2 anos de Projeto Redomas

“minha ciranda não é minha só

ela é de todas nós

a melodia principal

quem guia é A Primeira Voz

pra se dançar ciranda

juntamos mão com mão

formando uma roda

cantando uma canção”

[lia de itamaracá, cirandeira pernambucana]

 

 

a roda é uma composição feminina: dos feitiços, das conversas, da ciranda. para dançar ciranda é preciso ser um coletivo que se junta pelas mãos, que se organiza compassando os pés ao som de um ritmo e de voz. não é necessária nenhuma técnica porque é dança que se aprende junto, pisando forte como uma pulsação. a voz que guia a ciranda é feminina e a roda comunitária não exclui ninguém, não é exclusiva dos pares. se a ciranda fica grande demais, é mais difícil dançar, então uma roda menor se forma por dentro e o ritmo recomeça. todas se olham e sorriem, a pulsação continua, os braços se levantam. não há limite para a dança, você pode entrar e sair quando quiser. a roda da ciranda é liberdade.

o redomas é um projeto dançante.

nossa ciranda começou pequena e hoje já é um coletivo de vozes promovendo discursos de igualdade para as mulheres, dentro e fora das instituições religiosas. começamos sendo uma voz de denúncia, ao mesmo tempo que nos empenhamos em ouvir e replicar histórias de mulheres que pareciam estar presas em estruturas que as faziam calar. nos sensibilizamos e utilizamos a história dessas mulheres como motivação para promover ações que transformou o redomas em uma grande roda.

hoje temos orgulho de dizer que, nesses dois anos, o projeto dançou ao som de dezenas de textos produzidos por mulheres que escreveram sobre sua existência como mulher e seu exercício de fé, sua relação com o divino. temos um compilado de estudos bíblicos sobre aquelas que nunca são acessadas nos púlpitos (e até em nossas próprias bíblias), produzimos um podcast que é um espaço seguro para discutir, debater e compartilhar conhecimento a partir de um ponto de vista feminino e que promova igualdade, temos semanas temáticas que incomodam porque tocam em feridas que antes eram escondidas. paulatinamente, o projeto redomas foi enegrecendo e inserindo nas discussões aquelas que são consideradas menos mulheres que as outras – as negras – e assumiu o compromisso de expandir as discussões para lutar contra o racismo. com arte, o redomas poetiza a denúncia, promove arte-política, estabelece uma metodologia que é referência. nestes últimos anos, além do ativismo virtual, o projeto tem participado de eventos presenciais, palestras, oficinas e pautado debates para aproximar outras mulheres da roda.

quando mulheres se juntam para dançar é assim. são dois anos de projeto redomas e queremos agradecer a cada pessoa que acredita no projeto, que contribui, que divulga, que ora, que colabora, que doa seu tempo, seus textos, seu dinheiro, que se motiva a falar e dar voz para outras mulheres.

 

nós da equipe do projeto redomas tivemos nossa visão de mundo, nossas vidas e das nossas famílias modificadas completamente nos últimos dois anos. e isso só foi possível porque, numa conformação em roda, podemos ouvir e ver outras mulheres, compartilhar suas histórias e nos enxergar nelas, dançando juntas na ciranda. só assim nos aproximamos cada dia mais da igualdade promovida por jesus.

 

queremos seguir dançando por muito tempo ainda, pois a ciranda sempre foi para todas e quem guia o ritmo é a Primeira Voz.

PELOS FRUTOS CONHECEREIS | ENTREVISTA COM PRA. SILVA NOGUEIRA | PARTE 2

Entrevista: Luciana Petersen

Finalizando a campanha #Eklesia, tive o prazer de conversar com a pastora Silvia Nogueira, oficialmente a primeira pastora da Convenção Batista Brasileira.

Nessa entrevista, que dividiremos em duas partes, ela nos conta mais sobre o reconhecimento comunitário de sua vocação, reações institucionais contra sua ordenação, as alegrias e lutas do ministério pastoral exercido por mulheres.

Mais do que uma entrevista, me senti imensamente pastoreada e acolhida pelas palavras da pastora. Como filha de pastor batista, foi muito significativo conhecer pela primeira vez uma mulher que ocupa um espaço que desde pequena me disseram ser exclusivamente masculino.

Agradeço pastora Silvia pela conversa e principalmente pelos caminhos desbravados, para que hoje tantas mulheres consigam dar um nome à sua vocação pastoral e abençoar a Igreja com tais dons dados por Deus.

LEIA A PARTE 1 DESSA ENTREVISTA CLICANDO AQUI

 

Continuação da entrevista

É uma espécie de esquizofrenia discursiva que a gente tem, sobretudo entre os batistas, em que a presença e liderança feminina é tão forte com a vida das missionárias, com as mulheres líderes da União Feminina… São figuras fortíssimas na vida das igrejas locais e da denominação. Ainda assim, a gente tem um duplo discurso, meio esquizofrênico. Valorizamos muito a vida das missionárias – pelo menos discursivamente, não tanto financeiramente – admiramos e tudo mais, mas existe um limite dessa atuação de liderança feminina que é suportável para essas pessoas. Na minha opinião são pessoas que ainda precisam se converter, nessas questões em particular. Em geral quando elas são machistas elas são também racistas, esses ódios caminham juntos. Não aceitam a figura de alguém que eles consideram inferior estar acima deles, mesmo que simbolicamente. Então a figura de uma pastora é abominável, a figura de um negro em posição de liderança é abominável.

Enfim, uma foi a reação desse tipo de gente e a outra foi a reação das lideranças institucionais. A parte mais difícil de lidar foi, sem dúvida nenhuma, com as reações violentas dessa galera. Mas a parte com maior peso e consequências sobre a minha vida e a vida da igreja foi obviamente a reação das lideranças institucionais. Estou falando da Convenção Batista do Estado de São Paulo, a Associação Batista do Ferreira – que regionalmente era onde a igreja estava, bairros da periferia da Zona Sul de São Paulo – e da reação da Ordem dos Pastores de São Paulo.

Quando saiu a publicação do Concílio, elas começaram a mandar cartas. Sobretudo a  Associação Batista do Ferreira, uma das primeiras cartas repudiando a convocação do meu Concílio. Depois recebemos carta da Convenção Batista do Estado de SP com o mesmo conteúdo, depois recebemos carta da Ordem dos Pastores da secção regional também com o mesmo conteúdo, depois recebemos carta da Ordem dos Pastores do Estado de SP com o mesmo conteúdo. Até porque, se eu não me engano, o mesmo que era presidente da Convenção de SP era presidente da Ordem de SP, o pastor José Vieira Rocha. Então o teor era de repúdio e obviamente ameaça de desligamento da igreja das instâncias denominacionais. Mas em nenhum momento no conteúdo geral dessas cartas havia a explicitação clara do motivo do desligamento. Até porque quando a igreja foi de fato desligada da CBESP, se você ler a ata pública, que saiu inclusive no Jornal Batista do Estado de SP, você não vê o motivo do desligamento de forma clara. Claro que isso foi um cuidado que eles tiveram para evitar uma série de outras possibilidades. A gente não faria nenhum apelo judicial, mas eles ficaram preocupados com isso e, portanto, evitaram ser claros exatamente.

Seja como foi, a gente sofreu bastante pressão, de gente ligando para membros da igreja dizendo que perderíamos o templo da igreja; pressão sobre o pastor Antônio Carlos, que estava deixando a igreja mas estava acompanhando todo o processo até o final. Quando houve o concílio, tivemos em torno de 200 pastores, o pastor Vieira Rocha, os representantes da Ordem dos Pastores de SP foram até a igreja no dia, na tentativa de evitar a realização do concílio. Além das cartas, o gesto negativo em relação à minha ordenação aconteceu também com a ida desse grupo expressivo de pastores, capitaniados pelo pastor Vieira Rocha, para impedir que a igreja realizasse o concílio.

Fizemos então uma consulta com os pastores presentes, porque nesse grupo tinham pastores do interior de SP, da capital e um ou outro pastor de fora do estado de SP. No calor das discussões que foram seguindo, a gente precisou fazer uma consulta entre os presentes para ver quem estava ali para atender a convocação da igreja. A resposta foi que apenas 17 pastores estavam ali dispostos a fazer o meu exame.

Diante disso, o pastor Antônio Carlos solicitou a retirada dos outros pastores do templo da igreja e pediu aos 17 que tinham disposição em fazer o concílio permanecessem – é importante dizer que esses 17 pastores não eram necessariamente favoráveis. Mais tarde os pastores que saíram alegaram que a igreja “violou” o acordo que havia feito com os pastores presentes de não realizar o concílio. Não é bem assim, na verdade a consulta foi para perguntar, já que eles eram convidados à realização do concílio, quem estava disposto a fazer isso.

Ainda naquele dia, fui examinada por esse concílio. O presidente era um pastor da igreja da Pompéia. Fui examinada e aprovada por unanimidade por esse concílio. No 10 de julho recebi, então, a consagração e tomei posse como pastora titular da igreja. Na semana seguinte, a igreja foi desligada da Associação Batista do Ferreira, o motivo não foi muito claro, mas de que a igreja estava em desvio doutrinário. Na sequência, fomos desligados da Convenção Batista de São Paulo.

