À BEIRA DO POÇO: crônica de uma mulher marginalizada

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por causa de sua palavra, muitos creram.

 

Um grupo formado por poucos (e auto elegíveis) definiu o nosso código de conduta. As regras valiam para todos, salvo exceções. Lê-se: o próprio conselho e seus semelhantes. Depois de experimentar a microfísica do poder, é prazeroso exercê-lo sobre o outro. Ninguém está livre deste sentimento – mas nem todos possuem a oportunidade de experimentá-lo.

Da reunião surgiu um “Manual da Moral e dos Bons Costumes”. (Para quem estiver interessado, apenas $39,90 em qualquer livraria – imperdível!). A obra reunia pílulas rápidas sobre o que pode e o que não pode.

No capítulo “Não-pode”, as dicas – porque “regra” é uma palavra forte – eram divididas em categorias. Gênero, raça, classe, orientação sexual, idade, entre outras. Se você, homem, descumprisse o item #532 Divórcio – ok. Se você, mulher, se comportasse da mesma maneira, o rótulo estava posto. Ninguém estaria interessado entender a história por inteiro.

Claro, depois do rótulo fica mais fácil saber quem excluir. A vida passa rápido demais para perder tempo em conhecer aqueles que, perante o tribunal, já se perderam. Os olhos sedentos pela opressão fantasiada de justiça formam marginalizados. É este o castigo para quem não se encaixa na ideologia outorgada: um poço de culpabilização.

Tinha acordado cedo. Naquele dia estava especialmente cansada. Melhor dizendo, exausta. Do quê? Pouco importava. Era difícil conviver com a realidade. Não importava o quanto ela se esforçasse, sempre seria reconhecida pelos comportamentos desagradáveis à ordem. A verdade é que ninguém estava interessado, desde seu primeiro casamento falido, em conhecê-la. Era mais fácil tatuar a testa – para ficar bem visível a todos: puta!

A questão é: por que, em frente a um caso de separação conjugal, a primeira opção que aparece nas cabeças de terceiros é o adultério? Esta não seria a única razão plausível. Há outras. E se ela vivesse um relacionamento abusivo? Se ela fosse uma mulher com opiniões fortes? Se ela questionasse algumas coisas e se posicionasse frente a outras? E por que isso era tão importante a ponto de apagar todos os outros aspectos, características e experiências da história de alguém? Droga!

Lugar de mulher era em casa… e no poço! Sempre foi. A elas lhes foi definida a tarefa de tirar água. O curioso é que até para esta atividade simples existiam regras sociais. As mulheres de Sicar – uma cidade de Samaria – tinham o hábito de ir até lá sempre no mesmo horário. Não era o seu caso. Ela chegava com o seu vaso de barro para cumprir a rotina quando o Poço de Jacó estava vazio.

Diziam por aí, em todas as rodas de conversa da cidade, que ela tinha uma reputação duvidosa. Afinal, alguém que havia se casado cinco vezes e vivia com um homem que não era seu marido não deve ser uma boa companhia. Já estava perdida do rebanho. Não valia a pena perder tempo para caminhar com alguém assim.

Como era de costume, ela chegou quando o sol estava a pino. Naquele dia, ao invés de encontrar o local vazio, se deparou com um viajante. Enquanto cumpria a sua tarefa ao colocar água em seu cântaro, perdida em seus pensamentos, concluiu que aquele era o lugar que ela ocupava perante a sociedade. Deixada de lado, à beira do poço. Ninguém sabe, mas eu me identificava com ela.

 

Você poderia me dar um pouco de água? – Ele interrompeu o silêncio, para a sua surpresa. Naquela época, as mulheres não podiam ser vistas conversando com homens que não fossem seu pai ou marido. Principalmente se tratando de uma Samaritana e de um Judeu. Os dois povos não se davam muito bem – tipo coxinhas e mortadelas.

Como você, claramente um judeu, tem a coragem de pedir um pouco de água para mim? Eu sou Samaritana! – Exclamou, intrigada. Aquilo fugia da lógica. Não estava no “Manual da Moral de dos Bons Costumes” como lidar em caso de uma situação como esta. Ninguém havia previsto este comportamento. Era possível ignorar esta fronteira?

