Pecado, a violência contra a mulher e a ação da Igreja

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É evidente, nas sociedades, que existem muitas construções sociais que determinam o que deve ser considerado correto, ou não. As relações sociais, assim, são baseados em regras morais e de comportamento que vão ditar o quão aceito você será por aquele grupo. Uma pessoa que não infringe ou subverte nenhumas dessas regras  terá um valor maior do que outras que não cumprem com a cartilha do bom comportamento. Por exemplo: se uma mulher não deseja se casar ou ter filhos, logo será taxada como a “diferentona” ou como aquela que não conseguiu cumprir com o papel exigido dela: ser esposa e mãe. Quando pensamos no meio cristão, temos uma série de regras sociais a serem cumpridas para que uma mulher seja considerada “virtuosa”, aquela  que constrói o lar (Provérbios 14:1). Tendo em vista esses padrões considerados ideais pela tradição cristã, proponho que reflitamos, brevemente, sobre três temas importantes para essa discussão: a visão divina da humanidade em gênesis, a questão do cuidado e do lar e, por fim, a construção de masculinidade e feminilidade pela Igreja Cristã.

Assim, pergunto a vocês: a violência contra as mulheres é pecado? A resposta é sim, e não há quem possa defender, biblicamente, que um homem que bate em sua esposa, que pratica atos sexuais contra a vontade de uma mulher ou que a violenta por meio de palavras, com assédio moral e psicológico, não esteja praticando pecado. Segundo o Gênesis (1:27), Deus criou tanto homens quanto mulheres à sua imagem e semelhança, então é desta forma que ambos devem ser tratados. Assim, quando uma mulher é tratada violentamente por seu marido, esse homem está violentando a imagem e semelhança de Deus. Porém, há quem argumente que existem diferenças entre homens e mulheres e, de fato, há diferenças anatômicas e subjetivas, contudo, segundo o apóstolo Paulo, após a vinda de Cristo: não há homem ou mulher, porque todos vós sois um em Cristo Jesus (Gálatas 3:28). Ora, se todos somos um só em Cristo e não há diferenças de tratamento entre homens e mulheres, por que mulheres ainda continuam apanhando de seus maridos, nas famílias cristãs brasileiras? Essa realidade é incompatível com a vontade de Deus.

Muitas vezes, o motivo pelo qual as mulheres são desqualificadas, violentadas e desrespeitadas está relacionado com o cuidado do lar. O que nos leva a pensar em uma segunda questão muito importante: quais falas e comportamentos incentivam a continuidade da violência contra a mulher nas famílias cristãs? Temos que considerar seriamente que a diferença da importância dos papéis atribuídos a homens e mulheres faz com que estas sejam vistas como inferiores, em outras palavras, o cuidado do lar é considerado um trabalho inferior, enquanto o sustento do lar é visto como mais nobre. Contudo, mesmo na sociedade do século XXI, na qual mulheres também são economicamente ativas, o trabalho do homem é mais valorizado.  E mesmo as que trabalham se sentem cobradas para serem excelentes mães, gestoras do lar e manterem a imagem da mulher sensível que deve se dedicar ao bem de todos em detrimento do seu bem estar e da sua felicidade. Isso faz com que as mulheres, para serem vistas como boas mães e companheiras, tenham que submeter a um relacionamento e a uma imagem social que as coloca num patamar de inferioridade.

Por fim, tratemos do terceiro ponto que propomos para reflexão: a construção da masculinidade e da feminilidade pela Igreja Cristã. Você já frequentou uma reunião de oração de qualquer igreja evangélica? Quantas mulheres oraram ou pediram oração para que seus maridos mudassem, que não fossem violentos, que não as desrespeitassem ou coisa que o valha? Muitas, milhares, milhões delas! Infelizmente, a Igreja construiu uma imagem da mulher que a faz responsável pelo sucesso do lar e de sua família. Ao utilizar o provérbio: “a mulher sábia edifica a sua casa, mas com as próprias mãos a insensata destrói o seu lar”, construiram-se duas ideias muito perigosas que mantêm muitas mulheres em relacionamentos abusivos. A primeira, é que se a família fracassar, a culpa é da mulher que não soube cumprir seu papel de edificadora do lar e a segunda é que se o homem fizer alguma coisa indevida, o peso de suas atitudes deve ser suportado por meio de oração e de submissão.

Pois bem, a oração é essencial na vida do cristão e devemos praticá-la, mas existem coisas que devem ser resolvidas na delegacia de polícia e isso não podemos negar. Trata-se de um absurdo comunidades cristãs orientarem mulheres a apenas orarem por seus maridos, quando deveriam protegê-las, e a seus filhos, de situações de violência. Muitas delas têm seu comportamento questionado quando apresentam queixas de seus maridos, ao invés de serem acolhidas e amparadas. E, dessa maneira, construímos feminilidades subservientes e masculinidades irresponsáveis: as esposas se sentem obrigadas a fazer suas famílias darem certo, enquanto os maridos  não as respeitam. Isso, infelizmente, é muito comum nas nossas comunidades cristãs.

Por fim, devemos lutar constantemente contra esse “padrão” familiar que onera as mulheres no cuidado dos filhos, no cuidado do lar, na subjugação aos maridos e, infelizmente, isso tudo é agravado pelo julgamento das comunidades cristãs. Precisamos ensinar os homens que uma masculinidade inspirada pelo padrão de Jesus Cristo é aquela que se preocupa com os filhos, com o lar, com o cuidado de suas famílias e que preza pelo respeito às esposas. Afinal, se somos todos imagem e semelhança de Deus e, após a vinda de Jesus, somos um nEle, não cabe qualquer tipo de violência na vida do Cristão! Deus nos abençoe e ajude a combater a violência doméstica!

Para denunciar situações de violência doméstica, ligue 180 ou procure a Delegacia da Mulher da sua cidade ou região.


Simony dos Anjos é evangélica, feminista, formada em Ciências Sociais, mestranda em Educação, autora do Blog Sim, Genuflexos e colunista da coluna (fé)ministas, do Portal de notícias Justificando.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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