A gente acreditou que ali terminavam os impasses, mas é claro que não [risos]. Como foi tudo muito público – porque tem muitas pastoras vivem em comunidades fora de holofotes, quietinhas e esses impactos não são muitos visíveis – mas como nosso caso tinha ganhado repercussão nacional, sobretudo em São Paulo, os anos do meu ministério lá foram muito difíceis. Foi extremamente difícil por conta das reações externas, das lideranças institucionais e, por ser uma igreja relativamente antiga com membros ativos a nível denominacional, eles também eram muito assediados e questionados sobre minha presença lá. Foi muito desgastante para a vida da igreja, que na minha opinião é uma das igrejas mais corajosas e queridas que alguém poderia desejar participar, mas que foi uma igreja que sofreu bastante, assim como eu, as pressões do dia a dia e tensões externas.

A gente achou que tinha terminado ali, mas – porque o mal não dorme – na sequência eu recebi um telegrama da Convenção Batista Brasileira, que tem sede no Rio de Janeiro, dizendo que haveria uma reunião do Conselho e o assunto dessa reunião era o desligamento da Primeira Igreja Batista do Campo Limpo do rol das igrejas da Convenção Batista Brasileira. Na mesma hora eu liguei para a CBB, na época o presidente da Convenção era o pastor Fausto Vasconcelos, da PIB do Rio de Janeiro. Falei com a secretária dele, a Heliete, para confirmar as informações, e ela confirmou que haveria a reunião 4 dias depois da chegada do telegrama e de fato o assunto era o desligamento da igreja de Campo Limpo.

Não tenho nada contra o pastor Fausto, mas a gente tem um certo ranço de lidar com determinadas situações. Ele não me conhecia, nem eu o conhecia, só de nome. Ele não estava debruçado na questão com a voracidade que eu estava, porque eu era parte mais fraca do negócio. Eu estava indo pra cima na nossa conversa como alguém que exige direitos e justiça.

Nossa conversa não foi desrespeitosa em nenhum momento, mas foi uma conversa firme. Ele percebeu a firmeza naquilo que eu estava pedindo: se o assunto é o julgamento da Igreja de Campo Limpo, então que fosse dada a oportunidade à igreja de dizer o que aconteceu, ser questionada, que não fosse uma decisão sumária de exclusão sem ouvir a igreja. De tanto insistir, ele falou que levaria minha solicitação a seus pares e depois me telefonou dizendo que haveria uma comissão, composta pelo relator, que eu não me recordo o nome mas era do Seminário do Sul, juntamente com o presidente da Ordem dos Pastores Batistas do Brasil e a Marlene, representante da União Feminina. Marcaram o dia da visita dessa comissão à igreja e a reunião do conselho para desligamento foi suspensa.

Eu tinha a compreensão de que era importante guardar o máximo que pudesse de registro dessa história. Então eu fiz um dossiê de todo o processo, desde as primeiras cartas oficiais que fomos recebendo, nossas respostas e tudo mais, fiz uma pasta bastante grossa.

Quando foi umas 18h eles chegaram na igreja. Mas eu não estava sozinha na igreja. Como eu já tinha colocado essa conversa para a liderança e depois para a igreja, no dia que foi marcada a visita a igreja estava em peso lá. Eles levaram um susto quando viram isso, acharam excessivo inclusive. Mas você que ouviu a história sabe que faz sentido que a igreja, que tomou essa decisão corajosa, estivesse presente em todos os momentos em que isso fosse questionado.

Da comissão estavam o relator e uma outra irmã da União Feminina, que ficaram para ouvir a igreja. Então eles foram fazendo as perguntas, eu fui respondendo – com a minha pastinha escondidinha lá do lado – até que em um belo momento o relator fez a seguinte pergunta: “Se foi isso tudo (nós já ouvimos a Convenção de São Paulo), por que vocês estão tão preocupados com o desligamento da igreja?”. Aí eu abri a pasta e mostrei pra ele: “Porque nós recebemos um telegrama dizendo que a igreja seria desligada”, e mostrei o telegrama. Quando viu o telegrama, ele disse: “Então não tenho mais perguntas”.

Então eles saíram e ficaram de dar o relatório dessa conversa na Assembleia da CBB em Manaus, em janeiro de 2000. Fui a Manaus com mais quatro irmãos da igreja, chegando lá procurei o pastor Fausto, me apresentei e perguntei qual tinha sido o resultado do relatório, se a gente precisaria se pronunciar na assembleia para alguma coisa. E aí foi interessante que ele respondeu: “Não se preocupa não, tá tudo certo!”. Aí eu fui até o pastor que era relator da comissão e ele disse a mesma coisa. O relatório passou e a igreja permaneceu arrolada à Convenção Batista Brasileira, como é até hoje. É uma igreja que acabou fazendo que a própria Convenção reiterasse a autonomia da igreja.

E aí, ficamos. A igreja hoje é uma igreja que de vez em quando tenho notícias. Infelizmente não pude ficar muito tempo com eles porque adoeci. Dificilmente acho que uma outra pessoa na minha posição não adoeceria com aquilo que foi vivido. Na época eu tinha 30 anos e não estava preparada para o revés dessa violência simbólica que a gente sofreu, e eu sofria junto com a comunidade. E todo mundo nos primeiros ministérios erra em alguma coisa, e eu não fui diferente. A pressão externa sobre essa situação de afirmação de uma decisão vocacional comunitária foi muito desgastante e eu adoeci severamente e tive que deixar o ministério pastoral lá. Mas é uma igreja muito amada. É muito bonito, há uns 3 ou 4 anos eles fizeram um painel com a foto de todos os pastores e minha foto estava lá, eles me tratam com muito carinho e respeito até hoje.

Mas eles sofreram, eu sofri, essa foi na verdade a maior consequência da reação institucional sobre nós. Isso também construiu em mim outras sabedorias que são importantes nesse momento e que divido com outras mulheres, inclusive em liderança. Procuro ter uma pastoral bem engajada nesse sentido, não só no sentido da preocupação com as periferias, com os mais necessitados, mas o meu olhar em relação à questão de gênero foi impregnado desses aprendizados durante o processo que eu vivi em Campo Limpo.

Quando eu voltei para o Rio de Janeiro, fui capelã durante 1 ano e meio na Universidade Rural do Rio de Janeiro, em Seropédica. Depois disso, me engajei na educação teológica como professora e diretora de Seminário na região da baixada fluminense. Minha presença na baixada fluminense, na educação teológica, influenciando homens e mulheres em formação mas também pregando nas igrejas da periferia, foi naturalizando minha presença e a possibilidade dessa figura pastoral feminina, ou do ministério exercido por mulheres. Eu não gosto do termo “ministério pastoral feminino”, acho que soa como se o ministério pastoral exercido por mulheres fosse um ministério pastoral do “jeitinho feminino”. Na verdade ministério pastoral é ministério pastoral, exercido por homens ou mulheres. Eu prefiro assim.

É claro que nem tudo são flores. Desde 1999 a gente está vivendo uma reação conservadora bastante forte, e não tem como nem supervalorizar nem menosprezar tudo que a gente viveu em Campo Limpo como se não fosse um elemento importante para essa reação conservadora. Por exemplo, em São Paulo foi criada uma “Ordem dos Pastores Clássicos”, de pastores que criticam a Ordem dos Pastores Batistas, acham que eles estão fugindo da palavra porque muitos hoje são favoráveis ao ministério pastoral exercido por mulheres.

É importante dizer que essas pessoas, quando têm possibilidade de falar desse assunto, chamam o ministério pastoral exercido por mulheres de heresia, assim como consideram que essas mulheres estão em pecado. No Rio de Janeiro também existe algo parecido, uma frente conservadora que tem como uma de suas bases a aversão ao ministério pastoral exercido por mulheres. Então vemos pipocando aqui e ali reações conservadoras organizadas.

O número de pastoras aumentou significativamente nesses 18 anos. Hoje somos 308 pastoras batistas no Brasil todo, segundo um mapeamento que acabou de sair da pastora Zenilda Regiani Cintra. Isso só entre as que a gente conhece, porque há ainda as que ainda não se deixaram conhecer. Há um crescimento grande no número de ordenações, muitas delas já nos moldes do que agora é solicitado pela tradição batista. Não temos nenhum pronunciamento da Convenção Batista Brasileira que interfira no processo da ordenação, masculina ou feminina. A CBB já decidiu que isso é uma decisão da igreja, ela decide quem quer como pastor. A Convenção já bateu o martelo nisso quando afirmou a autonomia da igreja nessa questão.

O que nós temos hoje de reação institucional clara, na esteira dessa reação conservadora, foi a mudança na forma de conciliar candidatos ao ministério da palavra. Só mesmo quem acompanha e tem posse dos documentos pode perceber que essa mudança aconteceu. Com a justificativa oficial de que os exames eram muito fracos eles mudaram a forma de conciliar, afunilando o processo e criando situações que, se a gente for pensar na questão das mulheres, vai percebendo um impeditivo a mais para que esse concílios aconteçam de forma frequente.

Vou te dar só um exemplo: um dos critérios agora é que tem que ter pastores com carteirinha da Ordem de Pastores Batistas do Brasil, e carteirinha com anuidade em dia. Estou falando isso porque pastor batista é pastor batista independente de ser filiado à Ordem ou não, mas nos novos critérios conciliares agora ele tem que ter carteirinha. E não apenas ter carteirinha, mas ter carteirinha em dia. Parece uma bobagem, mas tudo isso vai dificultando o processo das candidatas, porque se é difícil a gente conseguir juntar 7 pastores para examinar um candidato masculino, imagina juntar 7 pastores para examinar uma candidata mulher, pastores que atendam esses dois critérios, que não são tão horrorosos assim mas acabam dificultando o processo, entre outras coisas na forma de conciliar.

