Existe resistência na destituição do trono

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Com frequência esquecemos quanto tempo se passou desde que o mundo se tornou mundo. E, quando pensamos sobre, tendemos a apenas considerar os avanços que tivemos como humanidade. É evidente que  a criação do carro, por exemplo, trouxe muito mais conforto à raça humana em sua locomoção e em seu domínio terrestre. Mas não é verdade que sempre podemos cantar vitória.

Em um período cronológico específico, por exemplo, os judeus se recusaram a dizer que seu Deus era apenas um dentre várias opções – e, por isso, sofriam repressão social, discriminação e violência. A época era de 483 a 478 antes de Cristo. Atualmente, em 2018, o cenário não é muito diferente, haja vista que não só a população judaica é ideológica e socialmente dominada, mas assim ocorre similarmente com as mulheres.

Não é novidade que carregamos, desde o ventre de nossa mãe, a punição social que vigora para todas as mulheres. Isso porque quando o primeiro corpo feminino vendido da história ficou popularmente conhecido como “puta”, assim ficaram todas as gerações que se seguiram. Da mesma forma, quando o primeiro corpo feminino queimado da história ficou popularmente conhecido como “bruxa”, assim somos chamadas até os dias atuais. Mas como isso aconteceu?

A história da rainha Vasti, encontrada no livro bíblico Ester, ilustra o mecanismo humano que sustenta, ainda depois de dois milênios, tamanha manobra social. Após ter sido convocada, em um evento, a marcar presença – desde que embelezada e com os mais luxuosos trajes – como o maior símbolo da grandeza e da ostentação reais, Vasti foi socialmente considerada como propriedade do rei, mas não só dele. Isso é reflexo do fato de que, como finalização de uma sequência de exibições dos patrimônios imperiais, Xerxes a esvaziou da glória de Deus, implantada em qualquer e toda pessoa, e a tipificou como um objeto a ser exposto, de forma a exemplificar, a todos os presentes, como os papéis sexuais em uma relação conjugal devem ser tratados.

Tais papéis, por sua vez, eram tão estruturados socialmente que, frente à recusa da rainha a aparecer para um bando de homens embriagados, foi necessário acionar o auxílio jurídico. Mais uma vez, homens poderosos listaram as medidas punitivas necessárias a tamanha ofensa e possibilidade de perda de controle por parte dos maridos, corroborando a manutenção social de subjugação feminina.

Assim, Vasti, proibida de aparecer para o rei e na iminência de perder seu cargo real, serviu de bode expiatório para que a punição, o abuso e, quiçá, a agressão de uma mulher recaísse sobre toda a população feminina do Império, de modo que esta carregasse a impossibilidade de empoderar-se e decidir por sua identidade em Cristo Jesus, a menos que quisesse ser reconhecida como “traidora”, “indomesticável”, “ingrata” e “insubordinável”.

Estas punições sociais, associadas às mulheres esposas no período bíblico do Antigo Testamento, ainda assombram o escopo das relações conjugais do século XXI. E isso só foi possível porque, assim como o rei Xerxes, um homem não reina sozinho: é necessária uma rede de apoio estruturalmente posta que legitime a repressão, a discriminação e a violência.

Tal fato é observável no desenrolar da história, através da busca por uma mulher que ocupasse o cargo de rainha do Império. Isso porque, sendo virgem e submetida a um tratamento intensivo de beleza, ou seja, doutrinada, era possível manter o controle social através dessa nova figura feminina de destaque.

Graças a Deus que Ester nos surpreende com a mesma coragem e força de Vasti, lembrando-nos de que não se pode sempre cantar vitória, mas é possível cantar as batalhas.


Isabella Rezende, 20 anos, estudante de Psicologia. Escrevo sobre tudo aquilo que Deus tem, graciosamente, me ensinado. Feminista porque cristã.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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