A SOLIDÃO DA MULHER NEGRA EXISTE

De todas as coisas que se colocam no caminho da superação de toda a problemática racista que enfrentamos no Brasil, nada é tão eficiente em nos impedir de avançar quanto a nossa frequente tendência em deixar de reconhecer nossos problemas sociais. Histórica e sistematicamente a sociedade tem ignorado todas as mazelas a que o povo negro é submetido diariamente, fechando os olhos para elas e passando de largo a cada uma, seguindo exatamente o comportamento que Jesus criticou na parábola do samaritano (Lc 10:30-37).

Dentre todas as violências decorrentes do racismo – que não são poucas – a solidão da mulher negra talvez seja uma das mais graves e também uma das mais negadas, mais negligenciadas. Na igreja, em que qualquer problema racial é raramente discutido, o assunto é praticamente inexistente. Não por falta de mulheres sofrendo com esse problema em ambientes eclesiásticos, porque não é pequeno o número de mulheres negras compondo o corpo de membros das igrejas evangélicas brasileiras.

Eu gostaria muito de pensar que um problema tão grave e que afeta de maneira tão significativa a afetividade e saúde psicológica da mulher negra poderia ser superado milagrosamente sem que se fizesse necessário o debate e o reconhecimento de que ele é um problema real, mas sabemos que essa solução não é efetiva.

e a solidão da mulher negra existe.

A solidão da mulher negra existe desde que dos braços negros das pretas escravizadas foram tirados seus filhos para serem vendidos como força de trabalho. Desde que seus parceiros foram vendidos a outros senhores, impedindo que a afetividade entre pretos pudesse acontecer. Desde que seus corpos foram violados por homens que faziam do estupro uma ferramenta de dominação e opressão sobre elas. Às nossas ancestrais foi negada a possibilidade de construir laços familiares e afetivos e essa é uma ferida que tentamos curar até os dias de hoje.

porque a solidão da mulher negra existe.

A solidão da mulher negra existe quando desde cedo, em nossa experiência escolar, sentimos o peso do preterimento e da rejeição nas primeiras nuances de escolhas afetivas que vivenciamos. É sintomático que tantas meninas negras tenham passado pela experiência de ver suas amigas não negras escolhendo entre uma gama de pretendentes, enquanto esperavam que “a sua hora chegasse”.

Para algumas de nós, a adolescência se resumiu em torcer pelos rolinhos dessas amigas, aprender com os erros que cometiam, para que quando acontecesse de porventura sermos escolhidas, pudéssemos nos certificar que estávamos preparadas para “fazer dar certo”. Eu me lembro que aos dezoito anos, ao me deparar com a possibilidade de não ter despertado o interesse de um rapaz que eu já havia calculado e racionalizado que poderia estar interessado em mim, o pensamento que me ocorreu foi: “se ele não gostar de mim, quem vai?”. Eu não entendia nada sobre preterimento à época, mas internamente eu tinha certeza que seria muito difícil encontrar alguém que estivesse de fato disposto a se relacionar comigo.

E já que eu estou falando de mim, acho importante agora pedir licença para fazer um recorte no tema sobre o colorismo. Minha experiência foi marcada por preterimentos, mas sendo uma negra de pele clara o racismo que me atinge difere do racismo que atinge as mulheres pretas de pele escura. A mim sempre foi reservado o lugar de mulher fora do padrão, embora aceita em algum nível. A frase que eu mais ouvi ao longo da vida foi: “você é bonita, mas não é o meu tipo”. Para as mulheres de pele escura, o preterimento se apresenta muitas vezes de forma ainda mais violenta e menos “sutil”. A hiperssexualização e objetificação muitas vezes é maior, e não é incomum ver mulheres com essa característica passando por relacionamentos além do limite do abusivo, com homens que se limitam a querer apenas os seus corpos, sem o real interesse em serem vistos com essas mulheres, firmar compromissos, formar família.

é real, a solidão da mulher negra existe

A solidão da mulher negra existe quando muitos dos nossos homens, filhos e parceiros são mortos ou encarcerados ainda na juventude, sendo o genocídio da nossa população uma das faces mais cruéis do racismo que sofremos.

Dois de novembro era finados

Eu parei em frente ao São Luís do outro lado

E durante uma meia hora olhei um por um

Vi o que todas as senhoras tinham em comum

A roupa humilde, a pele escura

O rosto abatido pela vida dura

Colocando flores sobre a sepultura

Podia ser a minha mãe – que loucura!

(Fórmula Mágica da Paz, Racionais MC’s)

O rap acima citado foi em escrito em 1997. Infelizmente a realidade descrita por Mano Brown ainda se repete nos dias de hoje.

a solidão da mulher negra existe.

A solidão da mulher negra existe e deve ser debatida e superada. O quanto antes percebermos que o contexto em que vivemos implica em muitas mulheres sendo submetidas a traumas tão fortes, relações afetivas tão tóxicas, condições de afetividade tão cruéis, estaremos mais próximos de restaurar a autoestima e a condição de existência emocional da mulher negra.

Não existe solução simples, como geralmente é o caso de quase todos os problemas que nos afetam. São estruturais e demandam uma mudança social ampla e uma restauração de consciência coletiva. Eu oro para que o Deus da Bíblia, o mesmo que enviou por meio de um anjo uma mensagem à solitária Hagar, uma mulher africana que como muitas de nós carregava um histórico de rejeições e solidão; o mesmo Deus que a chamou pelo seu nome, não olhando apenas a sua condição de mulher escravizada; o mesmo que entendeu as suas dores, demonstrou cuidado e ofereceu palavras de conforto e suporte para aquela mulher, estabelecendo inclusive um compromisso de cuidado com a sua descendência, que esse Deus esteja sobre o coração de cada mulher negra.

Que Ele seja o restaurador das suas emoções, o guardador de seus afetos, o curador do mal social de que elas são vítimas. De todos os aspectos presentes na personalidade divina e que eu pude observar ao longo da minha vida, nenhum me emociona mais do que perceber que Ele se importa. Deus se importa conosco, sente nossas dores, se importa com os “pequeninos” e escolhe sempre estar ao lado daqueles que mais precisam de cuidado. Eu sei que Ele ouve a minha oração e a de tantas outras outras que se colocam de joelhos nos templos. Eu sei que Ele é por nós. Amém.


Isadora Nascimento, contadora não apaixonada por números, cristã protestante, amante de livros, séries, comida e uma boa conversa.

  • Jessica Nayara

    Contemplada!
    Obrigada Isa pela palavras que denunciam uma condição real e pela fé naquEle que se importa cuida de nós!