Isso é muito interessante de ser analisado, é um caso quase socio-religioso, um case. Porque ao mesmo tempo que você tem decisões aparentemente favoráveis e de avanço, você tem medidas de retrocesso. Por exemplo, foi decidido em uma das assembleias da Ordem que estaria no estatuto da Ordem a descrição “pastores e pastoras”. Isso é uma coisa boa? Sem dúvida nenhuma! É a naturalização de um processo e inclusão da presença de pastoras no meio batista. Do dia que foi decidido isso até hoje, levou-se um tempo imenso até que essa decisão fosse incluída no estatuto que está no site da OPBB e no Livro do Mensageiro, dos pastores.

Então ao mesmo tempo em que as matérias vêm para o plenário, os pastores que são favoráveis ao ministério pastoral exercido por mulheres se manifestam e as decisões tomadas em assembleias são a favor do ministério, até elas serem práticas na vida e nos documentos oficiais da denominação, leva o tempo que eles querem que leve. Chega ao ponto de serem revistos e não chegarem nem a ser publicizados. Há estratégias conservadoras que acontecem junto com as decisões de avanço.

Você citou a questão de que agora tem estados do Brasil que aceitam a ordenação feminina, outros lugares que não… Não é uma questão da igreja poder ou não ter uma pastora, isso é a igreja que decide, não é o problema. O que cada estado precisava decidir é em relação a cada secção da Ordem dos Pastores a nível estadual, se elas vão aceitar a filiação de pastoras ou não. Por exemplo, aqui no Rio de Janeiro temos duas secções importantes: a da Ordem carioca e a fluminense. As duas decidiram pela filiação de pastoras, então em termos de decisão legal não há problema nenhum. Mas isso não significa que as candidatas ao ministério pastoral no RJ consigam realizar seus Concílios nos moldes que a Ordem quer para filiação, porque às vezes os colegas pastores não se mobilizam para estarem, por exemplo, nos Concílios.

Às vezes naquela região onde a igreja da candidata está só tem pastores contrários, eles não vão ao concílio. Então não realiza concílio. Se não realiza concílio, ou realiza com cinco ou seis pastores, não atende aos critérios da Ordem e elas não podem ser filiadas mesmo que o estado seja favorável a isso.

É claro que existem sim pastores que têm apoiado e realizado Concílios no estado do RJ. Aliás, o Rio de Janeiro é o estado que mais ordena mulheres, por conta desse grupo favorável que tem participado sim. Existem certas resistências, mas precisamos lembrar que há um grupo que tem realizado Concílios.

Hoje, nossa leitura é que temos aparentemente um avanço por conta dessas decisões. Muitos estados não votaram, alguns votaram contra a filiação, assim como temos estados que votaram a favor. É uma esquizofrenia institucional que a gente vive. Então a gente tem isso ao mesmo tempo que tem uma realidade que é resistente à nossa presença e à realização de concílios nos atuais critérios da Ordem de Pastores, justamente para que não haja filiação mesmo. Essa é a única leitura que eu posso fazer desse momento que a gente tá vivendo.

Eu e a pastora Zenilda Regiani Cintra, que hoje está em Brasília, estamos há uns 4 anos articulando esse grupo de pastoras que nós conhecemos na tentativa de a gente primeiro se apoiar nesse processo, para que a naturalização da nossa presença aconteça, dar fortalecimento ao dia a dia das colegas e ao mesmo tempo possibilitar que as candidatas ao ministério pastoral possam ter concílios que atendam o critério da Ordem e, portanto, possam ser filiadas nos estados em que isso é possível. Então a gente tem um cenário denominacional bastante ambivalente, em que duas realidades existem ao mesmo tempo, numa esteira de ondas conservadoras a nível mundial, que infelizmente os batistas adoram. É um momento de resistência.

Para favorecer essa visibilidade e fortalecer umas às outras, Zenilda e um grupo de pastoras idealizou o Congresso Brasileiro Eu Disse Sim. Esse ano vai ser no CIEM, simbolicamente uma casa de formação especialmente para moças. Não para ser pastoras, claro, para serem missionárias, cuidarem de crianças e tudo mais. Vamos realizar lá em setembro o nosso terceiro congresso. São congressos ainda pequenos em termos de número, específicos para quem é pastora batista ou vocacionada ao ministério pastoral. A ideia do congresso é que a gente crie uma articulação em que seja mais difícil que uma onda conservadora nos arraste nela. Ao mesmo tempo, nós já entendemos e temos dito às mulheres que o que define um pastor batista é o fato de uma igreja o reconhecer como tal.

A filiação da Ordem é legal, importante, facilitaria a vida mas não é o que legitima o ministério pastoral batista, seja de homens ou mulheres. Essa compreensão ao longo do caminho foi importante porque deu tranquilidade inclusive para que elas pudessem viver mais tranquilamente seus ministérios, sem aquele fantasma de que elas eram ilegítimas, não são. Há muitos colegas meus que não são filiados à Ordem mas são pastores batistas de igrejas batistas, então porque seria diferente conosco? A filiação à Ordem é uma coisa que estamos desejando e incentivando, mas ao mesmo tempo a gente tem dito que a legitimação ao ministerial é primeiro eclesial e depois, se a pessoa quiser, pode ser feita pela Ordem dos Pastores.

 

L: Que conselho você daria para as meninas e mulheres que se sentem vocacionadas, mesmo nesses ambientes que às vezes são tão difíceis, em meio a tantas opressões institucionais?

É sempre impactante quando a gente ouve uma narrativa como essa.

Eu sou batista desde criança, meus pais são “batistões”, como a gente chama. Eu conheço outras denominações, seus documentos e em nenhuma delas eu encontro a tranquilidade interna de pertencer a não ser aos batistas. Eu acredito nos princípios batistas da forma como eles se apresentam.

Eu não tenho nenhum tipo de problema com a denominação, nem em ser batista, eu ainda acredito no nosso modelo. Por incrível que pareça, eu sou uma pastora até bastante tradicional e sou muito feliz em me identificar como batista da Convenção Batista Brasileira.

O que a gente vê quando ouve uma narrativa como a minha e de muitas outras pessoas, homens e mulheres, narrativas doloridas em suas relações institucionais, é que o problema não é a instituição e a denominação enquanto ideia. O que a gente enfrenta são pessoas, irmãos e irmãs que ainda não compreenderam completamente aquilo deveriam compreender sendo cristãos. Infelizmente a gente dá de cara com essas pessoas que estão em cargos de liderança, tem poder de decisão sobre algumas coisas que afetam a gente significativamente. Eu acho que a gente tem orado muito pouco pela nossas eleições nas assembleias. A gente deveria fazer um movimento de oração antes das assembleias para que as decisões e eleições correspondessem um pouco àquilo que está mais próximo à justiça de Deus. Não é questão de gente capaz em termos administrativos, mas gente que seja discípulo e discípula mesmo.

Eu sou muito questionada sobre por que não me filio à Ordem, já que eu posso fazer isso. Eu digo que não vou dar esse poder a uma instituição que meu relacionamento institucional com ela – não com seus membros, mas com suas lideranças – não é um relacionamento que reconhece onde errou. Acho que no dia que a Ordem dos Pastores reconhecer que é uma coadjuvante no processo de ordenação, talvez eu me filie. A minha resistência tem a ver com o fato de dar publicidade a uma coisa que eu acredito do fundo do meu coração, por ser batista: de que a igreja batista, a congregação, é soberana sobre qualquer processo que diz respeito a ela, sobretudo dos seus ministérios e do trânsito ministerial. Esse poder que é da igreja eu não quero dar nem à Ordem nem a ninguém mais. Isso não quer dizer que eu tenha rancores, coisas mal resolvidas. Eu ouço por aí de vez em quando: “Você está muito magoada!”. Não é mais isso, eu já estive bastante magoada no momento em que estava me recuperando inclusive fisicamente do que vivi, mas o Senhor tratou comigo já há muitos anos. O fato de resistir e hoje é ter a clareza que o problema nunca foi a denominação nem suas instituições, esse não é o problema dos batistas… O problema dos batistas são algumas lideranças que se comportam muito longe daquilo que Jesus gostaria que se comportassem.

Não fique com uma má ideia da sua denominação, porque nós a construímos historicamente em cima dos valores mais belos que a humanidade já ouviu: a ideia de liberdade e fraternidade. Nem esses camaradas, nossos irmãos e irmãs, podem esvaziar a beleza da nossa denominação.

Esse movimento de articulação de pastoras junto com a pastora Zenilda Regiani Cintra aconteceu a partir de um convite que ela me fez. A gente na nossa conversa foi chegando a consensos. A princípio ela acreditava piamente que a gente precisava conseguir a filiação das colegas, que era algo extremamente importante. E aí quando eu chego para esse relacionamento com ela e falo que para mim o maior valor é o da igreja, que precisamos novamente colocar o poder onde tem poder, que é a igreja, ficamos um bom tempo procurando um consenso entre essas duas coisas. E acredito que há dois anos encontramos, e por isso nos apoiamos. É a importância da gente, tanto incentivar as filiações quanto compreender que, mesmo que a gente não tenha a filiação, a compreensão que a legitimidade primeiro é da igreja, e essa legitimidade da igreja tem valor denominacional sim.