Você não sabe, mas Eu te conheço muito bem! Sei quem você é. Conheço sua história, suas dores e alegrias. A Graça de Deus se manifesta no encontro com o outro… mas você ainda não teve esta experiência. É por isso que estou aqui! Se você soubesse quem Eu Sou, você teria pedido e meu Pai já teria lhe dado água viva.

A mulher havia ficado confusa. Água viva? Que cara maluco!

 

Olhe, este poço é bem fundo! Você não trouxe nenhum recipiente. Que história é essa de água viva? Não entendo.

Ele convidou a Samaritana para se aproximar um pouco mais, pegou um pouco da água que ela havia tirado do poço e deu um gole. Então respondeu, sorrindo:

Está vendo este pouco de água que você tem aí? Qualquer pessoa que beber dela, depois de um bocado de horas, sentirá sede outra vez… certo?

Sim.

O nosso corpo precisa dela para se manter hidratado e funcionar com harmonia. A água viva à qual me refiro fará brotar em seu coração uma nova Vida, uma nova consciência. E o melhor de tudo: você se tornará uma fonte! Quando se relacionar com outras pessoas, elas verão como a Graça de Deus abraçou sua Vida e passarão a crer.

 

Aquele homem sabia de sua história e, mesmo assim, escolheu falar com ela. Uma mulher marginalizada. O que será que ele queria com essa conversa?

Vá, mulher. Chame o seu marido e volte aqui! – Ele continuou.

Não tenho marido… – Se limitou a dizer, com receio de ser deixada à beira do poço mais uma vez.

Eu sei. Na verdade, já teve cinco e hoje vive com um companheiro. É verdade! Você tem razão.

“Por que aquilo importava tanto?” – Ela pensou, num primeiro momento com o coração cheio de angústia. “Quer dizer… Será que importava? Ele ainda não havia feito nenhum julgamento”. De qualquer forma, é melhor falar de outra coisa. Ela havia criado algumas estratégias para desviar de dedos acusatórios. É o que acontece quando se bebe de um poço de culpabilização. Você precisa aprender a sobreviver.

 

Você é profeta, né? Bem, neste caso, me diga uma coisa. Nossos antepassados adoraram neste monte, mas os judeus dizem que Jerusalém é o lugar onde se deve adorar. Eu não entendo. Faz diferença?

A tradição diz que as pessoas conheceriam Deus a partir de Israel. O que elas ainda não entenderam é que não se trata de fronteiras geográficas. Isto é uma invenção humana – porque a lógica da sociedade sempre parte da segmentação para a exclusão. Criamos limites para dizer quem pode entrar em qual lugar, quem pode isso, quem pode aquilo. Escolhemos afastar e punir ao invés de conviver e abraçar. O Israel que meu Pai se refere é toda pessoa que o adorar em Espírito e, principalmente, em Verdade. Sem máscaras ou sem falsa superioridade. Entendendo suas inseguranças, dificuldades e erros. Se dispondo, a cada novo dia, buscar ser uma pessoa mais parecida com Ele! Não é só para os Judeus. É para todas e todos!

Eu sei que o Messias está para chegar e explicará tudo para nós. – Ela disse.

Eu sou o Messias! Eu, que estou falando com você!

 

Foi ali que ela, mulher marginalizada, deu seu primeiro gole na fonte de água viva. Decidiu que não havia mais espaço para a culpa. Já não importava mais! Ela precisava compartilhar este acontecimento com todos: a sobrevivência arrastada havia perdido a batalha. Por causa da Graça libertadora, agora ela era toda [r]-existência!

Imediatamente deixou seu vaso de barro à beira do poço e saiu daquele lugar que a sociedade a mandou ocupar. Provavelmente, ela é a primeira mulher missionária de que se tem registro histórico. Desafiou a cultura e a si mesma, testemunhando seu encontro com o Messias. E por causa de sua palavra, muitos creram.


Jéssica Rezende, 24 anos em constante (des)construção. Entende que Deus é e está em muito mais do que a religião apresenta. Escreve sobre isso nas horas vagas.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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