência e isso mudou minha forma de ser mulher. E de ser filha.

Enquanto filha, tive o privilégio de crescer em uma família de mulheres fortes. Fui criada na inspiração que fluía das minhas irmãs mais velhas e da minha mãe. Meu pai também estava lá. Homem duro, mas carinhoso com crianças. Apenas com crianças. Eu cresci e isso mudou bastante e, talvez por isso, minha maternidade tão precocemente se concretizou. Não me queixo.

De minha mãe herdei a força e a teimosia, hoje claramente, refletidas na resistência e na persistência que marcam minha trajetória. Dela sempre ouvi: “Tu pode ser o que quiser, fazer o que quiser, só não esquece que teu esforço terá que ser em dobro, minha filha. Mulher, negra e pobre. As coisas não serão fáceis. Mas tu pode.” Não foram. Não são. Mas eu pude. Eu ainda posso. Minha pele preta me diz isto sempre: não aceitar nunca que ela seja obstáculo. Muitíssimo pelo contrário. Minha mãe disse que eu podia e eu acreditei.

Como ela, não sou a melhor mãe do mundo, mas tenho convicção de que sou a melhor mãe que pude ser. Exatamente como ela tem sido a vida toda. Como ela, eu fui desbravando caminhos, procurando soluções, engolindo o choro e partindo pra luta. Todo santo dia.

Como ela, também aprendi a ser resiliente, a rir das desgraças da vida, a levantar depois de cada tombo, a me rastejar se for preciso, mas não parar nunca. Aprendi a chorar de cantinho para que as lágrimas não atrapalhem a visão do que tem que ser feito. Aprendi a lutar, a não depender emocionalmente de ninguém, a fazer por mim. A dar mais de mim aos outros somente quando isso for possível. A dar tudo de mim por meu filho.  

 

Aprendi a ser tudo o que ela não pôde, tudo que ela não quis.

Aprendi a querer ser tudo o que ela não é e fracassar miseravelmente.

Aprendi a querer ser o que ela é e triunfar vitoriosamente.

E a fracassar também.

Aprendi a não querer ser o que ela é e fracassar miseravelmente mais uma vez.

E a triunfar também.

Eu me preencho nos vazios deixados pela minha mãe.

Eu me esvazio nas lacunas preenchidas por ela.

 

Meu filho com certeza tem muitas queixas a meu respeito. Errei muito com ele. Sofri, fiz sofrer, fiz escolhas erradas, tomei decisões precipitadas, negligenciei coisas fundamentais. Mas ainda estamos juntos. Aprendi a perdoar – a mim mesma, inclusive – a não fixar meus olhos no passado, a projetar o meu futuro e a viver o meu presente. Com meu filho me descobri mãe. Ainda me descubro. Não romantizo nada. Somos muito reais. Superamos dores e traumas, mágoas e tristezas. Pois da minha mãe também herdei o poder da reconciliação.

Temos muito ainda por fazer. Temos muito ainda a aprender um com o outro. Não estamos prontos. Nunca estaremos. Somos como ondas que nunca mais serão as mesmas depois de morrer e voltar das batidas nas rochas. E isso não me assusta. Talvez assuste a ele ainda, mas, como eu, ele vai aprender que isso é vida.

Nessa tríade de amor, minha mãe, meu filho e eu, vejo claramente a graça de Deus se manifestando em cada gota de nosso sangue negro. Vejo a voz dos meus antepassados e a resistência deles. Vejo Deus trazendo à realidade uma ancestralidade que, ainda que seja por nós desconhecida, é de inegável influência e beleza ante os obstáculos da vida. Vejo Deus se manifestando através de nossa negritude por tantos negligenciada e até amaldiçoada. Vejo Deus calando a voz dos opressores através dessa graça que impede que o racismo, o preconceito, a violência, a solidão, não sejam maiores do que a plenitude de viver o que nascemos para ser. Somos imagem e semelhança do Criador. Mesmo nas nossas diferenças e imperfeições. Sobretudo, por elas.

Como eu digo pra minha mãe, meu filho diz pra mim que tem a melhor mãe do mundo. Reconhece que tem a melhor avó também, como não poderia deixar de ser. Ela é a mãe que eu não sou. Eu sou a mãe que ela não é. Por isto somos: porque somos.

Olho pra minha mãe e vejo Deus. Meu filho olha pra mim e, na sua turbulenta, mas persistente relação com Deus, me diz com convicção: Deus é uma mulher preta.


Bianca Ramires é professora de Língua Inglesa no ensino médio da rede pública estadual do Rio Grande do Sul e doutoranda em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande – FURG, membro do Coletivo Abrigo e da Comunidade Cristã Abrigo; Secretária de Comunicação da Aliança Bíblica Universitária/Região Sul; membro da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência/Núcleo Porto Alegre, Bianca se auto define como “mulher, negra, moradora da periferia da capital rio-grandense e, também, mãe, tia, irmã, filha, amiga leal e do tipo casca-grossa-faca-na-bota. Inquieta, crítica, exigente, muito auto exigente, cri-cri, questionadora e chata. Muito chata.”


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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