O que essa articulação de pastoras batistas quer não é e nunca será a criação de uma Ordem de Pastoras. Longe de nós tal coisa. A gente acredita que a Ordem de pastores existe, está aí. Acho inclusive que ela vai, em um caminhar histórico, se a gente continuar resistindo, se ajustar ao desejo das igrejas. Então não é meu interesse, e se um dia alguém levantar essa coisa de “Ordem de Pastoras” eu não estarei junta apoiando, pode ter certeza disso. Estamos neste momento nos fortalecendo na nossa caminhada ministerial. Muitas pastoras fazem trabalhos maravilhosos e estão muitas vezes isoladas em suas regiões porque há colegas pastores contrários que as isolam. A função do nosso movimento é minimizar um pouco disso, em um primeiro momento.

Em um segundo momento, é também um movimento de atenção às vocacionadas ao ministério pastoral. Uma das coisas bonitas que a gente tem promovido é que haja a possibilidade dessas meninas e mulheres confessarem que têm a vocação pastoral, porque por muito tempo até a confissão disso foi negada. A coisa às vezes é tão difícil de ser vivida, que a pessoa não consegue nem confessar que essa é a vocação que ela vê em si mesma. É um trabalho de reconhecimento de que, caso ela tenha recebido esse dom do Senhor, que reconheça que essa é sua vocação. A gente trabalha para que isso seja feito cada vez mais tranquilamente.

E eu não consigo ver nenhum outro caminho a não ser o caminho da igreja. Se alguém, homem ou mulher, diz que tem essa vocação pastoral, precisa estar na igreja dele vivendo essa vocação para que a igreja o reconheça ou a reconheça. Porque sem reconhecimento de igreja, nenhum ministério vai longe. Não pode isso ser a decisão de um pastor que viu uma menina na igreja e só porque ela é líder e ele é favorável ao ministério pastoral, ordena a menina. Isso não existe. O mesmo serve para os meninos, o que é muito comum. Às vezes o menino é líder na igreja, fala bem, o pastor supõe que ele é pastor, mas o menino não é pastor, e aí ordena o sujeito. O que a gente precisa, na verdade, é ter pastores e pastoras com reconhecimento comunitário. Eu creio piamente nisso, que o reconhecimento precisa ser comunitário. Que essa vocação precisa ser vivida na comunidade porque é essa comunidade que vai dar a segurança necessária em um tempo de tanta insegurança.

Muita gente teme essa questão e diz que é heresia, mas é aquela história dos frutos: “pelos frutos conhecereis”. Há frutos que são indiscutíveis. Eles precisam ser colocados à disposição. Então meu conselho, primeiro, é tentar verbalizar que tem essa vocação; segundo, viver essa vocação na igreja a ponto da igreja a reconhecer. Terceiro, se a igreja reconhece, é construir uma relação com a liderança que favoreça a convocação de concílio. Se isso não acontecer, a pessoa sabe que vai levar um bom tempo sem prosseguir na sua caminhada vocacional. Algumas inclusive mudam de igreja por perceber que não há espaço nenhum para que isso aconteça em um futuro próximo. Em um quarto momento, eu acredito que se for possível cumprir os critérios da Ordem para filiação, eu não vejo nenhum problema em relação a isso.

Nenhuma história de vida é uma história de vitórias apenas. Na verdade a gente tem muitas histórias de derrota na nossa vida. Porque a vida é luta, mas ela é bonita demais pra viver. Não esquece disso não. Eu tenho visto um conjunto grande de jovens, sobretudo meninas, preocupadas com a questão de gênero, empoderamento feminino… Isso super me alegra, vocês são uma geração de engajamento super parecida com aquela geração inicial da década de 60. Eu já sou de uma geração que, embora tenha uma paixão em relação a isso, consegue sentar com a diferença com mais tranquilidade… Vocês também vão chegar a esse patamar [risos]. Mas eu acho bonito demais, necessário, parabéns por isso.

RECONHECIMENTO COMUNITÁRIO E ORDENAÇÃO FEMININA NA IGREJA BATISTA | ENTREVISTA COM PRA. SILVA NOGUEIRA | PARTE 1

Entrevista: Luciana Petersen

Finalizando a campanha #Eklesia, tive o prazer de conversar com a pastora Silvia Nogueira, oficialmente a primeira pastora da Convenção Batista Brasileira.

Nessa entrevista, que dividiremos em duas partes, ela nos conta mais sobre o reconhecimento comunitário de sua vocação, reações institucionais contra sua ordenação, as alegrias e lutas do ministério pastoral exercido por mulheres.

Mais do que uma entrevista, me senti imensamente pastoreada e acolhida pelas palavras da pastora. Como filha de pastor batista, foi muito significativo conhecer pela primeira vez uma mulher que ocupa um espaço que desde pequena me disseram ser exclusivamente masculino.

Agradeço pastora Silvia pela conversa e principalmente pelos caminhos desbravados, para que hoje tantas mulheres consigam dar um nome à sua vocação pastoral e abençoar a Igreja com tais dons dados por Deus.

 

Luciana: Me conte sobre sua vida e trajetória

Primeiramente gostaria de dizer que eu sempre fico feliz em ver iniciativas assim como a de vocês [do Projeto Redomas]. A iniciativa de empoderamento feminino é sempre uma boa iniciativa, e se tiver esse recorte com a religião então, é excelente! Sempre que eu posso, apoio.

Eu me chamo Silvia Nogueira, tenho 48 anos, nasci no subúrbio do Rio de Janeiro, na cidade de Duque de Caxias. Tenho minha formação em Teologia pela Faculdade Teológica Batista de São Paulo, depois eu fiz Letras na UFF e recentemente concluí o mestrado em Educação pela UERJ. Tenho pós-graduação também em Gestão de Educação à Distância pela UFF.

Sou professora de português na rede pública de uma cidade no interior do Rio de Janeiro e trabalhei muito anos com Educação Teológica, especialmente nas periferias aqui do Rio de Janeiro.

Vou te dizer uma coisa em relação a isso que dá uma certa ideia de quem eu sou. Eu nasci em berço evangélico batista, cresci dentro da denominação batista da Convenção Batista Brasileira, me converti aos 12 anos de idade. Quando eu fui ficando adolescente compreendi a minha vocação. Naquele primeiro momento não consegui denominar ainda como pastoral, porque a gente só vem falando sobre isso recentemente; desde a minha infância a gente não tinha nenhuma referência discursiva sobre a possibilidade de uma mulher exercer o ministério pastoral.

Geralmente, para as mulheres que se sentiam “vocacionadas” – quando usavam essa expressão – era porque eram vocacionadas para missões, educação religiosa ou música sacra, os três grandes lugares das mulheres quando se falava de vocação. Quando eu fiz 17 anos, participei de um evento e compreendi que eu tinha uma vocação. Tive uma experiência importante para mim e comecei a dar mais atenção a isso na minha relação com a igreja a qual eu pertencia na época.

O início da minha formação foi em Campos dos Goytacazes no Seminário Teológico Batista Fluminense. Lá entendi que havia uma inclinação meu coração para trabalhar nas periferias. Não tinha nenhuma discussão teórica sobre isso naquele momento e eu não conhecia absolutamente nada em termos de literatura nessa área dentro da região. Mas o meu coração se inclinava para a periferia. Logo quando eu comecei o primeiro ano de Seminário, já avisei que o meu interesse era trabalhar como seminarista nas comunidades periféricas.

Eu fui realmente mandada para uma igreja de periferia, em uma vila no interior de Campos. Foi nessa igreja que, pela primeira vez, no contato com os irmãos enquanto seminarista eu ouvi alguém dizer que minha vocação era pastoral. A compreensão de que minha vocação era pastoral foi a partir de uma escuta comunitária na Igreja Batista em Morro do Côco. Foi ali que eu ouvi dizer que eu agia, vivia e me relacionava com eles como se fosse pastora.

Mas eu não prossegui os estudos no Seminário Fluminense, resolvi sair de lá para terminar minha formação na Faculdade Teológica Batista de São Paulo. Quando cheguei lá, já cheguei dizendo que minha vocação era pastoral. Então eu entro no seminário pela primeira vez sem nominar minha vocação ainda. Tanto que quando perguntavam se eu queria ser missionária eu dizia que não – eu sabia o que não queria ser, mas não conseguia dar um nome ainda para o que eu realmente queria, o que entendia que era pra ser.

Quando cheguei em São Paulo, diferente da primeira vez, eu já cheguei com a compreensão que minha vocação era pastoral. Aquilo que a Igreja já tinha dito sobre mim, eu achei que fazia todo o sentido, que realmente me encaixava no que eles estavam dizendo e aquilo que representava não apenas as funções, mas também a figura pastoral. Também fui procurar as periferias, que era onde eu me sentia útil. Em nenhum momento nas igrejas que eu fui depois de Morro do Côco eu omiti a minha vocação, achei que era um processo de conhecimento de mim mesma e sinceridade. Além disso, também fui ganhando leituras na área de Teologia da Libertação, Teologia da Missão Integral e textos de sociólogos que até então não conhecia.

Foi nesse espaço de serviço como seminarista que eu fui convidada no penúltimo ano de minha formação pela primeira Igreja Batista em Campo Limpo, pelo seu pastor na época, para ser seminarista da igreja. Cheguei lá dizendo que minha vocação era pastoral e foi muito interessante, porque apesar de inicialmente surpreso, ele não colocou nenhum impedimento ao exercício de uma atuação mais pastoral. Muito pelo contrário, logo no início ele me deixou cumprindo as férias dele durante um janeiro inteiro, com atendimento em gabinete e toda a agenda que ele fazia. Quando ele voltou das férias perguntou à igreja e a mim se havia interesse em permanecer como seminarista auxiliar ao ministério pastoral, e tanto a igreja como eu dissemos que sim. Fiquei lá por dois anos, como seminarista do pastor Antonio Carlos de Melo Magalhães.

