Uma princesa que não recebeu a lágrima de seu pai

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Uma princesa que não recebeu a lágrima de seu pai: releituras bíblicas sobre contexturas de violências contra mulheres

Retomaremos o debate sobre as histórias vividas por mulheres da Bíblia que tiveram trajetórias marcadas por violências (simbólicas, sexuais, físicas, letais, etc). O intuito não é confrontar a nossa fé, mas discorrer sobre histórias de mulheres marcadas pelo modelo patriarcal de seus povos, em que homens oprimiam mulheres, movidos por interesses meramente pessoais (econômicos, políticos e sexuais) e não pelo desprezo de Deus às mulheres. Nos remeter a estas tristes histórias pode nos ajudar como mulheres cristãs (ou não cristãs) a dialogar mais sobre a violência, pois o primeiro passo para o enfrentamento deste problema é falar sobre ele.

Os rastros de violência de gênero apontados e denunciados pela Bíblia são muitos. Por exemplo, a história da filha de Jefté (Juízes 11-12), que viveu as perversidades culturais do tempo bíblico de Juízes, em que ela foi sacrificada pelo próprio pai a fim de cumprir um voto insano, cruel e irresponsável, pois ele não soube compreender aquilo que Deus requeria dele para vencer uma batalha.

Outras histórias merecem ser lembradas (já abordadas em outras edições do Redomas), como o caso de Hagar (Gênesis 16), escrava africana de Sara, que foi obrigada a se relacionar sexualmente (o que configura estupro) com Abraão, aliás, marcada ainda pelo racismo e pela xenofobia, sofreu por sua lealdade e obediência aos seus senhores. Há ainda a história da concubina (Juízes 19), que foi vítima de um estupro coletivo, severamente agredida e morta. Ela era também uma estrangeira, morreu porque foi atraiçoada por seu companheiro e anfitrião.

Tendo como bojo de análise a violência na contextura doméstica, tomarei como ponto de partida a elucidação do caso de Tamar, filha de Davi. Dois fatos intrigantes de sua história merecem ser aprofundados, pois são vagamente abordados nas igrejas. O primeiro é pela razão dela ser uma princesa (filha do rei Davi), a fim de tocar num ponto elementarmente antropológico: que a violência contra o feminino perpassa as mulheres de maneira historicamente perversa. O fato de Tamar ser abastada e de família nobre, não a impediu de ser estuprada por seu meio-irmão e nem de ser ignorada pelos membros de sua família.

Tamar era uma adolescente (aproximadamente 15 anos de idade), ela foi violentada numa cilada tramada por ele, que se fingindo de doente, fez um pedido ao Rei que lhe concedesse a permissão de ser alimentado por Tamar e seu pai o atendeu prontamente.  A trama vivida por Tamar é contada desta forma:

Amnom […] deitou-se, fingindo-se doente. Quando o rei foi visitá-lo, Amnom lhe disse: “Eu gostaria que minha irmã Tamar viesse e preparasse dois bolos aqui mesmo e me servisse”.

Davi mandou dizer a Tamar no palácio: “Vá à casa de seu irmão Amnom e prepare algo para ele comer”. Tamar foi à casa de seu irmão, que estava deitado. Ela amassou a farinha, preparou os bolos na presença dele e os assou. Depois pegou a assadeira e lhe serviu os bolos, mas ele não quis comer. Então Amnom deu ordem para que todos saíssem e, depois que todos saíram, disse a Tamar: “Traga os bolos e sirva-me aqui no meu quarto”. Tamar levou os bolos que havia preparado ao quarto de seu irmão. Mas quando ela se aproximou para servi-lo, ele a agarrou e disse: “Deite-se comigo, minha irmã”. (2-º Samuel 13, 1-11)

Ela só foi até o quarto de Amnon por obediência ao seu pai e porque estaria cumprindo uma ordem imperativa do rei, que mandou lhe dizer: “Vá à casa de seu irmão Amnom e prepare algo para ele comer”. O acesso de Amnon à Tamar foi concedido como um mimo de Davi ao filho. Vale lembrar que Amnon estuprou Tamar porque ele a forçou, a violentou, ela não teve culpa nenhuma, seu interesse era meramente saciar sua lascívia, sendo que nesse jogo desigual de poder, o sujeito feminino está suscetivelmente em demasiada desvantagem.

Tamar reagiu e pediu a ele que não a violentasse, ela disse não! Curiosamente, ela proferiu a palavra não por 5 vezes num curto diálogo que conseguira ter antes de ser violentada:

[…] “Não, meu irmão! Não me faça essa violência. Não se faz uma coisa dessas em Israel! Não cometa essa loucura. O que seria de mim? Como eu poderia livrar-me da minha desonra? E o que seria de você? Você cairia em desgraça em Israel. Fale com o rei; ele deixará que eu me case com você”.  

Mas Amnom não quis ouvi-la e, sendo mais forte que ela, violentou-a. Logo depois Amnom sentiu uma forte aversão por ela, mais forte que a paixão que sentira. E lhe disse: “Levante-se e saia!”

Mas ela lhe disse: “Não, meu irmão, mandar-me embora seria pior do que o mal que você já me fez”.

Ele, porém, não quis ouvi-la e, chamando seu servo, disse-lhe: “Ponha esta mulher para fora daqui e tranque a porta”. (2-º Samuel 13, 12-17)

Reagindo como pode, aconselhou-o não somente sobre a sua desonra. Ela também tentou persuadi-lo, chamando-lhe à atenção para as consequências que ele sofreria (ele era um sujeito egocêntrico, ela tocou no seu ponto fraco). Suponho que quando Tamar lhe disse:  “E o que seria de você? Você cairia em desgraça em Israel”, ela imaginou que o seu pai reivindicaria por sua dor e puniria Amnon, mas ele sabia que nada lhe aconteceria. Ela foi violentada, estuprada e depois foi jogada para fora de seu quarto. Além de egoísta, Amnon era protegido pelo pai, ele já teria presumido que sua violência contra Tamar seria minimizada, tanto é que ele não fugiu, porque isso não lhe seria necessário, assim, nada precisou ser feito.

