Resistir com amor – Corrie Ten Boom

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Hoje em dia temos discutido muito o papel de uma bancada evangélica na política de nosso país. Será que as leis que eles tem apoiado ou proposto tem a ver com cristianismo? Em tempos políticos complicados, onde o mal tem vencido, como nós como cristãs podemos nos posicionar? O que devemos fazer?

A história de Corrie Ten Boom aponta um caminho: agir contra o mal, não importa se ele está no governo, se pode te matar, se está atacando aqueles que são diferentes de você ou até mesmo se está “vestido” de cristianismo.

 

Relógios, trens e Holanda

Corrie nasceu em 15 de abril de 1892 em Amsterdam, Holanda. Era filha de um relojoeiro e tinha 4 irmãos. Costumava viajar de trem com seu pai para buscar peças dos relógios; ele era um homem cristão que ensinou seus filhos a respeito das Escrituras. Ela nunca se casou e estudou a profissão de seu pai, tornando-se a primeira relojoeira licenciada de seu país.

 

O mal se ergue

Os nazistas – que se diziam cristãos – invadiram a Holanda em 1940 e a casa de Corrie foi enchendo-se dos seus “segredos de Deus”. Alguém entrava na loja dos Ten Boom dizendo que “havia um relógio sempre parando que precisava ser consertado” e ela já sabia que esse era o código de que avisava: havia um judeu em perigo e precisando de ajuda. Ela e sua família formaram uma rede de pessoas que abrigavam judeus no seu bairro, Haarlem.

Em sua casa havia um esconderijo, muito semelhante ao que a menina holandesa e judia Anne Frank esteve escondida, apelidado de “refúgio secreto”. Eles não somente abrigavam os judeus, mas também respeitavam as suas tradições religiosas e alimentação kosher; o porquê deles agirem assim é muito simples de entender: respeitar uma pessoa envolve respeitar a sua cultura e religião. O auxílio que os Ten Boom prestavam àquelas pessoas não vinha de um lugar de superioridade, mas de reconhecer a importância de garantir vida e dignidade ao próximo.

Mas, um dia eles foram descobertos. A Gestapo revistou a casa e, apesar de não encontrar o refúgio, prendeu o senhor Ten Boom e suas filhas mandando-os para um campo de concentração. Desta família, a única sobrevivente é Corrie. Foi liberta por um erro burocrático, uma semana antes de todas as mulheres da idade dela serem levadas à câmara de gás.

Betsie, a irmã de Corrie, a acordou no meio de uma noite no campo de concentração e disse que aquele acampamento era feito para destruir pessoas mas que quando saíssem dali, elas deveriam tentar comprá-lo, reformá-lo e fazer um bonito lugar para pessoas que perderam seus lares na guerra poderem viver e curar seus corações do mal horrível que lhes foi causado. Betsie morreu no campo de concentração dias depois dessa conversa. (Corrie Ten Boom – APEC)

 

Reflexos da glória de Deus

Após o fim da guerra, Tia Corrie, como era chamada, abriu uma casa para abrigar pessoas que sofreram em campos de concentração. Ela nunca mais seria rejoleira, se tornou a “andarilha de Deus” e visitou diversos países falando da Graça e do perdão. Até que um dia, a mensagem do perdão a chamou para visitar a Alemanha.

Depois de pregar numa igreja em Munique, Corrie foi abordada por um ex-guarda que havia sido um dos mais violentos no campo de concentração que esteve presa. Ela o reconheceu imediatamente, mas ele não se lembrava dela e pediu seu perdão em nome de todos aqueles que havia feito sofrer. Corrie não queria, não conseguia perdoar aquele homem, mas buscou em Deus a compaixão para resgatar o oprimido e ao mesmo tempo, o opressor.

A Andarilha de Deus viajou o mundo como missionária por 30 anos e morreu nos Estados Unidos, com 91 anos, em uma casa que ela chamava de Shalom (paz, em hebraico). Também escreveu livros, entre eles o “Reflexos da Glória de Deus” que consiste numa série de textos sobre vida cristã e é um excelente devocional.

 

Em tempos de ódio, resistir com amor

O pai de Corrie acreditava que os judeus eram um povo especial para Deus, sendo assim, o que a Alemanha nazista estava fazendo com eles era anti-cristão. Depois do fim da guerra, Corrie viaja pelo mundo e se depara com diversos povos perseguidos e com pessoas oprimidas, seu coração se compadece delas. E mesmo não sabendo a “posição política” desta mulher, podemos dizer que ela estava disposta a dar sua vida para resgatar pessoas que estava sendo perseguidas, mesmo não pertencendo à sua religião ou ascendência biológica.

Hoje, vivemos num país que não tem um governo agenda explícita contra um povo, que não tem campos de concentração ou um ditador como Hitler, mas que também mata. Existem milhares sendo perseguidos, explorados e mortos. E pensando num Deus cuja missão é reconciliar todos, fica claro que a nossa posição como cristãs e cristãos não é agir contra pessoas diferentes de nós, mas contra morte; não é obrigar uma moralidade através de leis, mas dar testemunho cristão prático; não é apontar e julgar mas abrigar em refúgios secretos. E principalmente: exercermos amor.

Corrie, Betsie e a sua família sabiam que a atitude de resistir com amor poderia custar as suas vidas. Deus é amor e está em palavras, ações, experiências, na natureza, nos relacionamentos. Um amor presente no erro burocrático que libertou uma irmã. Um amor tão intenso pelo qual a outra irmã morreu como mártir na câmara de gás. Amor que resgata os marginalizados, que dá sentido, que ressignifica, e que nem sempre é passível de ser totalmente entendido.

Contei brevemente uma história que a minha mãe me contou, sobre essas mulheres que nos ensinam como sermos verdadeiramente cristãs em tempos de ódio. Mais de duas milhões de mulheres morreram durante o Holocausto. Só no campo de concentração onde a Corrie esteve, 95 mil. E entre elas, Betsie Ten Boom.

 

Referências

Faça o tour pela casa de Corrie Ten Boom

Corrie Ten Boom: uma justa entre as nações 

Reflexos da Glória de Deus – Livro

O Refúgio Secreto – Livro

Corrie Ten Boom – APEC – Livro

Andarilha para o Senhor

Filme completo “O Refúgio Secreto” (1975) em português 


Bianca Rati é designer, cristã, feminista e sommelier de pipoca.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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