Só ser

 Acho que sempre fui uma peça meio perdida no quebra-cabeça. Eu simplesmente não me encaixava em nada… Não era como as outras garotas, embora o quisesse em muitos momentos. Era tímida, séria, gostava de estar com as jovens mais velhas que eu para ouvir suas histórias, mas na maior parte do tempo me sentia só, e gostava disso.

Assim sendo, fui crescendo e aprendendo a ser só consequentemente a só ser… A vida era um desafio cheio de obstáculos. Ser diferente faz da gente perita em defesa, em observar tudo, em duvidar, não se relacionar só pra tentar esconder a dor de viver, num mundo onde os iguais são sempre os normais.

Eu sabia dentro de mim que aquilo tinha uma razão, o ser diferente era positivo, me destacava em muitas coisas e era observada. Um dia, num encontro de jovens, a esposa do meu pastor, Miriam Mendonça, me presenteou com um livro cujo título era “A esposa do pastor”, o qual veio selar o que eu sentia. Dentro de mim havia uma missão, eu tinha uma vocação especial!

O tempo chegou.

Acho que a princípio desapontava as pessoas, pois fugia do estereótipo da super mulher que faz de tudo e sabe de tudo, é líder, conselheira, regente e faxineira.

Foram muitos os desafios nesses quase trinta anos de ministério, ter que se dividir nos vários papéis e fazer o melhor sem se perder, sem deixar de ser fiel a você mesma, pois facilmente podemos ser tentadas a querer agradar a todos e isto é impossível! Corremos o risco de esquecer quem somos se dermos vazão às expectativas das pessoas nas igrejas!

Gosto de imaginar que a família de um pastor tem todo direito de viver uma vida normal, a criança o direito de ser criança sem ser cobrada para ser assim ou assado por ser filho/a de pastor. O filho/a adolescente passar por suas crises, cometer seus erros e viver suas curiosidades e descobertas! O jovem filho de pastor não necessariamente ser o “pastorzinho” se não tiver vocação, escolher sua namorada/o ou profissão sem vínculo com a vocação dos pais, mas com base nos seus próprios anseios! E nesse meio tempo, nós como pais, somente descansamos em Deus, sabendo e confiando que Ele não nos desamparará e que a semente da palavra estará nos seus corações guiando suas decisões!

O tempo foi cristalizando o que verdadeiramente eu queria ser como mulher cristã com a missão de ser esposa de pastor…e foi diante das muitas experiências, erros e acertos, que percebi que mais importante que desempenhar o papel de “esposa de pastor” era ser esposa do homem-pastor e mãe dos seus filhos, exercer este papel com cuidado e dedicação, pois o homem-pastor passa por angústias, decepções, ansiedades, tem sonhos, mau humor, toda uma gama de sentimentos que o tornam humano. Mas devido ao mito que o cerca, as pessoas fazem questão de achar que há um super-herói que pode tudo e está sempre feliz e equilibrado, assim como a esposa dele. Por tudo isso, decidi que a igreja em minha vida ocupava um segundo plano, pois entendia que quanto melhor cuidasse da minha família melhor servia à igreja.Era importante estarmos unidos no casamento e suprir emocionalmente um ao outro, pois a solidão acompanha o líder!

Ofereci minha vida, meu tempo e minhas habilidades para o Senhor tendo como base minha família. Eu queria ver meus filhos crescendo e amando a Deus, queria que entendessem que serviam a Deus quando serviam ao próximo, queria que eles fossem livres de qualquer peso humano. Livres para escolher Deus! Queria filhos-amigos que compartilhassem vida! Queria que eles percebessem Deus em cada detalhe de nossas vidas. No final a igreja sempre é abençoada!

Se eu fiz outras coisas?

Sim.

Muitas.

Mas nenhuma tinha tanta importância para mim!

* Texto atualizado em 12/09 a pedido da autora


Olga da Silva Rêgo de Oliveira, 54 anos, bacharel em Letras pela FIG – Guarulhos, casada com José Carlos de Oliveira, quatro filhos. Estudante curiosa de música e corte e costura. Exercício de ministério ao lado do esposo em Bonsucesso, Taboão e Pimentas – todas em Guarulhos. Tem o privilégio de representar as Esposas de Pastores de Guarulhos, o que dá a oportunidade de refletir juntamente com as mesmas sobre o papel ministerial nesse tempo.