Sojourner Truth, a peregrina negra da verdade

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“Daí aquele homenzinho de preto ali disse que a mulher não pode ter os mesmos direitos que o homem porque Cristo não era mulher! De onde o seu Cristo veio? De onde o seu Cristo veio? De Deus e de uma mulher! O homem não teve nada a ver com isso.” – Sojourner Truth

 

As mulheres na história do cristianismo

É lindo o movimento de resgatar a história de mulheres relevantes na história do cristianismo. A alegria que sentimos ao saber que elas existem é tão grande quanto o incômodo ao notar que nunca ouvimos falar delas antes. Mas se observarmos atentamente, há um certo padrão no perfil da maioria dessas mulheres.

Essa poucas mulheres que conhecemos são em sua maioria brancas, de classe média, denominações cristãs clássicas e que tiveram acesso a educação durante sua vida, dentro das limitações de cada época.

Nenhum desses fatores desmerece a luta dessas mulheres ou diminui sua importância em nossa história. Elas abriram caminho para que hoje chegássemos mais perto de poder exercer em plenitude os dons que Deus tem concedido a nós mulheres.

Mas essa realidade deve nos levar a pensar: onde estão as mulheres negras? Qual o papel delas na história do cristianismo? Que espaço têm ocupado na Igreja no decorrer do tempo?

A vida de Sojourner Truth nos responde pontualmente algumas dessas questões, embora ela seja apenas uma das milhares de irmãs negras inominadas, (in)visíveis, que dedicaram e ainda dedicam suas vidas no serviço a Deus e ao próximo. Nós existimos e somos mulheres.

 

Sojourner Truth (1797 – 1883)

Sojourner Truth foi uma mulher negra abolicionista, pregadora itinerante pentecostal e ativista pelos direitos das mulheres nos Estados Unidos. Conhecida por seu discurso “Ain’t I a woman?” (“Não sou eu uma mulher?”), dedicou sua vida como uma peregrina da verdade, tradução literal de seu nome, o qual foi escolhido pelo Santo Espírito.

Nascida escravizada no ano 1797 em Nova Iorque, respondia pelo nome de Isabella Baumfree. Seu pai, James Baumfree, foi capturado em Gana e sua mãe, Elizabeth Baumfree, era filha de escravos sequestrados da Guiné. Os dois tiveram 13 filhos, 11 dos quais foram vendidos e levados para longe da família. Os únicos que cresceram perto dos pais foram Isabella e seu irmão mais novo, Peter. Mesmo sendo escravizados pelo coronel holandês Hardenbergh, a família (ou o que restou dela) vivia unida em uma cabana própria dentro da propriedade do senhor, circunstâncias raras para escravos na época.

 

– Meus filhos, existe um Deus, que ouve e vê vocês.

– Um Deus, ‘Mau-mau’! Onde ele vive? – perguntavam as crianças.

– Ele vive no céu – ela respondia – e quando vocês forem espancados, ou tratados com crueldade, ou caírem em algum problema, vocês devem pedir a ajuda Dele, e ele sempre irá ouvir e ajudar vocês.

(Narrative of Sojourner Truth, Sojourner Truth, 1850)

 

Vendida por 100 dólares dentre um rebanho de ovelhas

Aos 9 anos, com a morte do coronel, Isabella foi separada de seus pais vendida junto com um rebanho de ovelhas por 100 dólares em um leilão. Seu novo dono era John Neely, que ela descrevia como um homem cruel e duro, que a espancava.

Isabella foi vendida mais algumas vezes até chegar às mãos de John Dumont. Nos anos que trabalhou para ele, aprendeu a falar inglês, embora nunca tenha aprendido a escrever.

Por volta de 1815, se apaixonou por Robert, escravo de uma propriedade vizinha. Isabella engravidou de sua primeira filha, Diana. O dono de Robert, entretanto, proibiu que o relacionamento continuasse, visto que os filhos que ela gerasse seriam escravos de propriedade de Dumont, não sendo rentável financeiramente para ele. Robert e Isabella nunca mais se viram.

Isabella foi forçada a se casar com Thomas, escravo mais velho também de propriedade de Dumont, com quem teve um filho, Peter, e duas filhas, Elizabeth e Sophia.

Dumont prometeu que libertaria Isabella em alguns anos, mas chegando a data estipulada ele voltou atrás, alegando que sua produtividade estaria afetada por uma ferida na mão. Em 1826 – meses antes da abolição oficial da escravidão no estado de Nova Iorque – Isabella fugiu de Dumont com sua filha Sophia, visto que os mais velhos não teriam direitos garantidos pela lei em caso de fuga. Isabella conseguiu refúgio com Isaac e Maria Von Wageners, uma família Quaker. Durante sua estadia, Isabella se converteu ao cristianismo.