Nesse processo, o pastor entendeu que o tempo dele na igreja em Campo Limpo já havia terminado. Comunicou a igreja, que por sua vez instaurou um processo de sucessão pastoral. A comissão de sucessão pastoral foi que disse que não havia necessidade de convidar ninguém externo, porque já tinha uma seminarista ao ministério pastoral na vida da igreja, que a igreja apoiava e acreditava, e por que não a seminarista suceder o ministério dele?

Foi esse processo que eu sempre digo que foi o meu concílio e consagração pastoral. Foi uma experiência comunitária, não a experiência de um pastor querer me ordenar – muito pelo contrário, houve bastante resistência de muitos pastores (não do pastor Antônio Carlos, é claro) – mas não foi nem um pastor nem eu mesma querendo me ordenar, mas uma experiência comunitária dentro de um processo natural e belíssimo na vida da igreja. Então minha experiência como pastora oficialmente e efetivamente foi aí. Meu Concílio foi realizado no dia 26 de junho de 1999 e no dia 10 de julho a minha consagração e posse como pastora titular da Primeira Igreja Batista em Campo Limpo, em São Paulo.

L: Que interessante esse processo, principalmente porque parece ter sido muito natural, da própria Igreja te legitimando enquanto pastora. E você foi a primeira pastora batista consagrada, certo? Explique um pouco como foi o processo institucional da Convenção Batista Brasileira de aceitar ou não a ordenação feminina. Pelo que eu sei atualmente cada estado do Brasil decide por aceitar o ministério pastoral exercido por mulheres ou não… mas em que pé exatamente estamos?

Sim, o meu concílio e consagração foi oficialmente o primeiro na CBB.

É um pouco chato, mas preciso explicar mais ou menos como funciona [a estrutura batista].

Existem batistas em outras convenções como a Batista Nacional, Aliança de Batistas, batistas independentes… mas em relação à Convenção Batista Brasileira, existe um sistema de governo que é o congregacional. Isso está na declaração doutrinária da CBB, nos princípios batistas, que são históricos, e está de certa forma no estatuto e na filosofia da CBB quando ela fala sobre a igreja, que o sistema batista é congregacional. Portanto, a congregação decide sobre os rumos que vai tomar e essas decisões são soberanas sobre a vida da igreja: uma vez tomadas, elas precisam ser acatadas pelos de dentro em particular.

Ao longo do processo – só aqui no Brasil estamos há uns 150 anos – nós criamos a Convenção Batista Brasileira, que é uma espécie da abstração, pois é o agrupamento fraterno das igrejas cooperadas, que cooperam com essa ideia de somar forças para a evangelização e o avanço do evangelho, em especial das igrejas batistas em solo brasileiro. Claro que como toda instituição ao longo do caminho a gente vai se perdendo, tendo outros interesses e agregando outras funções.

Até hoje a CBB, na figura de seu secretário executivo, seu presidente, sua diretoria jurídica e das assembleias da convenção que acontecem uma vez por ano – isso seria a materialidade da Convenção Batista Brasileira, mas ela é em si uma ideia. A gente se organiza a partir dessa ideia com certos compromissos e responsabilidades dentro dela. O mais importante deles é a manutenção do espírito de fraternidade entre nós e cooperação em favor de missões. Outra questão importante é a manutenção da identidade batista de acordo com aquilo que nós levantamos como nossa identidade.

Então a CBB tem a clareza de que nenhuma decisão que ela toma em assembleia ou a partir de seu Conselho Administrativo pode ferir a autonomia da igreja local e soberania dela em suas decisões. Os motivos de exclusão do rol das igrejas cooperadas à convenção em geral são os desvios doutrinários. A princípio a única coisa que faria você não fazer mais parte do agrupamento fraterno, sendo batista, seria um desvio doutrinário ou não querer mais. Desvio doutrinário é algo que precisa ser considerado por um colegiado que avalie exatamente em que as pessoas feriram os princípios batistas.

Ao longo desse caminho todo, sobretudo em 1999 na assembleia da CBB, já havia sido tomada uma decisão sobre a soberania da igreja na decisão de escolha de seus ministros. Uma coisa que sempre existiu, mas foi ratificada nesta assembleia, é que a consagração ministerial era uma decisão da igreja. Já havia uma “sacramentação” do que era um princípio comum entre nós, de que a igreja é soberana para decidir aquilo que desejar, desde que não fira o conjunto doutrinário da Convenção.

A Ordem dos Pastores Batistas do Brasil, assim como a União Feminina Missionária, Junta de Missões Nacionais, etc, são organizações satélites da organização CBB. Elas pertencem à Convenção, ao mesmo tempo que são pessoas jurídicas separadas. O satélite mais afastado dessa estrutura é justamente a Ordem dos Pastores, que é em tese um ajuntamento fraterno de pastores batistas que se identificam e zelam por essa identidade batista entre os ministros evangélicos.

Historicamente, os pastores membros da Ordem dos Pastores são convidados pela igreja para conciliar seus candidatos ao ministério pastoral. Veja bem, é um aspecto da tradição batista mas não é uma obrigação batista. No aspecto da tradição, o que todo mundo sempre fez foi isso: quando existe um candidato ao ministério pastoral, seminarista na vida da igreja, que deseja ser pastor e é confirmada essa vocação na vida da igreja local, o pastor daquela igreja convoca um Concílio de pastores. Esses pastores podem pertencer, e geralmente pertencem, à Ordem dos Pastores Batistas, como filiados. Eles vão atender o pedido da igreja e examinam o candidato. Se o candidato for aprovado por aquele Concílio, é consagrado com imposição de mãos ao ministério daquela igreja.

E aí tem um ganchinho: somos consagrados em particular por causa de uma igreja, mas no momento que nós somos consagrados naquela igreja batista, somos automaticamente alçados à condição de pastores batistas denominacionais. Em que sentido? Se um candidato X ou Y sair da igreja dele como pastor e for para qualquer outra igreja batista, ele será reconhecido em qualquer outra igreja, como pastor batista. Essa é a nossa tradição.

O que aconteceu em 1999, o ano do meu Concílio?

Meu concílio foi em junho, mas em março o pastor Antônio Carlos havia anunciado que deixaria a igreja e foi eleita via assembleia local uma comissão de sucessão pastoral. Quando eles decidiram sobre o meu nome e levaram para a igreja, também poderia acontecer que a igreja, em assembleia, rejeitasse meu nome. Acontece que a igreja não rejeitou meu nome. Ao não rejeitar meu nome, ela sabe que o processo que vai enfrentar é um processo de Concílio, absolutamente natural e que ela já tinha enfrentado com outros seminaristas.

É claro que pelo inusitado da minha figura, sendo mulher, já havia uma certa desconfiança de que talvez a gente ouvisse alguma coisa que não gostasse muito. Mas ninguém tinha ideia do que a gente iria enfrentar a partir do momento que tornou público que haveria um Concílio para aquela igreja. E foi muito interessante que as pessoas que, durante o processo, mandaram cartas, foram lá pessoalmente, ligaram, denunciaram alguma coisa, em nenhum momento estavam preocupadas com o fato de que eu assumiria a igreja como pastora titular. Nunca foi essa a questão. Eles queriam impedir que a coisa acontecesse nessa prerrogativa de ser pastor batista. O problema era o Concílio e a consagração, não era o fato de que a igreja tinha me escolhido como pastora titular, mas a questão de passar por uma ordenação que me caracterizaria como pastora batista, sendo oficialmente a primeira da História.

E aí tem um parênteses importantíssimo. Historicamente, eu sou a primeira pastora batista da Convenção Batista Brasileira, oficialmente falando. Isso significa que eu sou a primeira mulher que passou por um Concílio e consagração dentro da tradição batista, nos moldes da tradição batista e que assumiu o ministério pastoral local. Isso não quer dizer que não havia pastoras antes, exercendo ministérios pastorais de formas diferenciadas. Pastorear igrejas é uma coisa que as mulheres fazem há muito tempo, mesmo entre os batistas. Por exemplo, você já deve ter visto missionárias dirigindo comunidades de fé. Elas são missionárias em termos de título e de parte das funções que ela exerce, porque foram lá desbravar um campo. Mas no momento em que uma congregação se reúne e ela toma conta dessa congregação, ela é pastora daquele lugar.

A vida das missionárias é uma realidade meio ambígua. Elas são plantadoras da igreja e enquanto não vem um pastor oficialmente, elas são pastoras daquela igreja em termos de função. Mas não são no sentido de reconhecimento titular dessa função. Assim como há, por exemplo, esposas de pastores que em determinados momentos pastoreiam a igreja no lugar de seus esposos. Assim como temos também mulheres que fizeram seminário e quando suas comunidade de fé ficaram sem pastor por um determinado momento, porque elas eram líderes naturais na igreja e tinham formação teológica assumiram a presidência da igreja – aí chamam de presidente, né? – mas estavam no fundo exercendo funções pastorais na vida da igreja. Então eu sou oficialmente a primeira pastora reconhecida como tal, mas isso não quer dizer que as funções pastorais não tenham sido exercidas por mulheres ao longo do tempo na vida da Igreja Batista.

