FAQ

Nós achamos que o Projeto Redomas é fácil de entender: reunimos mulheres que querem expor suas vivências dentro dos espaços cristãos para fazer o mundo pensar que algumas práticas estão recheadas de violência. Algumas dessas minas escrevem, desenham, fotografam para empoderar* outras mulheres. Por mais simples que seja, ainda existe muita dúvida, confusão, silenciamento e tentativa de imprimir vitimização, seja nos relatos ou nos textos. O mundo não é um bloco monolítico, o Projeto Redomas também não, então esse FAQ (frequently asked questions, perguntas frequentes) serve pra você dar uma olhada nas questões que mais ouvimos por aí e, se ainda restar alguma dúvida, pensar e pesquisar um pouco mais.

*empoderar:  Quanto ao verbo inglês to empower (cuja adaptação dá origem ao verbo empoderar), para além dos sentidos de “autorizar” e de “proporcionar”, ele também significa “promover a afirmação ou a influência”, segundo o dicionário inglês Merriam-Webster Online. O empoderamento de mulheres, é o processo da conquista da autonomia, da auto-determinação. Para saber mais leia o artigo: clique

1) O que é o Projeto Redomas?

O Projeto Redomas é uma iniciativa de mulheres cristãs protestantes, em sua maioria universitárias, de várias regiões do país, que tem como fundamento dar voz e visibilidade às mulheres. Queremos empoderar mulheres cristãs. Para isso, escrevemos, desenhamos, fotografamos, realizamos estudos e oficinas nos espaços virtuais e em comunidades, além de participar de atividades em parceria. A divulgação é feita na página do Facebook e em nosso site. O tema central do projeto é mostrar que, em muitos espaços cristãos, para além do discurso do amor ao próximo (e à próxima?), existe machismo, sim.

2) Como está estruturado o projeto?

O projeto está estruturado em três momentos: i) Divulgação de relatos anônimos de mulheres que passaram por vivências machistas nos espaços cristãos e toparam compartilhar essas histórias para gerar discussão. Esse movimento não é novo e tem tomado força a partir das redes sociais. Acreditamos que projetos como o Redomas servem como uma ferramenta agregadora em lutas específicas e como ponto de partida, não só para discussão, mas também como algo que pode te aproximar de ideias que mudem a forma de ver o mundo, além de te fazer pesquisar, se aprofundar e estudar mais. Para rever os discursos que ouvimos e reproduzimos sem pensar. ii) O segundo momento do Redomas é juntar um grupo de mulheres para escrever sobre as questões que circulam o tema “direito de mulheres”: machismo, violência, gordofobia, racismo, gaslaistear, entre outros. Os textos servem para empoderar, gerar reflexão pessoal e tem sido utilizados presencialmente para discussão em grupo. iii) O terceiro momento do Redomas é o mais prático. Somos pioneiras e estamos produzindo materiais, além de participar e promover rodas de conversas, oficinas e debates em universidades e comunidades cristãs.

3) Qual o fundamento dos relatos? Por que essas meninas que dizem ter sofrido machismo não fizeram como está escrito em Mateus 18.15-17 (“Se o seu irmão pecar contra você, vá e mostre-lhe o seu erro. Mas faça isso em particular, só entre vocês dois. Se essa pessoa ouvir o seu conselho, então você ganhou de volta o seu irmão. Mas se não ouvir, leve com você uma ou duas pessoas, para fazer o que mandam as Escrituras Sagradas. Elas dizem: Qualquer acusação precisa ser confirmada pela palavra de pelo menos duas testemunhas. Mas se a pessoa que pecou não ouvir essas pessoas, então conte tudo à igreja. E, se ela não ouvir a igreja, trate-a como um pagão ou como um cobrador de impostos”)? 