Enquanto vivia com os Von Wageners, descobriu que seu filho Peter havia sido vendido ilegalmente a um homem do Alabama. Isabella levou a questão ao tribunal e se torna a primeira mulher negra a levar – e vencer – um processo legal contra um homem branco, recuperando a guarda do filho.

 

De volta a Nova Iorque

Em 1829, retorna à Nova Iorque com Peter, que em breve desapareceria meses depois de se tornar marinheiro – um dos poucos trabalhos disponíveis para homens negros libertos na época.

Passa a trabalhar como empregada na casa da família de Elijah Pierson, evangelista cristão. Durante esse tempo, se envolve com diversas igrejas, negras e brancas, missões e organizações sociais como a Magdelene Society, organização Metodista que se dedicava ao auxílio de prostitutas. Isabella trabalhou como empregada doméstica em mais algumas casas, uma das únicas profissões disponíveis para mulheres negras libertas.

 

Kingdom of Matthias

Em 1832, conhece Robert Matthews, profeta que dizia ser o novo portador do espírito de Jesus. Isabella e entra para sua seita, a “Kingdom of Matthias”, que crescia muito na região. O profeta Matthias declarava ter recebido o espírito de Jesus e do Pai. Acreditava que sua lei era superior às leis humanas, por isso se envolvia em diversos escândalos sexuais e acabou preso anos depois.

Isabella era a única mulher negra do grupo religioso, no qual permaneceu por 2 ou 3 anos. Mesmo tendo um relacionamento próximo com os líderes, tendo vivido na mesma casa que eles, Isabella nunca foi permitida a pregar ou se expressar abertamente nas reuniões por ser uma mulher negra. Relatos contam que os líderes percebiam que ela sempre fazia julgamentos e observações para si mesma, que surpreendentemente para eles se mostravam quase sempre corretos.

Pouco depois de Isabella mudar de emprego, seu ex-chefe Pierson foi encontrado morto e o Profeta Matthias acusado pelo envenenamento, juntamente com Isabella. Os dois foram absolvidos por falta de provas. Matthias, entretanto, foi preso tempos depois por abuso sexual de sua filha e por jogar uma “maldição divina” no juri durante o julgamento do caso Pierson. Depois de ser liberto, o profeta se mudou para o oeste e Isabella nunca mais o viu.

Após abandonar a “Kingdom of Matthias”, Isabella estava convencida de que “nunca mais se deixaria ser iludida novamente”, de acordo com suas próprias palavras. Sua fé em confiança em Deus se mantinham vivas, embora não soubesse quem exatamente era esse Deus. Depois de 15 anos vivendo na cidade de Nova Iorque, já aos 46 anos, passou a perceber que aquela cidade era uma verdadeira Sodoma, onde “o rico rouba o pobre, e os pobre se roubam mutuamente”.

 

O Espírito me chama, e eu devo ir

Depois de várias tentativas de sobreviver na cidade e cumprir a missão para qual acreditava ter sido chamada, se sentia rejeitada pelos negros que tentava atingir com sua pregação do Evangelho. Foi então que decidiu se tornar uma pregadora itinerante.

Embora tenha tido algum contato com missões Metodistas, Isabella provavelmente se tornou uma missionária pentecostal e independente, sem ninguém que a garantisse o sustento financeiro, emocional ou espiritual além de Deus.

Foi em 1º de junho de 1843 que ela teve uma visão em que o Espírito Santo lhe dava um novo nome. “Sojourner”, peregrina, pois Deus tinha ordenado que ela viajasse, mostrando o pecado das pessoas e sendo um sinal entre elas. Ela pediu a Deus um segundo nome, pois todo mundo tinha dois nomes, e Ele lhe deu “Truth”, pois sua missão era pregar a verdade às pessoas. Até esse momento, entretanto, ela não parecia ter conscientemente o desejo de lutar contra a escravidão ou almejar ser a grande pregadora anti-abolicionista que se tornaria anos depois.

 

“Obrigado, Senhor, esse é um bom nome. Tu és meu último mestre, e Seu nome é Verdade.”

Durante suas viagens, Sojourner Truth se alimentava e dormia onde quer que lhe oferecessem abrigo. Surpreendentemente para ela, normalmente os mais pobres o faziam. Algumas vezes parava em igrejas e pregava, cantava e orava, quando lhe ofereciam a oportunidade.