A gente [Igreja Batista em Campo Limpo] não imaginava que teria todo esse desdobramento que teve. Sabia que teria uma coisa ou outra, mas realmente não sabia o tamanho que seria.

Todo o desdobramento que a gente recebeu foi a partir da publicação do Concílio no Jornal Batista, o que não era nada irregular, porque se você abrir hoje o Jornal Batista vai encontrar lá convocação de Concílios, uma coisa relativamente natural. Quando essa publicação saiu, começamos a ter os primeiros reveses. Começaram os primeiros telefonemas, correspondências, e-mails, visitas – tanto a nós como liderança quanto a membros da igreja.

E aí eu queria fazer uma distinção entre duas coisas que aconteceram: uma coisa foi a reação violenta de pessoas que não tinham necessariamente nenhuma relação direta com as lideranças denominacionais, mas que se sentiram tão ofendidas com a convocação de Concílio que reagiram de forma violenta conosco. Só para você ter uma ideia, por duas vezes aconteceram atos de violência mesmo. Primeiro, [depredaram] meu gabinete. Segundo, alguém tentou jogar uma cadeira em cima de mim. Fora as agressões verbais, que é esse discurso de ódio que você deve ver a rodo por aí, vindo de qualquer um que se posiciona de forma preconceituosa, seja ela machista, racista, etc. É aquele mesmo conteúdo de discurso e ação violentos que essas pessoas, mesmo cristãs, têm contra aquilo que elas acham abominável.


A segunda parte dessa entrevista será publicada no dia 14/10. Aguardem!

Só ser

 Acho que sempre fui uma peça meio perdida no quebra-cabeça. Eu simplesmente não me encaixava em nada… Não era como as outras garotas, embora o quisesse em muitos momentos. Era tímida, séria, gostava de estar com as jovens mais velhas que eu para ouvir suas histórias, mas na maior parte do tempo me sentia só, e gostava disso.

Assim sendo, fui crescendo e aprendendo a ser só consequentemente a só ser… A vida era um desafio cheio de obstáculos. Ser diferente faz da gente perita em defesa, em observar tudo, em duvidar, não se relacionar só pra tentar esconder a dor de viver, num mundo onde os iguais são sempre os normais.

Eu sabia dentro de mim que aquilo tinha uma razão, o ser diferente era positivo, me destacava em muitas coisas e era observada. Um dia, num encontro de jovens, a esposa do meu pastor, Miriam Mendonça, me presenteou com um livro cujo título era “A esposa do pastor”, o qual veio selar o que eu sentia. Dentro de mim havia uma missão, eu tinha uma vocação especial!

O tempo chegou.

Acho que a princípio desapontava as pessoas, pois fugia do estereótipo da super mulher que faz de tudo e sabe de tudo, é líder, conselheira, regente e faxineira.

Foram muitos os desafios nesses quase trinta anos de ministério, ter que se dividir nos vários papéis e fazer o melhor sem se perder, sem deixar de ser fiel a você mesma, pois facilmente podemos ser tentadas a querer agradar a todos e isto é impossível! Corremos o risco de esquecer quem somos se dermos vazão às expectativas das pessoas nas igrejas!

Gosto de imaginar que a família de um pastor tem todo direito de viver uma vida normal, a criança o direito de ser criança sem ser cobrada para ser assim ou assado por ser filho/a de pastor. O filho/a adolescente passar por suas crises, cometer seus erros e viver suas curiosidades e descobertas! O jovem filho de pastor não necessariamente ser o “pastorzinho” se não tiver vocação, escolher sua namorada/o ou profissão sem vínculo com a vocação dos pais, mas com base nos seus próprios anseios! E nesse meio tempo, nós como pais, somente descansamos em Deus, sabendo e confiando que Ele não nos desamparará e que a semente da palavra estará nos seus corações guiando suas decisões!

O tempo foi cristalizando o que verdadeiramente eu queria ser como mulher cristã com a missão de ser esposa de pastor…e foi diante das muitas experiências, erros e acertos, que percebi que mais importante que desempenhar o papel de “esposa de pastor” era ser esposa do homem-pastor e mãe dos seus filhos, exercer este papel com cuidado e dedicação, pois o homem-pastor passa por angústias, decepções, ansiedades, tem sonhos, mau humor, toda uma gama de sentimentos que o tornam humano. Mas devido ao mito que o cerca, as pessoas fazem questão de achar que há um super-herói que pode tudo e está sempre feliz e equilibrado, assim como a esposa dele. Por tudo isso, decidi que a igreja em minha vida ocupava um segundo plano, pois entendia que quanto melhor cuidasse da minha família melhor servia à igreja.Era importante estarmos unidos no casamento e suprir emocionalmente um ao outro, pois a solidão acompanha o líder!

Ofereci minha vida, meu tempo e minhas habilidades para o Senhor tendo como base minha família. Eu queria ver meus filhos crescendo e amando a Deus, queria que entendessem que serviam a Deus quando serviam ao próximo, queria que eles fossem livres de qualquer peso humano. Livres para escolher Deus! Queria filhos-amigos que compartilhassem vida! Queria que eles percebessem Deus em cada detalhe de nossas vidas. No final a igreja sempre é abençoada!

Se eu fiz outras coisas?

Sim.

Muitas.

Mas nenhuma tinha tanta importância para mim!

* Texto atualizado em 12/09 a pedido da autora


Olga da Silva Rêgo de Oliveira, 54 anos, bacharel em Letras pela FIG – Guarulhos, casada com José Carlos de Oliveira, quatro filhos. Estudante curiosa de música e corte e costura. Exercício de ministério ao lado do esposo em Bonsucesso, Taboão e Pimentas – todas em Guarulhos. Tem o privilégio de representar as Esposas de Pastores de Guarulhos, o que dá a oportunidade de refletir juntamente com as mesmas sobre o papel ministerial nesse tempo.

Ser mulher, cristã e artista

“Pois, embora vivamos como homens, não lutamos segundo os padrões humanos. As armas com as quais lutamos não são humanas; pelo contrário, são poderosas em Deus para destruir fortalezas. Destruímos argumentos e toda pretensão que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levamos cativo todo pensamento, para torná-lo obediente a Cristo.” (2 Co 10:3-5)

“Como o leitor sabe, eu percebera muito antes que não devia confiar na percepção para dirigir meu uso, mas nunca me dera conta por inteiro do que isso significava – a experiência sensorial associada ao novo uso seria tão estranha e, por conseguinte, “daria a sensação” de ser tão antinatural e errada que eu, como qualquer outra pessoa, com meu hábito entranhado de julgar se as experiências de uso eram “certas” ou “erradas” conforme a sensação por elas produzidas, inevitavelmente não conseguiria empregar o novo uso. Obviamente, qualquer novo uso deve transmitir sensações diferentes das do antigo, e, se ao antigo parecia certo, o novo só pode parecer errado, e, ao mesmo tempo, guiara-me pela sensação do que me parecia certo para saber se eu estava empregando ou não o novo uso.. Isso significa que todos os meus esforços até então se haviam resumido a tentar dirigir racionalmente o meu uso no momento de falar, ao mesmo tempo em que colocava em ação o uso habitual e, portanto, voltava à direção instintiva e errada. Não é de admirar que essa tentativa tivesse sido vã!” (F.M. Alexander, em ‘O Uso de Si Mesmo’)

Desde que soube que haveria a possibilidade de falar a respeito de ser mulher, cristã e artista um bocado de sentimentos tomou conta de mim. Pra ser sincera, a princípio supus que não haveria problemas, uma vez que é isto o que eu sou: cristã, mulher e artista.  Mas ao tentar esboçar este texto, as ideias vieram confusas. Eu não sabia ao certo como tudo se encaixa, a não ser na minha vivência prática. Esta é a minha vida, e o que sou, e na verdade explicar o que fazemos todo dia não é tão imediato e fácil! (Tire uns segundos para tentar explicar como suas decisões se conectam e vai entender um pouquinho do meu drama…..)

No entanto, como sempre, Deus sabia o que estava fazendo, e Sua Graça novamente se manifestou a mim. Desta vez por uma trama de acontecimentos aparentemente desconexos ….

(Uma pausa para constatar que Deus é um verdadeiro Artista! Já pensou quanta criatividade atravessa Seu Ser e chega a nós todos os dias?)

Pois bem, aí vão os tais acontecimentos:

  1. Pedi ao meu marido que retirasse na biblioteca da faculdade alguns livros para a execução do meu projeto de mestrado. Ele trouxe quantos podia (4 pra ser mais exata);
  2. Escolhi um destes livros para começar a trabalhar, que acabou sendo o livro citado no começo deste texto;
  3. Minha irmã comentou comigo tão veementemente a respeito de um livro que ela tinha gostado que resolvi pedir emprestado. É um livro cristão, da Lysa TerKeurt (“Emoções sobre Controle”).

Curiosamente, todos eles falam sobre o distanciamento consciente das nossas emoções imediatas visando algo maior: para um artista, quanto mais trabalho e mais profundidade no processo, mais distanciamento se faz necessário. Embora pensemos que o artista corresponde sempre àquele ideal romântico, de entrega absoluta e inconsequente ao seu ideal, a realidade é que para aguentar fazer arte todos os dias é necessário respirar fundo, ouvir a si próprio e aos outros, conseguir olhar para si mesmo e para o seu trabalho de forma crítica, honesta e vívida. Não é possível viver constantemente em queda livre, mergulhos e vôos.

