Sister Rosetta Tharpe: Rock ‘n’ Roll é coisa de preta

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Inspiração para Elvis, Bob Dylan, Little Richard, Carl Perkins, Tina Turner, Isaac Hayes, Jerry Lee Lewis e Johnny Cash, seu violão atraiu guitarristas lendários como Eric Clapton, Keith Richards e Jeff Beck. Ela tem sido chamada de “A Madrinha do Rock ‘n’ Roll”. Quase 45 anos depois de sua morte, Sister Rosetta Tharpe, natural de Delta do Arkansas, foi introduzida no Hall da Fama do Rock and Roll como uma das primeiras influências no gênero então conhecida.

 

Nascida em Cotton Plant, Arkansas, em 20 de março de 1915, Rosetta Nubin Atkins cresceu em uma família musical e religiosa. Sua mãe era uma evangelista, bandolinista e cantora, com quem Rosetta começou a cantar e tocar violão aos 4 anos de idade. Aos 6 anos ela estava se apresentando ao lado de sua mãe. Elas se juntaram a um grupo de músicos e evangelistas e chegaram a Chicago no final dos anos 20.

 

Na década de 30, Rosetta foi para a “Big Apple” e se casou com o ministro evangélico Thomas Thorpe. Embora o casamento tenha terminado em divórcio, ela começou a usar “Tharpe” como seu nome artístico. Em 1938, a irmã Rosetta Tharpe assinou um contrato com a Decca Records e tornou-se um sucesso imediato do público negro e branco. Na verdade, foi “Strange Things Happen Every Day”, de Sister Rosetta, gravado em 1944, a primeira música gospel a passar pelas paradas da Billboard. De fato, alguns historiadores se referem a canção contida em seu primeiro disco como a pioneira do rock ‘n’ roll.

 

Rosetta continuou a tocar música gospel e secular pelo resto de sua vida. Ela tocava música gospel em clubes de blues, como o Harlem’s Cotton Club, com músicos de blues e jazz, o que incomodava alguns na comunidade gospel (muitos dos quais também não gostavam do som do violão).

 

Em 1970, a irmã Rosetta sofreu um derrame e complicações do diabetes. Em 1973, ela agendou uma sessão de gravação na Filadélfia, mas morreu no dia anterior após outro derrame.

 

Tharpe foi criada em uma igreja pentecostal, mergulhada na tradição do evangelho, mas produziu música que ultrapassou fronteiras, desafiou a classificação e desconsiderou as normas sociais e culturais da época; incorporando elementos de gospel, blues, jazz, baladas populares, folk, country, rhythm and blues e rock and roll. Tharpe foi eletrizante desde o início, cativando o público branco e negro, nos EUA e internacionalmente, com seu carisma e habilidade. Ambiciosa, extravagante e incansavelmente pública, Tharpe até encenou seu próprio casamento como um concerto gospel – em um estádio com 20.000 pessoas.

 

Aquela garotinha de Cotton Plant que cantou e tocou guitarra aos quatro anos de idade não foi esquecida para sempre. Ela é membro do Blues Hall of Fame, do Arkansas Entertainers Hall of Fame, e foi destaque em um selo do Serviço Postal dos EUA em 1998. No início de 2017, na rodovia 17 de Cotton Plant, uma placa em homenagem à Sister foi oficialmente inaugurada, chamada de “Sister Rosetta Tharpe Memorial Highway”. E agora, finalmente, ela leva um merecido lugar ao lado de lendas musicais no Hall da Fama do Rock and Roll. Rosetta foi capaz de unificar um país em uma época de grande separação fazendo música. Ela estava determinada e fez grandes coisas acontecerem. Sem a visibilidade de pessoas como Rosetta, pessoas negras tendem a pensar que não existe lugar para pessoas como elas para fazer rock, por exemplo. ela foi umaartista negra, em um momento de extremo preconceito, que teve coragem de sair para o mundo e se deixar ser vista e ouvida por todos, conseguindo trazer a beleza de sua fé para o público.

Uma artista que resistiu à categorização em muitos níveis. Como artista gospel, mulher e afro-americana, Tharpe exige que repensemos nossas noções mais básicas  a história da música e da cultura americana. Sua história sempre altera nossa compreensão das mulheres no rock e da música popular dos EUA. A biógrafa de Tharpe, Gayle Wald, em um documentário de 2011, diz sobre a influência explícita da Sister em Elvis Presley: “Não pensamos na mulher negra que está por trás do jovem branco”. Enterradaa em um túmulo sem identificação, Rosetta ganhou notoriedade recentemente e virou sensação nas redes sociais mais de 40 anos depois de sua morte.

A invisibilidade da Sister Rosetta, por tanto tempo, nos diz muito. Ela nos convoca a analisar friamente a quem interessa o apagamento da influência histórica do povo negro sobre a cultura de todos os povos. Tal apagamento não é sem propósito, nem fruto de mera passagem de tempo, mas de uma tendência na história americana, e mesmo mundial, de celebrar e elevar as conquistas de homens brancos e de “esquecer”, ou ignorar, o brilho de uma figura como Rosetta. E isso acontece por muitos fatores, dentre os quais está enraizado o racismo estrutural que apodrece como um câncer a dignidade do povo negro.

 

Hoje o túmulo de Rosetta Tharpe traz uma lápide de mármore cor-de-rosa paga por fãs indignados com esse apagamento. E nós? Estamos fazendo o que para colorir com negritude a nossa história branca?

 

REFERÊNCIAS:

Forebears: Sister Rosetta Tharpe, The Godmother Of Rock ‘N’ Roll:

https://www.npr.org/2017/08/24/544226085/forebears-sister-rosetta-tharpe-the-godmother-of-rock-n-roll

The Godmother of Rock’n’Roll – Sister Rosetta Tharpe:

https://www.youtube.com/watch?v=FKK_EQ4pj9A

Black History Month 2011 – Biographer Gayle Wald – The Legacy of Sister Rosetta Tharpe: https://www.youtube.com/watch?v=rCm0nbb808Y


Bianca Ramires é professora de Língua Inglesa no ensino médio da rede pública estadual do Rio Grande do Sul e doutoranda em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande – FURG, membro do Coletivo Abrigo e da Comunidade Cristã Abrigo; Secretária de Comunicação da Aliança Bíblica Universitária/Região Sul; membro da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência/Núcleo Porto Alegre, Bianca se auto define como “mulher, negra, moradora da periferia da capital rio-grandense e, também, mãe, tia, irmã, filha, amiga leal e do tipo casca-grossa-faca-na-bota. Inquieta, crítica, exigente, muito auto exigente, cri-cri, questionadora e chata. Muito chata.”


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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