Quando precisava ganhar algum dinheiro, permanecia na cidade por alguns dias para fazer trabalho doméstico. Não tinha medo de viver daquela maneira. Segundo seus relatos, fez verdadeiros amigos naquele tempo, com quem compartilhava da verdadeira comunhão do Espírito.

Truth não compactuava com todas as doutrinas e crenças dos evangélicos que encontrava pelo caminho. Em certo momento, encontrou cristãos que acreditavam que Deus em breve mandaria fogo dos céus para destruir a todos, pois estariam todos amaldiçoados. Ela os acalmou com a mensagem de que, uma vez salvos por Cristo, Deus os pouparia de qualquer maldição. Analfabeta, Sojourner Truth continuava agindo como em Kingdom of Matthias, questionando dentro de si as doutrinas que chegavam até ela.

 

Passagem pela Associação de Educação e Indústria em Northampton

Em 1844, conheceu a Associação de Educação e Indústria em Northampton, Massachusetts. Era uma comunidade de aproximadamente 210 pessoas, entre negros e brancos, que tinham ideais de liberdade para mulheres e negros. O grupo vivia em uma fazenda onde plantavam, mantinham um moinho, uma criação de bichos de seda e uma serraria.

Pela primeira vez Sojourner encontrou uma comunidade segura, onde as pessoas não eram supremacistas brancas e todos trabalhavam e eram pagos da mesma maneira, independente de raça ou gênero.

Foi lá que teve contato com abolicionistas famosos como William Lloyd Garrison e Frederick Douglass, e onde teve a primeira experiência de ser ouvida, e descobrir que sua voz era tão importante quanto todas as outras.

Quando a comunidade não podia mais se sustentar, Truth foi trabalhar como empregada doméstica para George Benson, cunhado de William Lloyd Garrison. Foi durante esse período que começou a ditar suas memórias para sua amiga Olive Gilbert, produzindo o livro “A Narrativa de Sojourner Truth, uma Escrava Nortista”. Conseguiu comprar uma casa e passou a discursar em convenções pelos direitos das mulheres e negros. Conheceu ativistas pelos direitos das mulheres como Elizabeth Cady Stanton and Susan B. Anthony.

 

“Não sou eu uma mulher?” – Ain’t I a Woman?

 

“Muito bem crianças, onde há muita algazarra alguma coisa está fora da ordem. Eu acho que com essa mistura de negros (negroes) do Sul e mulheres do Norte, todo mundo falando sobre direitos, o homem branco vai entrar na linha rapidinho.

Aqueles homens ali dizem que as mulheres precisam de ajuda para subir em carruagens, e devem ser carregadas para atravessar valas, e que merecem o melhor lugar onde quer que estejam. Ninguém jamais me ajudou a subir em carruagens, ou a saltar sobre poças de lama, e nunca me ofereceram melhor lugar algum! E não sou uma mulher? Olhem para mim? Olhem para meus braços! Eu arei e plantei, e juntei a colheita nos celeiros, e homem algum poderia estar à minha frente. E não sou uma mulher? Eu poderia trabalhar tanto e comer tanto quanto qualquer homem – desde que eu tivesse oportunidade para isso – e suportar o açoite também! E não sou uma mulher? Eu pari treze filhos e vi a maioria deles ser vendida para a escravidão, e quando eu clamei com a minha dor de mãe, ninguém a não ser Jesus me ouviu! E não sou uma mulher?

Daí eles falam dessa coisa na cabeça; como eles chamam isso… [alguém da audiência sussurra, “intelecto”). É isso querido. O que é que isso tem a ver com os direitos das mulheres e dos negros? Se o meu copo não tem mais que um quarto, e o seu está cheio, porque você me impediria de completar a minha medida?”

Seu discurso mais famoso “Ain’t I a Woman?”,  reproduzido acima, foi pronunciado na Convenção dos Direitos da Mulher de Akron, Ohio, em 1851. A convenção foi realizada entre clérigos para debaterem os direitos das mulheres, em especial o sufrágio feminino. Entretanto, a igreja onde ocorria o evento foi invadida por um grupo de zombeteiros que enfatizavam a supremacia masculina.

Sojourner Truth foi responsável por salvar a convenção, a única a conseguir responder os ataques agressivos e refutar os argumentos. Enfatizando com ironia a intersecção entre gênero, raça e classe, Truth derrubou a lógica de que a fraqueza feminina as impedia de serem dignas de voto.

As mulheres brancas presentes no evento, entretanto, temiam que ela trouxesse argumentos abolicionistas para o evento, que para muitas delas não eram tão importantes quanto a questão da mulher e do sufrágio feminino (branco). Segundo Angela Davis, “ao repetir sua pergunta, ‘Não sou eu uma mulher?’, nada mais do que quatro vezes, ela expunha o viés de classe e o racismo do novo movimento de mulheres”.