Quando digo ‘distanciamento’ aqui não me refiro ao descolar-se das sensações. Mas sim que é necessário não depender do sentimento, do frio na barriga pra prosseguir. E ainda, não entender que o ponto de partida para fazer arte está na maneira como me sinto. Para um artista que paga seu aluguel, água e luz a arte não pode depender do sentimento, que não acontece todo o dia. É preciso uma decisão de fazer, a despeito de como eu me sinta.

Concluo, então, que aí está a minha teia: na vida cristã, ‘levar cativo todo o pensamento’ precisa ser um exercício. Uma decisão. Porque nem sempre me sentirei inclinada a orar, ler a Palavra e me deixar ser moldada, corrigida. Nem sempre me permitirei a vulnerabilidade e sinceridade necessárias para perceber e viver o Amor do Pai. No entanto, eu preciso dEle. Todos os dias. Não posso depender de algo instável para me dirigir ao Trono de Sua Graça. O que me fará desejar a Sua Voz é a minha obediência a despeito de como eu me sinta, e Seu Amor que todos os dias me chama.

E Seu Espírito nos ajuda. Ele há de moldar as nossas sensações e pensamentos, se continuarmos obedientemente a fazer cativa a forma como nos sentimos naquele dia e simplesmente nos colocarmos diante dEle. E nosso Pai fará o resto. De maneira criativa, linda e nova. Um verdadeiro Artista.

 


Esther Alves é cristã,  instrumentista, cantora e escritora. Casada e dona de dois cachorros lindos e impossíveis. Fã inverterada de tapioca, pizza, passeios de bicicleta e cinema em casa. Aspirante à blogueira e na luta por se tornar organizada, entre outros.

Quem tem medo de exercer autoridade?

Como mulheres, somos muitas vezes ensinadas a ter medo do poder. Foi assim que eu venci esse medo.

Quanto eu tinha 5 anos em uma viagem de acampamento, alguém acidentalmente trancou nosso trailer com as chaves dentro. Estávamos com calor e muito infelizes. Meus pais e os outros adultos elaboraram um plano para me fazer escalar até o compartimento estreito de bagagens, então eu entrei na abertura escura e meu pai me ajudou a atravessar a escotilha para dentro do trailer. Enquanto eu pegava as chaves e destrancava o trailer, minha família e os amigos do acampamento gritavam de alegria: “Você salvou o dia!” e eu sorria. Eu tinha corrido um certo risco, e com ele veio uma certa autoridade: eu sozinha pude salvar os acampantes de uma noite sem abrigo.

Agora, 30 anos depois, eu dificilmente lembro de um momento em que tenha me sentido tão orgulhosa e realizada, de um jeito puro e descomplicado. Nos anos seguintes, meu relacionamento com autoridade e responsabilidade se tornou mais complexo e angustiante. Eu quero me arriscar e ajudar pessoas, mas fico constantemente intimidada por qualquer posição em que as pessoas contem comigo.

Empoderar mulheres para liderança é uma conversa em voga atualmente. Livros como “Faça Acontecer”, de Sheryl Sandberg, “Unfinished Business” [“Negócios inacabados”, não traduzido para português], de Anne-Marie Slaughter e “A Woman’s Place” [“Um Lugar de mulher” em tradução livre, não traduzido para português], de Katelyn Beaty, olham para a força do sistema e da cultura que limitam a liderança feminina, tal como as lutas internas que nós mulheres frequentemente encontramos quando assumimos o poder.

Muitas de nós internalizamos falsas mensagens sobre a natureza da mansidão, da humildade e da feminilidade que nos levam à auto-sabotagem e a desvalorizar nosso próprio chamado. Como Sandberg escreve, “Nós nos restringimos de maneiras grandes e pequenas, por falta de auto-confiança, por não levantarmos nossas mãos e por desistirmos”. Isso pode ser ainda mais real para algumas mulheres evangélicas que sutilmente, até subconscientemente, passam a acreditar que evitar a liderança faz parte de ser uma mulher santa. Mas encorajar mulheres a aceitar que elas podem exercer autoridade é essencial para o discipulado, e é uma tarefa que todos nós – sendo a favor da ordenação feminina ou não – podemos apoiar. Tanto para homens quanto para mulheres, aprender a incorporar autoridade é essencial para o florescer humano.

No seu novo livro “Strong and Weak” (Forte e Fraco, em tradução livre), Andy Crouch afirma que o frutificar vem quando indivíduos e comunidades são capazes de praticar autoridade – o que ele define como “capacidade de ação significativa” – juntamente com vulnerabilidade, definida como “exposição a riscos significativos.” Ter autoridade sem vulnerabilidade leva a exploração de outros. Vulnerabilidade sem autoridade gera sofrimento e até (em casos extremos) escravidão. Se não há nem autoridade nem vulnerabilidade, nos encontramos em “retirada”, onde nos arriscamos tampouco impacto, influência ou capacidade de ação.

O livro de Crouch me dá palavras para descrever minha relação complexa com o poder. Eu tenho um medo enorme de ocupar posições de autoridade, e esse medo – combinado com um pouco de vaidade – tem me levado a evitar posições de liderança e o crescimento que vêm com elas. Até ler “Strong and Weak”, eu chamava erroneamente esse medo de “humildade” porque eu confundia evitar poder com evitar orgulho. Minha confusão era envolta por noções de feminilidade que eu tinha absorvido na época que aprendi a dançar: mulheres são conduzidas. Nós não conduzimos. Não podemos nos afirmar tão fortemente. Cada realização deve vir com auto-depreciação e dúvida de si mesma. Tomar autoridade é de alguma forma não-feminino.

Eu não sei exatamente de onde essas ideias vieram. Cresci vendo forte exemplos de mulheres em posições de autoridade – minha mãe era prefeita em sua pequena cidade – evidentemente, nunca me disseram que ser mulher e autoridade eram coisas mutuamente exclusivas. Mesmo assim essas ideias formaram minha vocação, discipulado e relacionamentos.

Eu recebi o chamado para o ministério bem cedo na adolescência e estive no ministério leigo durante a maior parte de minha vida adulta, mas logo que fui ordenada, eu me apavorei. O fato de ser mulher ordenada gerou críticas que eu nunca tinha visto antes. A nova autoridade, conferida a mim pelo meu bispo, não era algo que eu usava com orgulho; era algo que eu queria esconder. Toda vez antes de vestir o colar clerical, eu tinha um debate angustiante sobre o que as pessoas iriam pensar, que tipo de declaração eu estava fazendo, e se eu sequer deveria vesti-lo.

Mesmo fora do meio eclesiástico ou ministério, às vezes eu tenho dificuldade em demonstrar minha autoridade. Alguns meses atrás em uma discussão online, um autor citou algo efetivamente incorreto, mas tive receio em apontar publicamente o erro. Depois de me ouvir lutar comigo mesma em voz alta por 10 minutos – corrigir o erro soaria tão ofensivo? – meu marido balançou a cabeça e disse: “Nenhum homem que eu conheço se inquietaria por tanto tempo sobre corrigir alguém.”

Minha inclinação natural e a maioria dos hábitos intrínsecos não red me levaram diretamente à “terra da isolamento” de Crouch (Meu marido e eu brincamos que eu tenho uma casa de temporada lá). Homens e mulheres são tentados, pela segurança e facilidade, a retroceder mas costumam ser tentados de maneiras diferentes. Embora hajam exceções, os homens são geralmente encorajados a exercer autoridade e fugir da vulnerabilidade – eles são ensinados a não chorar ou mostrar fraquezas – enquanto a maioria das mulheres é criada para se sentir confortável em nossa vulnerabilidade e evitar posições de autoridade. A historiadora Kate Bowler descobriu em sua pesquisa, que mulheres líderes nas igrejas e no cenário de conferências cristãs para mulheres encaram um jogo de “empurra-puxa” entre a perfeição que exigimos das líderes femininas e “a vulnerabilidade e exposição que é exigida das mulheres em público.”

Nós vemos essa mesma tensão fora da igreja e espaços para-eclesiásticos. Em A Woman’s Place, Katelyn Beaty fala de uma advogada de São Francisco chamada Liz Aleman, que foi desencorajada pelo pastor a estudar Direito, porque “nenhum homem cristão iria querer casar com uma advogada”. Consequentemente, uma de suas “feridas mais profundas” é “o medo de homens cristãos não gostarem de mim porque sou uma advogada.” A própria Beaty admite que “como mulher, fico desconfortável com o poder em si, porque mulheres poderosas nos deixam muito nervosas.”

Como uma mulher pequena fisicamente, que cresceu no Sul dos Estados Unidos, a vulnerabilidade aparece naturalmente diante de mim, mas a fé em Jesus significa tomar posse da autoridade que me foi dada, mesmo quando isso é aterrorizante. Crescer em autoridade é parte do processo de descobrir a verdadeira visão de Deus sobre feminilidade – uma feminilidade que floresce e chama outras para seu próprio florescer. E apesar se ser mais fácil para mim me encaixar no papel esperado para as mulheres, de serem as ouvintes por trás das cenas, ainda assim eu estou aos poucos recondicionando a mim mesma a abraçar a liderança de forma mais aberta.

Então, o que isso quer dizer na prática? Significa ser corajosa o suficiente para viver o meu chamado em momentos comuns do dia a dia.