Em Mateus, no trecho mencionado, fala que se não resolver quando tratado pessoalmente, não tratado quando com mais dois é pra levar à igreja (a igreja invisível também é igreja), e se também não resolver, é pra tratar como um descrente. Começando do zero. Ensinando da necessidade do arrependimento e oferecendo o amor de Deus. É o que tá sendo feito. Não é um mal isolado, é um mal que tá instaurado na sociedade e na comunidade cristã de modo geral e estruturado, então deve ser tratado assim. O texto mencionado continua falando que tudo o que dizemos uns para os outros é eterno. Que um sim na terra é um sim no céu, um não na terra é um não no céu. Nossa oração é que SIM, as mulheres devem ser ouvidas sobre suas dores e que o machismo e sexismo que existe em nossa sociedade SIM deve acabar. “Quando dois ou três de vocês concordam com algo e oram por isso, meu Pai que está no céu entra em ação. E, quando dois ou três de vocês se reunirem por minha causa, não tenham dúvidas de que estarei ali.” Temos plena convicção que Jesus está conosco, que estamos cumprindo o mandamento dele de amor ao próximo e cuidado e que ele já está ouvindo nossas orações. Já estamos vendo frutos do Projeto Redomas, pela graça de Deus. Assim como as/os profetas falaram e gritaram em público nas cidades sobre seus pecados e que precisavam de arrependimento e precisavam se voltar para Deus, nós estamos fazendo. E estamos fazendo em amor, porque acreditamos no poder transformador do amor de Deus e do Espírito Santo. Não estamos apontando o dedo na cara de ninguém, se fosse assim colocaríamos os nomes, estamos apontando o dedo na cara do pecado e mostrando o que deve ser examinado. Os textos que já começaram a ser lançados fazem exortações que são para todos, homens e mulheres. Vamos ouvir os que sofrem e o que Deus tem a dizer sobre isso.

4) O Redomas é um projeto feminista? As minas que escrevem são feministas?

O feminismo é um movimento político multifacetado e variado. O Redomas é construído por um conjunto de organizadoras e colaboradoras que também é múltiplo. Todas as organizadoras do projeto se autodeclaram feministas, cada uma participando de um espectro desse tal feminismo. As colaboradoras também tem essa multiplicidade e algumas são feministas e outras não. A carteirinha do feminismo não é exigida para participar e apoiar o Redomas. Você só precisa acreditar que mulher é gente. Sempre preste atenção nas descrições das autoras que estão no final de cada texto.

5) O Redomas recebe financiamento de alguém?

Não. Tanto as pessoas da equipe quanto as colaboradoras participam de forma voluntária. Mas estamos abertas a pensar em participar de projetos e captar recursos para a produção de materiais. Para isso, investimentos são bem vindos.

6) Esse projeto tem fundamento bíblico?

Sim. Acreditamos que pensar que mulheres são gente, dar voz e visibilidade a elas, lutar contra a violência e promover discussões para que haja mudança no mundo e lutar contra injustiças são atitudes obrigatórias de pessoas cristãs e tem fundamento bíblico. Procure em sua Bíblia ou releia os evangelhos com foco nos discursos de Jesus. Um drops: “Erga a voz em favor das que não podem defender-se, seja a defensora de todas as desamparadas.” (Provérbios 31, 8).

7) A ABUB e as outras instituições parceiras são feministas por apoiarem o Redomas?

Não, a ABUB não é feminista. Aquilo que a ABUB é está bem definido em sua visão e missão, bem como em suas bases de fé (conferir em abub.org.br). Como todo movimento diverso, temos estudantes diferentes participando das muitas instâncias, regiões e núcleos e uma fluidez padrão. Existem estudantes feministas e pró-feministas participando da ABUB? Sim. Isso é um problema para a ABUB? Nós, do Redomas achamos que não, porque essas e esses estudantes crêem em Jesus e entendem sua missão na universidade. Ainda assim, ao final de cada texto do site, você pode ler o seguinte aviso, que deveria ser autoexplicativo: “O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.”. As outras instituições parceiras (Rede Fale e Portal Exclusiva) não são feministas, mas isso não impede que as pessoas que participam delas sejam.

8) As denúncias de fatos ocorridos dentro de espaços da ABUB não faz com que as pessoas achem que a Aliança Bíblica Universitária do Brasil é um espaço machista e venham a se afastar?

Sabemos que é muito difícil fazer autocrítica. Os textos das nossas colaboradoras tem mostrado que viver é um processo de desconstrução. Quase todas as meninas que estão participando do Redomas e são abeuenses admitiram que já pensaram diferente ou já reproduziram um discurso que hoje não apoiam mais, e muitas vezes dentro das igrejas ou em espaços cristãos. Acreditamos que, se alguém resolver se afastar da Aliança Bíblica Universitária porque um grupo de mulheres resolveu liderar uma campanha que valoriza e empodera outras mulheres, ou achar que isso “queima a ABUB” essa pessoa precisa repensar se ela está interessada naquilo que é o fundamento da missão: o amor a Jesus e seu evangelho, além de questionar se ela entendeu que ABUB é um movimento heterogêneo e que nunca todas as pessoas estarão de acordo com tudo o que for feito no movimento.

9) Apenas por ter nascido homem eu já sou machista e agressor de mulheres?