 

Teologia de Sojourner Truth

“Daí aquele homenzinho de preto ali disse que a mulher não pode ter os mesmos direitos que o homem porque Cristo não era mulher! De onde o seu Cristo veio? De onde o seu Cristo veio? De Deus e de uma mulher! O homem não teve nada a ver com isso.

Se a primeira mulher que Deus fez foi forte o bastante para virar o mundo de cabeça para baixo por sua própria conta, todas estas mulheres juntas aqui devem ser capazes de consertá-lo, colocando-o do jeito certo novamente. E agora que elas estão exigindo fazer isso, é melhor que os homens as deixem fazer o que elas querem.

Agradecida a vocês por me escutarem, e agora a velha Sojourner não tem mais nada a dizer.”

 

Como pregadora e teóloga – talvez não de formação, visto que mulheres negras eram proibidas de frequentarem seminários na época, mas de vivência e chamado – Sojourner foi capaz de destruir os argumentos teológicos e leituras bíblicas machistas e heréticas que justificariam a inferioridade das mulheres. Ela resgata duas personagens bíblicas importantes e sugere uma nova leitura sobre suas histórias. Maria, mãe do Salvador, e Eva, culpabilizada pela entrada do pecado no mundo. Mais do que isso, Sojourner Truth conclama todas as mulheres a consertarem o mundo, proclamando a justiça colocando-o do jeito certo novamente.

 

O impacto de sua pregação

Sua primeira premissa “Não sou eu uma mulher?” se tornou um lema famoso em grupos feministas negros até os dias de hoje. Mulheres negras de destaque como Alice Walker, Oprah Winfrey, Kerry Washington e Maya Angelou abençoaram o mundo com suas interpretações do discurso. Angela Davis dedica parte do seu livro “Mulheres, raça e classe” em explicar a importância desse discuso para contexto da época e a intelectual bell hooks escreveu um livro “Ain’t I a woman?” com título em sua homenagem.

Sojourner continuou discursando por muitos anos sobre temas como a abolição da escravatura, direitos das mulheres, sufrágio universal e reforma prisional. Durante a Guerra Civil, ajudou a recrutar soldados negros para a luta a favor da abolição. Em uma ocasião, foi recebida pelo presidente Abraham Lincoln para compartilhar suas convicções, no que ela considerou “cordiais 15 minutos”.

Sojourner Truth faleceu em 26 de novembro de 1883, em sua casa em Battle Creek, Michigan. Foi enterrada ao lado de sua família na mesma cidade.

O legado de Sojourner Truth

A história de Sojourner Truth nos mostra a violência da escravidão e de seu legado racista. Revela o quanto as instituições religiosas incorporaram discursos machistas e racistas durante anos que causaram apenas prejuízos para o Reino de Deus e para a sociedade.

Mas sua experiência cristã revela um Cristo que ouve o choro e a argumentação de quem não é ouvida, que se relaciona com nossas dores e é incapaz de compactuar com a violência e opressão de seus filhos e filhas. Um Deus que muda nomes e histórias, que sustenta mesmo quando as instituições falhem.

Que a história dessa heroína da fé ecoe em nossos corações.

 

Referências:

TRUTH, Sojourner. Narrative of Sojourner Truth. 1850. Disponível em: <http://digital.library.upenn.edu/women/truth/1850/1850.html>.

MABEE, Carleton; NEWHOUSE, Susan M. Sojourner Truth: Slave, Prophet, Legend. 1993.

DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016.

Entrevista com Nell Irvin Painter, autora de “Sojourner Truth: a Life, a Symbol”. Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=ZaAQDyUmbJo&t=48s>. Acesso em 20 de fevereiro de 2018.

Sojourner Truth. Geledés, Instituto da Mulher negra. Disponível em: <https://www.geledes.org.br/sojourner-truth/>. Acesso em 20 de fevereiro de 2018.

Sojourner Truth Biography. Biography.com website. Disponível em: <https://www.biography.com/people/sojourner-truth-9511284> Acesso em 20 de fevereiro de 2018.

Sojourner Truth. FemBio. Disponível em: <http://www.fembio.org/english/biography.php/woman/biography/sojourner-truth/>. Acesso em 20 de fevereiro de 2018.


Luciana Petersen é estudante de Comunicação Social – Jornalismo na UFSJ. É cristã, feminista negra, já pensou ser de exatas e agora é de confusas.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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