Há alguns meses, uma amiga me abordou depois de um culto para perguntar se eu poderia ouvir sua confissão. Ela estava sofrendo com o pecado e a dor de seu passado, queria falar com algum líder da igreja e preferia conversar com uma mulher. Nós combinamos um horário para nos encontrarmos. Quando cheguei, eu estava estranhamente nervosa e me perguntei rapidamente se deveria dar um jeito de fugir. Durante o ministério no campus universitário, eu tive centenas de conversas com jovens mulheres sobre a ação de Deus em meio às suas lutas, mas eu costumava abordar essas conversas mais como uma parceira e amiga.  Dessa vez, eu coloquei meu colar clerical e fui como uma líder da igreja. Ela não precisa de uma amiga – precisava de uma pastora. Ela estava procurando por uma autoridade espiritual.

Assumir essa posição de autoridade me assustou, mas eu fui mesmo assim. Eu a ouvi, a encaminhei por um momento de confissão, orei por ela e chorei com ela.

Enquanto minha amiga e eu sentamos na frente uma da outra, ela arriscou a vulnerabilidade da confissão e eu arrisquei a vulnerabilidade da autoridade. Nós éramos duas mulheres, amadas de Deus, aprendendo a florescer juntas.

 

 

Este texto é uma tradução (autorizada pela autora) do original “Who’s Afraid Of Her Own Authority?” que você pode conferir clicando aqui.

Tish Harrison Warren é sacerdotisa na Igreja Anglicana na América do Norte e trabalha com a iniciativa InterVarsity Women in the Academy & Professions. Ela é autora da Liturgy of the Ordinary: Sacred Practices in Everyday Life (IVP, dezembro de 2016). Mais em: TishHarrisonWarren.com

Tradução: Luciana Petersen

Colaboração: Cristina Rati

RedomasCast11 – Visita: Diaconia/Ivone Gebara

 

Neste RedomasCast 11, Luciana Petersen entrevista Wanesca Bonfim, Nediedja Souza e Kezzia Cristina da Organização Cristã Diaconia, que tem por objetivo a promoção de justiça e desenvolvimento social, com sede em Recife/PE.

No segundo bloco, temos uma pequena entrevista com a teóloga Ivone Gebara, no lançamento do seu livro “Filosofia Feminista – Uma Brevíssima Introdução”, pela editora Terceira Via. Ivone Gebara é uma das maiores referências em feminismo e teologia no Brasil.

As entrevistas foram realizadas durante o Congresso MIqueias, em Vitória/ES, e em São Paulo, nos meses de junho/julho de 2017.

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Entrevistas: Luciana Petersen

Edição: Luciana Santos

 

 

SERVIÇO ECLESIÁSTICO, LÁ VAMOS NÓS!

O plano era chegar aos vinte e tantos anos com os filhos na escola, um diploma na parede do escritório e uma casa com piscina e jardim. Mas o plano de Deus na minha vida foi diferente.

Ele começou a mudar esse plano quando fiz 18 anos e entendi que tinha que entrar na frente de batalha, aqueles que quando tem  uma guerra luta do lado do seu líder. Ele me chamou para marcar a minha geração de uma forma única e especial, que me tornasse uma líder, estando junto a Ele para anunciar a sua palavra.

Foi um pouco assustador entender isso, mas os anos foram passando, comecei a estudar teologia, depois fiz Missiologia me capacitando e vendo que Deus realmente tinha um plano incrível para minha vida.

Fiz outro plano, que era ser uma das líderes da igreja na qual era membro e fazer a vontade dEle, mas novamente esse não era um plano tão perfeito para Deus. Ele me fez sair do Rio de janeiro e olhar para outro Rio: um Rio maior, mas conhecido como Rio Grande do Sul, uma terra fria e gelada. Para uma carioca isso era difícil de pensar, mas era lá que Ele planejava me enviar.

Os anos foram passando e muita coisa aconteceu pra chegar onde Deus queria que chegasse. Tive que apanhar muito pelo caminho, chorar muitas vezes, ou melhor, milhões de vezes. Ouvi coisas que prefiro nem contar para você, mas nesse caos eu ouvia a Voz do Senhor Jesus me falando aonde era pra eu estar e como seria.

Então, aos 27 anos, Ele me envia para servi-lo na frente de batalha no Rio Grande do Sul, em uma cidade ao qual não conhecia e nem sequer tinha amigos. Deus me enviou para começar um trabalho de plantação de igreja, isto é, começar um trabalho novo do zero.

Começar algo sempre é difícil, e ao mesmo tempo desafiador. Foi aí que ergui as mangas e fui pra rua, conhecer pessoas, me relacionar com gente ouvir histórias desse povo; e pronta, sempre pronta para anunciar a palavra de Dele.

As coisas foram acontecendo, pessoas começaram entender o Evangelho, a querer andar com Jesus e a igreja foi surgindo. Tudo muito lindo. Hoje já estou com meus 30 anos e vejo que o Sonho dEle para mim realmente era melhor.

Você deve estar pensando: “tudo muito perfeito né?!”. Então deixa eu compartilhar algo com você: escolhi somente ouvir a Voz de Deus, daqueles que eu reconheço como amigos e dos líderes que me ajudaram chegar até aqui. Aqueles que vejo que são pessoas que vão somar na minha vida e ministério, que tenho conhecido pelo caminho.

Já ouvi tantas coisas que chegar doer o coração. Ser líder, mulher, solteira no mundo de hoje deveria ser mais fácil, mas não é bem assim. Se ficamos ouvindo o que o povo diz, vamos acabar não realizando o nosso sonho e nem o sonho de Deus em nossas vidas.

Ainda sonho em ter filhos e uma casa com piscina e jardim, mas esse sonho é muito Disney, acredito que os Sonhos de Deus para minha vida são melhores que posso imaginar. Hoje, aos 30 anos, me vejo uma mulher realizada. Inteligente nem tanto, mas feliz. Apesar das dores que sinto às vezes quando escuto algo em relação ao ministério, sempre foco na voz de Deus para fazer aquilo que Ele sonhou na minha vida e na vida dos Gaúchos. É uma honra servir a com Deus na linha de frente, um privilégio para poucos, pois sei que muitos desistem.

Quando olho para a palavra de Deus, sempre vejo a importância de  mulheres no ministério de Jesus, elas sempre estão presentes, não somente com Ele, mas com os discípulos. Jesus nunca fez acepção de pessoas e isso é extraordinário . Ele disse algo que me faz querer sempre ir mais adiante, que é:  “Ide por todo mundo e pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16:15). Por isso eu vou pregar o evangelho, servirei sempre com ousadia e perseverança e onde estiver quero anunciar a Palavra desse Deus maravilhoso.


Missionária Liliane Milanez C. Berto. Teóloga, missiologa, estudante de Educação Física e o mais importante de todos: filha de um Deus maravilhoso e sempre pronta para servi-lo.

 

PODEM ME CHAMAR DE PASTORA

Por que as igrejas sempre esperam algo mais da mulher, esposa do pastor?

Começo com essa pergunta, pois ao longo de 25 anos de casada com um pastor – e vinte
deles em uma denominação histórica – sempre me incomodou o fato de se esperar que o
pastor tivesse não somente uma esposa, mas uma assistente.

Quando meu esposo era chamado para uma nova igreja, na entrevista com o Conselho, ele
era questionado sobre meus talentos: “A sua esposa rege coral, toca piano, canta, trabalha
com crianças, dirige reuniões de oração, aconselha casais,…?” Mas o contratado seria ele.
Parecia que desejavam dele não uma esposa, mas um pastor auxiliar. Porém o salário era
apenas para um. Desculpem-me pela comparação, mas parecia oferta de promoção: leve 2
pague 1.

Será que também esperam do homem, aspirante ao ministério pastoral, que ele procure por
uma esposa, não somente para ser sua companheira, mas que possa substituí-lo?
Mas, e nas denominações neopentecostais, em que a esposa do pastor é chamada de
pastora?

A diferença é que em vez de atuar como pastor auxiliar, ela tem que ser tão “pastor” da
igreja quanto o esposo. É esperado e, em algumas denominações, até exigido que pregue,
visite, expulse demônios, ministre em congressos, dirija reuniões, etc.

O que para algumas de nós pode ser extremamente difícil e, às vezes, ser feito por
obrigação/convenção, gerando uma enorme culpa. Falo por experiência própria.
Não me entendam mal. Eu sou inteiramente a favor da igualdade. Mas vejo mulheres se
lançando no ministério pastoral, para terem um pouco de respeito e/ou poder dentro das
igrejas.

Contudo, assim, continuamos sendo presas às convenções e, agora às eclesiásticas.
Precisamos nos desvencilhar desse assédio da competição com os homens. Esse engano
diabólico tem-nos feito esquecer da verdade, que perante a cruz de Cristo somos todos
iguais: “Não há … nem homem nem mulher; pois somos todos um em Cristo Jesus.” Gl
3.28. Isso é realmente igualdade.

Vivamos, independente do gênero, a plenitude do que somos em Deus. “E ele designou
alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para
pastores e mestres” Ef 4:11.

Sim, a tratarmos de pastoras, aquelas que receberam esse dom, por reconhecermos a obra
do Espírito na vida delas, mas sem jamais esquecer que cada uma tem um nome próprio.
Pois não somos os títulos, que instituições eclesiásticas nos delegam, somos filhas do Pai
Perfeito, que nos chama, a cada uma, pelo nome. “Jesus lhe disse: Maria! … “ Jo 20.16.


M. Cristina Rati é casada com Cláudio e mãe de Bianca e Timóteo. Licenciada em Letras pela UEPG e Missiologia pela FTSA. Atuante no ministério de ensino e pastoral há quase 30 anos.