O segundo aspecto instigante que merece ser destrinchado nesta história está neste ponto: Tamar não se calou perante a violência que sofrera, logo depois do trágico ocorrido, ela expressou a sua humilhação e vergonha:

[…] Tamar pôs cinza na cabeça, rasgou a túnica longa que estava usando e se pôs a caminho, com as mãos sobre a cabeça e chorando em alta voz.  (2-º Samuel 13, 19)

Embora ela estivesse procedendo conforme os costumes de sua época (cinzas na cabeça, vestes rasgadas e choro em voz alta eram práticas comuns quando uma pessoa estava de luto ou passando por humilhação e vergonha), ela teve também um gesto de enfrentamento que pode ser pensado como denúncia, porque tanto sua violência como o seu agressor foram expostos. Ela teve um ato corajoso por visibilizar de sua dor, em busca de justiça. Porém, a história de silenciamento de Tamar continua:

Absalão, seu irmão, lhe perguntou: “Seu irmão, Amnom, lhe fez algum mal? Acalme-se, minha irmã; ele é seu irmão! Não se deixe dominar pela angústia”. E Tamar, muito triste, ficou na casa de seu irmão Absalão.

Ao saber de tudo isso, o rei Davi ficou indignado. E Absalão não falou nada com Amnom, nem bem, nem mal, embora o odiasse por ter violentado sua irmã Tamar. (2-º Samuel 13, 20-22)

Seu irmão Absalão também tentou calá-la. Quando ele soube do estupro, mandou que ela se acalmasse, sugerindo que se aquietasse para zelar pelo nome da família, fazendo-a se lembrar de sua relação familiar com Amnon. Ela sequer deveria ter mostrado seu choro e sua dor para não levantar suspeitas. Tolhida pelo irmão, Tamar ficou desolada, completamente angustiada. Absalão não falou nada com Amnon.

Quanto ao seu pai, ele também não reagiu em favor de Tamar. A história apenas relata que Davi tenha ficado irado, ou seja, indignado, ele nem repreendeu Amnon pela violência. Davi prestou apoio quando Amnon fingiu ter ficado doente, mas não puniu esse mesmo filho, que além de mentir para o rei, violentou a sua filha. Lembrando que além de pai, ele era um rei, representando ali uma autoridade máxima em Israel. Davi falhou como pai e como rei, ele deveria ter punido Amnon e dado apoio à Tamar, todavia, ele sequer pranteou por sua filha.

As atitudes do irmão e do pai desta jovem permitem a análise de que os corpos femininos não eram “corpos choráveis”. Diante da impunidade da família, Tamar teve sua voz ignorada. Ela era mulher, uma subalterna dentro de seu palácio.

Enfim, as histórias aqui elencadas mostram que essas mulheres tinham algo em comum: elas foram subalternas em suas épocas e viveram processos de sofrimento, misoginia, invisibilidade e opressão, todavia, foram protagonistas, porque também viveram situações de resistência e investidas de enfrentamento.

Quando a Bíblia relata situações de dor e sofrimento de mulheres, ela também deixa sinais de cenários de resistência, sinalizando sendas alternativas de protagonismos, em que as mulheres bíblicas enfrentavam e visibilizavam a violência sofrida no ambiente familiar. Porém, dificilmente vemos abordagens sobre isso nos altares das igrejas cristãs, ainda há pouco incentivo para que as mulheres sigam exemplos de mulheres bíblicas que ousaram e resistiram.

O livro de Marcos (Novo Testamento), promove interessantes apontamentos sobre enredos de relações igualitárias de gênero, envolvendo Jesus e as mulheres. Muitas mulheres cristãs estão tecendo novas escritas, partindo de releituras bíblicas, em que as mulheres se tornam sujeitos, e, sob a proteção de Jesus, elas são defendidas e amparadas. Para quem se interessar em ler mais sobre esse assunto, recomendo a leitura da dissertação de mestrado da cientista da religião Carolina Bezerra, seu texto está na lista de referências.

Para concluir, vale lembrar que o ambiente familiar nem sempre é um lugar de proteção e que isso não é culpa da pessoa violentada. Às vezes pessoas dentro das igrejas ou familiares aconselham esconder o assunto, a fim de proteger o agressor, foi o que fizeram Davi e Absalão em relação à Tamar. A minimização do problema só pode aumentar a dor. Felizmente, o contemporâneo permite outras saídas, por exemplo, o Disque Denúncia (180).

A própria Bíblia denuncia muitas situações de sexismo, misoginia, estupro e violência doméstica. Mulheres marcadas por violência não devem se sentir culpadas, nem arruinadas, a superação existe! Espaços como este são importantes redes de proteção e acolhimento. Falar sobre a violência doméstica é preciso! Deus ama todas as mulheres!

Referências bibliográficas:

ANZALDÚA, Gloria. Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo. In: Revista Estudos Feministas, Florianópolis, 2000.

Souza, Carolina Bezerra de. Jesus e as mulheres no Evangelho de Marcos: paradigmas de relação de gênero. Dissertação (mestrado) – PUC – GO; Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião, 2014.


Flávia Valéria C. B. Melo é cristã e cientista social, mestre e ciências da Religião e doutoranda em Antropologia Social (UFG). Pesquisa atualmente o feminismo cristão e o pensamento descolonial. E-mail: flavia_valeria@yahoo.com.br


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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