Mulher, quem é você?

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O nome dela é Maria. Como o de outras tantas. Maria Madalena. Essa mesma que você, provavelmente, está pensando. A pecadora endemoniada de Lucas 8:2? Ou a Maria de Betânia, irmã de Marta e de Lázaro? Talvez seja a pecadora de Lucas 7. Ou quem sabe a adúltera de João 8? Ainda há a chance de essa mulher ser a apóstola, esposa e mãe dos filhos de Jesus, supostamente pintada na tela de Da Vinci e narrada por Dan Brown. Essa mulher especulada, cuja história teria sido escondida pela igreja, que teria ocultado esses relatos, uma vez que o messias esperado não teria vindo à terra por esses motivos. Isso afirmam alguns historiadores e romancistas mais exaltados.

De que Maria Madalena está se falando aqui? Os evangelhos falam muito pouco sobre essa mulher. O que eles apontam é que Maria Madalena tinha convicção da natureza messiânica de Jesus Cristo, como pode ser visto em Marcos 16:9 e Lucas 8:2; acompanhou os eventos da via-sacra e do funeral do Redentor (Mateus 27:55-56; Marcos 15:40; Lucas 23:49; João 19:25); foi ela, inclusive, quem foi ao túmulo chorar por Jesus e, para sua surpresa, não só não encontrou o corpo dele, como também, e sobretudo, encontra-o vivo (João 20:11-18; Mateus 28:1-10; Marcos 16:1-11; Lucas 24:1-10; João 20:1-2). Na Bíblia Sagrada tudo o que se sabe dessa mulher está aí. Independente de quem tenha sido essa Maria, uma coisa é certa: seu corpo e sua vida sempre foram, e ainda são, alvos de especulações. Ela mesma, tida como a “prostituta”. Regenerada é verdade, mas “prostituta”. E é justamente o fato de ser especulada que a torna tão próxima a nós, outras “marias”.

Estranhamente o corpo, a história, a vida de uma mulher, nunca lhes pertence integralmente. Há sempre um “disse-que-me-disse” a respeito do que ela faz, deixa de fazer ou de quem ela é. E, não raramente, são os atributos físicos, os erros e as polêmicas em torno dessa mulher que estampam as histórias que são produzidas sobre ela. Com Maria Madalena não foi diferente. Há até um evangelho gnóstico sobre essa mulher, afirmando que ela foi uma discípula de suma importância no ministério de Jesus, a quem ele teria confidenciado informações que não falou a mais ninguém. Talvez esse texto apócrifo, citado aqui apenas como história e não como texto sacro, seja a tentativa, quase desesperada, de alguém tentando preencher o que considerou uma lacuna, um espaço vazio, deixado pelo cânone pela não observação atenta ao papel de Maria Madalena nos quatro evangelhos. Ainda assim o que se tem, como texto sagrado, é essa mulher devota, fiel, leal, preocupada e humanamente sensível a Cristo. E são esses os valores que devem ser creditados a ela, e apesar de quase passarem despercebidos, à luz dos evangelhos canônicos, não o são de fato. O resto, seja o dito ou o não dito por ela e a respeito dela, é só especulação. Importa saber que ela foi liberta pelo Cristo, acompanhou a sua crucificação e foi a primeira pessoa a vê-lo ressurreto e a  reconhecer a divindade dele como sendo o próprio Deus e, por isso, por ele foi comissionada (pelo rabôni). Maria Madalena, como tantas outras mulheres, foi desacreditada em seu discurso sobre a ressurreição. Essa Maria não teve crédito na sociedade, como outras “marias” também não o têm. Mas o crédito foi dado a ela. E não por homens, não por rabinos, não por apóstolos, mas pelo próprio Cristo Salvador. Não teria ele, então, escolhido se revelar a ela para que ela revelasse a si mesma nele? Reconhecer a ele, e a si mesma, no seu próprio nome sendo dito por Jesus Cristo nos diz que sim.

Mulher, porque choras? A quem procuras? E mais: Quem é você? Quem somos? Porque essa Maria Madalena aí foi chamada pelo nome, pelo próprio Deus ressurreto. Isso implica em saber que a nossa identidade está nele. Nossa função, nosso comissionamento, nossa verdade, está tudo nele. Apenas. Por mais desacreditadas, expostas, ridicularizadas, polemizadas e tidas como tolas que sejamos, a nossa identidade é afirmada e reafirmada nele. E aí já não importa o que os outros digam ou pensem. Se estamos nele, sabemos quem somos. Passamos tanto tempo chorando pelo que não tem valor e procurando pelos alvos errados entre os mortos que, muitas vezes, esquecemos por completo de quem somos. São infinitas as vezes em que temos medo, em que calamos a nossa voz, em que acreditamos no discurso de que o que falamos não passa de tolice. Não foi tão diferente assim com a nossa Madá. A questão é que, embora ela sentisse tudo isso, como nós também sentimos, ela ouviu a voz do seu mestre, o reconheceu e se reconheceu nele ao ouvir seu próprio nome: “Maria!”. A identidade dela fora afirmada.

Ele sabia o que viria a seguir. Certamente sabia do descrédito que dariam às palavras dela, sabia do medo dela, sabia tudo a respeito dela. E o que isso importa? “Vai, Maria! Não me detém! E não fica aí parada! Tens todo o tempo do mundo para isso. Agora eu quero que você vá e anuncie que eu estou vivo! Para além dos teus medos, para além do descrédito que te darão, eu, teu Deus, te chamei pelo nome, te escolhi. Vai!”. Importava ela saber quem era nele e não o que os outros diriam ou pensariam a respeito dela. No comissionamento do Messias à Maria essa conjectura estava implícita. Era um convite a enfrentar os próprios medos e a assumir a sua identidade, independente de quem fossem, dissessem ou pensassem os outros.

Naquele “Maria” pronunciado por Jesus Cristo estávamos todas nós. Nós que somos ridicularizadas, especuladas e desacreditadas. Nós que choramos e lamentamos. Nós que, muitas vezes, procuramos respostas em mortos. Que a voz do nosso Cristo ecoe em nossos ouvidos, chamando-nos pelo nome, e nos conduza a nossa verdadeira identidade a fim de que cumpramos todo propósito por ele já sonhado. Identidade que não está em nenhum outro, além de naquele que vivo está. Naquele por quem dele, por ele e para ele são todas as coisas.

Vai, Maria!


Bianca Ramires é professora de Língua Inglesa no ensino médio da rede pública estadual do Rio Grande do Sul, Doutoranda em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande – FURG; membro do Coletivo Abrigo e da Comunidade Cristã Abrigo, 2ª Secretária de Literatura e Artes da ABU/PoA, Secretaria de Comunicação, Arte e Cultura da ABU/Região Sul. Mãe, tia, irmã, filha, amiga leal e do tipo casca-grossa-faca-na-bota, inquieta, crítica, exigente, muito autoexigente, cri-cri, questionadora e chata. Muito chata.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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