Do ventre ao mundo: a história de Isabel

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Lucas 1.5 – Isabel e a ancestralidade de Jesus

A vida de Isabel é contada no evangelho de Lucas, a qual, diferente dos outros evangelhos, aponta para uma pré-história da salvação começando por essa mulher e seu esposo Zacarias. Apesar do evangelho de João e de Mateus relatarem sobre quem é João Batista, Lucas é o único evangelho que conta qual é sua relação histórica com Jesus. A partir da história de Isabel, a relação de Jesus e João Batista não é pela missão que cada um teve, mas de sangue e de ancestralidade. E no meio dessa história ancestral está Isabel.

“Ué, mas ancestralidade não é coisa de religião de matriz africana?”

Uso o termo ancestralidade porque o povo judeu é nascido no norte de África e carregou em si a necessidade de respeitar e carregar os valores de quem veio antes de nós. Um exemplo claro disso é que Isabel vinha da descendência de Arão, povo de sacerdotes. Apesar de Zacarias não ter sangue sacerdotal, pela história da família de sua esposa isso se torna uma realidade para os dois, podendo ele então exercer esse ministério.

Dessa descendência já havia uma expectativa de profetas, grandes manifestações e de pessoas escolhidas assim como Arão foi o braço direito de Moisés.

Talvez Isabel ouvisse desde muito pequena sobre as histórias de seus antepassados e, por isso, quando Deus fez o milagre pela vida dela diz uma coisa muito bonita: se dignou de tirar o meu opróbrio. Em português moderno seria tirar a vergonha, a humilhação e a opressão, algo muito próximo à ideia de libertação, assim como Deus fez com Arão e Moisés.

Da mesma forma Maria, sabendo de sua ancestralidade com rei Davi, se alegra por ser parte desta história. Em ambos os casos vemos parentas que se atentaram a sua história e encararam com coragem a chance de construir algo novo como seus antepassados fizeram.

  • Você conhece as histórias de sua família?
  • O que você deseja fazer para deixar seus antepassados orgulhosos?
  • O que Deus tem te ensinado por meio da sua família?

 

Lucas 1.6 – Justiça e obediência na maternidade.

A Bíblia conta que Isabel e Zacarias eram conhecidos como justos e irrepreensíveis nos mandamentos, como sacerdotes deveriam se comportar. E, aparentemente assim, eles eram pessoas que hoje seriam vistas como “cidadãos de bem”, sem defeitos e sairiam muito bem no trabalho como pais.  Apesar de Isabel ser infértil e idosa, o cargo familiar que possuía dava um certo conforto econômico e social em que não precisava, necessariamente, ter filhos para ser respeitada. Não era qualquer um que era descendente de Arão.

Contudo, a gente percebe de fato o valor de justiça e desejo de cumprir os mandamentos quando Isabel engravida. Seria justo, assim como Sara idosa com seu filho Isaque, que João nascesse para cuidar de sua família, mantivesse o trabalho sacerdotal de seu pai e cumprisse esse papel social de um filho respeitoso.

E aí vem o pulo do gato: o maior sinal de que eles eram de verdade justos e cumpridores dos mandamentos é enxergarem em João Batista não só uma bênção para si mesmos, mas para a história da salvação. A justiça dada por Deus não é uma justiça dada à Isabel, é uma justiça como aparece nos profetas, de se arrepender e voltar para o Pai. O cumprimento dos mandamentos não era somente para eles amarem a Deus sobre todas as coisas, mas amar o próximo tanto que deram o próprio filho para pregar o Evangelho e ser morto, dando profecias. Isso demonstra uma fidelidade, especialmente em Isabel, acima do esperado por qualquer mãe.

  • Qual sua relação com seus pais e/ou filhos?
  • Você se considera uma pessoa apegada?
  • O que você tem dificuldade de ceder, mesmo sendo vontade de Deus?

 

Lucas 1.42-45 – A verdadeira lei do ventre livre.

A lei do ventre livre promulgada no Brasil em 1871 – lembrando que isso não tem nem 150 anos – era uma forma bastante controversa de dar início ao processo de abolição da escravatura. Esta lei dizia que o filho de mulheres escravizadas poderia ser livre, mas as mães só poderiam cuidar de seus filhos até os oito anos, podendo eles serem levados ou vendidos pelas mães necessitadas. Ou seja, não era uma lei que, de fato, trazia uma libertação para estas mulheres negras escravizadas.

Neste texto, quando vemos Maria indo visitar Isabel, vemos algo extraordinário: João estremece dentro do ventre, mas quem se torna profetiza naquela hora é Isabel. Ela que se enche do Espírito Santo e declara a salvação de todos. Isabel declara que bendito é o fruto do ventre de Maria, mas que Maria também é abençoada. Isso é, o poder do Espírito Santo não esperou João Batista nascer ou Jesus Cristo se manifestar. Elas não são apenas incubadoras de bebês especiais. Elas são ungidas também. O primeiro relato do Espírito Santo no novo testamento é pelas mães. Aqui não é só o fruto do ventre que importa, mas as próprias mulheres também. E nessa troca espiritual destas duas mães, Maria canta (Lc. 1.46). Assim, Deus se importa não somente com a saúde dos filhos delas, mas sim também com como essas mulheres estão em relação com suas espiritualidades.

Então, as duas permanecem por três meses (Lc 1.56) e existe uma chance de que Maria estivesse no parto de João Batista (Lc 1.57). Imagine o quanto Isabel deve ter ensinado e trocado de experiência com Maria! Estas mulheres já não são mais somente pessoas  que a sociedade espera que tenham uma família com esposo e filhos, mas sim mulheres virtuosas, de exemplo para nós ainda hoje.

  • Quantas mães você têm ao teu redor?
  • Você conhece as necessidades e dificuldades que elas passam?
  • O que você pode fazer para ser rede de apoio e suporte material e espiritual para estas mães?

 

Que Deus nos dê sabedoria com a história de nossos antepassados.

Que Deus nos dê coragem, justiça e amor.

E que Deus nos liberte de toda opressão.

Em nome de Jesus,

Amém.


Rebecca Maciel é carioca, psicologa, teóloga e escreve no blog Teologicamente Instável.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.


Revisão por: Talita

 

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