Acreditamos que os homens estão inscritos em um mundo em que o padrão normativo é o masculino heterossexual branco. Todos os discursos que ouvimos a vida inteira tentam encaixar as pessoas neste padrão ou o utiliza como referência para dizer às mulheres o que elas são e como devem agir. Nossa sociedade, estruturada dessa forma, faz com que os discursos machistas circulem tão “naturalmente” que crescemos pensando que sim, algumas atitudes estão corretas e são imutáveis. Por causa disso os homens são privilegiados. O Redomas nasceu para mostrar que alguns comportamentos machistas devem ser percebidos e nomeados como tal para serem eliminados de nossas práticas como pessoas cristãs. Além das atitudes racistas, homofóbicas e de outros tipos de violência. Você não é um agressor de mulheres apenas por ser homem ou ter nascido homem, mas inscrito nesse discurso, deve ouvir mulheres quando elas dizem que a piadinha, a fala e o tratamento são sim uma agressão. Que tal refletir, pedir desculpas, mudar e incentivar outros homens e fazer o mesmo?

10) Os textos do Redomas não deveriam todos ter um fundamento bíblico?

Não. Apesar de todas as autoras serem cristãs protestantes, sabemos que muitas das coisas que propomos para pensar extrapolam nossa bolha de fé. As autoras tem autonomia para escrever e optam por inserir discussões com fundamentos bíblicos ou não. Temos uma equipe de editoria que revisa os textos e elimina a oralidade, mas não interferimos nem censuramos as autoras. Acreditamos na integralidade do evangelho e sabemos que ele é central em nossos textos, práticas e vivências de fé, sem estar explícito ou sem referenciar diretamente uma passagem bíblica. Temos uma seção chamada EBIs (Estudos Bíblicos Indutivos) em que são propostos estudos bíblicos sobre essa temática e neles é possível encontrar mais material pra quem quer fundamento bíblico. Recomendamos também pesquisar um pouco sobre teologia da libertação, teologia da missão integral e teologia feminista.

11) Gosto do Redomas mas não concordo com algumas coisas que estão escritas, o que faço?

O que há de melhor em discordar de coisas que são diferentes daquilo que você acredita é que isso te incentiva a pensar no que você defende, a ouvir outras pessoas e a dialogar. Se você discorda de algo, pense e converse conosco ou com as autoras. Sem agressões ou ironias. Junte seus iguais e monte seus projetos também, estejam juntas por alguma causa. Criem.

12) Se eu ainda tiver dúvidas, com quem eu falo?

Com a Paloma, com a Bianca, com a Amanda, com a Luciana Santos ou com a Luciana Petersen. Use o formulário de contato ou o email.

13) Ser feminista ou discutir sobre gênero e feminismos vai me levar pro inferno?

Miga, não. Foca em Jesus

14) Mas o foco não devia ser evangelismo? Por que as meninas estão buscando o próprio bem estar?

Vamos relembrar um encontro que Jesus teve com uma mulher. Está em João 4 (recomendamos que leia o capítulo inteiro): “Então Jesus afirmou: pois eu, que estou falando com você [com a mulher samaritana], sou o Messias. Naquele momento chegaram os seus discípulos e ficaram admirados, pois ele estava conversando com uma mulher. Mas nenhum deles perguntou à mulher o que ela queria. E também não perguntaram a Jesus por que motivo ele estava falando com ela” (versículos 26 e 27). Antes desse momento, Jesus e uma mulher sem nome tiveram um diálogo denso, cheio de perguntas, que mexeu não só com a vida mas também com as certezas que ela tinha. O que acontece depois é surpreendente: ela é a pessoa responsável por propagar a mensagem de Jesus: “Muitos samaritanos daquela cidade creram em Jesus porque a mulher tinha dito: ‘Ele me disse tudo o que eu tenho feito’”. O Projeto Redomas seria egoísta e autocentrado se cada menina gastasse seu tempo pensando, criando e escrevendo só pra se autoafirmar ou por seu próprio bem estar. Um dia em nossas vidas ouvimos o chamado de Jesus nos oferecendo a água da vida. Ele desafiou nossa intelectualidade, fez perguntas questionadoras, nos mandou abandonar certezas. O que temos que fazer? Divulgar essa mensagem pra outras mulheres e pro mundo todo. Falar por outras mulheres é evangelizar, demonstrar empatia é evangelizar, denunciar injustiças é evangelizar, ouvir uma irmã é evangelizar. Em nome dEle, que falava, curava e mudava a vida de mulheres.

15) Pode chupar cajá?

SIM, é delícia. Mas somos contra qualquer gourmetização que venha a ser aplicada sobre o cajá.